
Arrotar é algo tão natural que dificilmente alguém pensa sobre o assunto. Mas, para algumas pessoas, simplesmente não é possível. A incapacidade de arrotar, principalmente quando vem acompanhada de estufamento, pressão ou desconforto no peito, ruídos de borbulhamento na garganta e excesso de gases, pode estar relacionada a uma condição chamada disfunção cricofaríngea retrógrada (R-CPD), conhecida popularmente como síndrome do não arrotar.
Descrita de forma sistemática na literatura médica a partir de 2019, a R-CPD está relacionada ao funcionamento do músculo cricofaríngeo, localizado na região do esfíncter esofágico superior. Em condições normais, esse mecanismo permite a eliminação do ar acumulado no esôfago por meio do arroto. Na R-CPD, esse relaxamento não ocorre adequadamente para permitir a saída do ar pela boca, o que pode levar ao acúmulo de gases e ao surgimento de diferentes sintomas.
“O que chama a atenção na R-CPD é que a pessoa não consegue arrotar e, muitas vezes, considera isso simplesmente uma característica do próprio corpo. Quando essa incapacidade vem acompanhada de estufamento, ruídos de borbulhamento, excesso de gases ou desconforto no peito, é importante considerar que pode existir uma alteração relacionada ao músculo cricofaríngeo”, explica o otorrinolaringologista e laringologista Dr. Guilherme Catani, médico do Hospital de Clínicas da UFPR e professor adjunto de Otorrinolaringologia da Universidade Federal do Paraná.
Uma revisão sistemática publicada em 2024, com 13 estudos e 472 pacientes, identificou a incapacidade de arrotar em 99,8% dos casos analisados. Dor ou distensão abdominal e/ou torácica apareceram em 95,4%, ruídos de borbulhamento em 84,9% e flatulência excessiva em 75,9%. O estudo também mostrou que a maior parte dos diagnósticos foi estabelecida pela avaliação dos sintomas.
Uma revisão sistemática publicada em 2025, com 17 estudos e 826 pacientes, encontrou resultados semelhantes e reforçou que a condição ainda é provavelmente subdiagnosticada. Nesse levantamento, além da incapacidade de arrotar, distensão abdominal foi relatada em 95,7% dos casos, dor no peito em 86%, ruídos de borbulhamento em 80,2% e flatulência excessiva em 80,2%. O estudo apontou ainda que 55,5% dos pacientes apresentavam início dos sintomas na infância e que havia histórico familiar em 28% dos casos.
“A história clínica é muito importante porque, em muitos casos, o paciente consegue reconhecer que nunca arrotou ou que não consegue liberar o ar pela boca, mas não relaciona isso aos outros sintomas. É justamente essa associação que pode levantar a suspeita de R-CPD e indicar a necessidade de uma avaliação especializada”, afirma Catani.
Apesar do crescimento do conhecimento sobre a síndrome, ainda não existe um teste diagnóstico único considerado padrão-ouro universalmente estabelecido. A avaliação é predominantemente clínica, e exames como a manometria esofágica de alta resolução podem contribuir para a investigação em casos selecionados.
O tratamento que mais aparece na literatura atual é a aplicação de toxina botulínica no músculo cricofaríngeo, com o objetivo de promover seu relaxamento e permitir a eliminação do ar por meio do arroto.
“É importante deixar claro que não estamos falando simplesmente de aplicar toxina botulínica em qualquer pessoa que diga não conseguir arrotar. A avaliação precisa considerar o conjunto de sintomas e excluir outras possibilidades. Quando o quadro é compatível com R-CPD, a toxina botulínica pode ser uma opção terapêutica porque atua justamente no músculo que precisa relaxar para que o ar seja eliminado”, explica o especialista.
Ainda não há uma estimativa populacional definitiva sobre quantas pessoas apresentam R-CPD. “Quando uma pessoa percebe que nunca conseguiu arrotar e convive há anos com esses sintomas, vale investigar. O fato de o problema ser pouco conhecido não significa que o desconforto precise ser considerado normal ou simplesmente atribuído ao excesso de gases”, conclui Catani.
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