{"id":136144,"date":"2026-06-14T15:01:51","date_gmt":"2026-06-14T18:01:51","guid":{"rendered":"https:\/\/noticiasbahia360.com.br\/?p=136144"},"modified":"2026-06-14T15:01:51","modified_gmt":"2026-06-14T18:01:51","slug":"mudancas-no-clima-ameacam-producao-de-alimentos-em-territorios-quilombolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasbahia360.com.br\/?p=136144","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as no clima amea\u00e7am produ\u00e7\u00e3o de alimentos em territ\u00f3rios quilombolas"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/noticiasbahia360.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mudancas-climaticas-ameacam-producao-quilombola.jpg\" alt=\"\"><figcaption>Foto:  Lula Marques\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Ag\u00eancia Brasil \u2013 Na comunidade rural quilombola de Nova Esperan\u00e7a, na cidade de Bara\u00fana (RN), a agricultora Sueli Bessa, de 39 anos, recorda que, na inf\u00e2ncia, o cheiro da goiaba tomava conta do lugar. No entanto, os per\u00edodos secos ficaram cada vez mais frequentes e a fruta n\u00e3o aparece como antes.<\/p>\n<p>Sueli \u00e9 uma das lideran\u00e7as comunit\u00e1rias que participa at\u00e9 este domingo (14) do encontro nacional das mulheres quilombolas, no Gama (DF), que colocou a justi\u00e7a clim\u00e1tica como um dos temas principais. O presidente Lula visitou o encontro na quinta (11) e ouviu a preocupa\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>No caso da comunidade potiguar, al\u00e9m da goiaba, outras frutas e hortali\u00e7as, que fazem parte da vida das 70 fam\u00edlias que moram no local, tamb\u00e9m sofrem com os extremos clim\u00e1ticos. Ora com as secas, ora com temporais.<\/p>\n<p>Com as dificuldades, parte da comunidade teve que desistir de praticar a agricultura familiar e precisou arrumar emprego nas ind\u00fastrias na \u00e1rea urbana, que fica a mais de 20 quil\u00f4metros. A pista n\u00e3o ajuda.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria comunidade, que tamb\u00e9m n\u00e3o tem c\u00f3digo de endere\u00e7o postal (CEP), n\u00e3o \u00e9 asfaltada. As tempestades deixam ruas e estradas intrafeg\u00e1veis. \u201cQuando chove forte l\u00e1, \u00e9 horr\u00edvel\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 abastecimento regular de \u00e1gua e a comunidade depende de um po\u00e7o artesiano que, com a secura costumeira, deixou o dia a dia mais complexo para viver e plantar.<\/p>\n<p>Sueli Bessa, por exemplo, vende geleias e compotas na comunidade e em feiras na cidade. Ela sonha terminar o ensino m\u00e9dio, na escola que fica a 30 minutos de dist\u00e2ncia, para um dia fazer um curso superior. \u201cEm enfermagem ou em direito, para ajudar um dia mais a minha comunidade\u201d.<\/p>\n<p>A filha dela, a estudante Suelene Ribeiro, de 21, tem o mesmo pensamento. Criada nesse esp\u00edrito comunit\u00e1rio, ela diz que os coletivos de mulheres e de jovens est\u00e3o atentos \u00e0s dificuldades com o clima.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-pesquisa\">Pesquisa<\/h2>\n<p>Diante de dificuldades atravessadas em todos os biomas como a da comunidade potiguar, a Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lan\u00e7ou, durante o encontro nesta semana, o livro Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima, de 120 p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>A agr\u00f4noma Fran Paula, pesquisadora em sa\u00fade e meio ambiente, foi a principal respons\u00e1vel pelo estudo.<\/p>\n<p>Ela diz que houve mais v\u00edtimas mulheres assassinadas nos espa\u00e7os em que foi registrado um avan\u00e7o de grandes empreendimentos e o desmantelamento de pol\u00edticas ambientais.<\/p>\n<p>O trabalho apresenta den\u00fancias de impactos de grandes empreendimentos invadindo territ\u00f3rios quilombolas, que j\u00e1 enfrentam colapso clim\u00e1tico, em todos os biomas brasileiros.<\/p>\n<p>\u201cPara al\u00e9m das den\u00fancias, temos uma estrat\u00e9gia metodol\u00f3gica de como reunir contribui\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas para salvaguarda dos territ\u00f3rios e de conserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, e tamb\u00e9m de resist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisadora, que \u00e9 integrante da Conaq, nascida na comunidade de Campina de Pedra (em Pocon\u00e9-MT), diz que as a\u00e7\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o realizadas pelas mulheres s\u00e3o protagonistas do levantamento.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o trazemos apenas den\u00fancias do racismo ambiental, mas tamb\u00e9m apontamentos, solu\u00e7\u00f5es e as estrat\u00e9gias que as mulheres est\u00e3o construindo para enfrentar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, o livro traz estrat\u00e9gias de vigil\u00e2ncia ambiental que os territ\u00f3rios j\u00e1 exercem. \u201cA gente monitora h\u00e1 muito tempo essas mudan\u00e7as a partir das mulheres que permanecem nos territ\u00f3rios todo o tempo e t\u00eam a percep\u00e7\u00e3o quando o problema est\u00e1 atingindo o seu \u00e1pice\u201d.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-maiores-vitimas\">Maiores v\u00edtimas<\/h2>\n<p>Fran Paula diz que as mulheres s\u00e3o as primeiras a sentir os efeitos e as \u00faltimas a sa\u00edrem do territ\u00f3rio. Ela exemplifica que usinas de energia e\u00f3lica (concebidas como alternativa de energia limpa) impactam o modo de vida e de produ\u00e7\u00e3o das comunidades tradicionais.<\/p>\n<p>Os avan\u00e7os de grandes empreendimentos, explora\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo e tamb\u00e9m de min\u00e9rios, al\u00e9m das fazendas de monoculturas impactam os territ\u00f3rios. A pesquisadora indica que h\u00e1 um quadro generalizado de contamina\u00e7\u00e3o que tem afetado n\u00e3o s\u00f3 a sa\u00fade f\u00edsica das pessoas, mas tamb\u00e9m os modos de viver e a continuidade das identidades.<\/p>\n<p>Por isso, ela defende a necessidade de celeridade nas regulariza\u00e7\u00f5es de terras quilombolas. \u201cN\u00e3o existe justi\u00e7a clim\u00e1tica sem territ\u00f3rio garantido, sem titulariza\u00e7\u00e3o para esses territ\u00f3rios que precisam ser protegidos\u201d.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-marmelo-ameacado\">Marmelo amea\u00e7ado<\/h2>\n<p>Entre esses territ\u00f3rios que est\u00e3o prestes a serem protegidos, est\u00e1 o da comunidade Mesquita, que fica em Cidade Ocidental (GO).<\/p>\n<p>Segundo a coordenadora executiva da Conaq, Sandra Braga, que \u00e9 nascida e criada no local, h\u00e1 expectativa de que ainda neste ano o territ\u00f3rio seja finalmente demarcado. S\u00e3o 785 fam\u00edlias na \u00e1rea rural, com cerca de tr\u00eas mil pessoas.<\/p>\n<p>O primeiro registro de um grupo de moradores ocorreu no s\u00e9culo 18. O reconhecimento como territ\u00f3rio quilombola ocorreu apenas em 2006, quando a Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares concluiu os estudos antropol\u00f3gicos para delimitar a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Sandra Braga alerta que o fato de n\u00e3o haver titula\u00e7\u00e3o possibilita que fazendeiros da soja se apropriem de terras que s\u00e3o da comunidade.<\/p>\n<p>Um dos s\u00edmbolos de resist\u00eancia do lugar \u00e9 a planta\u00e7\u00e3o do marmelo, que resulta em diferentes produtos, como a marmelada e a geleia. \u201cAs fam\u00edlias t\u00eam em casa o p\u00e9 de marmelo para celebrar nossa tradi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os produtores rurais do marmelo da comunidade lamentam as varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, com longas estiagens. Antes, o marmelo rendia mais do que hoje em dia. At\u00e9 o fruto era maior. \u201cMeu pai (Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Pereira) foi um grande defensor da floresta nativa\u201d, contextualiza.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-beiju\">Beiju<\/h2>\n<p>Como na comunidade Mesquita, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas amea\u00e7am produ\u00e7\u00f5es que abalam a pr\u00f3pria identidade dessas pessoas. Na comunidade quilombola Divino Esp\u00edrito Santo (tamb\u00e9m conhecida pelo apelido Divino Beiju), em S\u00e3o Mateus (ES), o cultivo de mandioca para a produ\u00e7\u00e3o do beiju artesanal diminuiu por causa do caos clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u201cVendemos no mercado central da cidade. Somos conhecidos pelo beiju\u201d, diz a agricultora Denise Penha, de 42 anos.<\/p>\n<p>Com uma popula\u00e7\u00e3o de mais de 300 fam\u00edlias, a comunidade ainda precisa preservar o plantio de mandioca dos impactos dos agrot\u00f3xicos usados por fazendeiros das proximidades. Para que o famoso beiju continue com o mesmo sabor de vida org\u00e2nico e de vida em comunidade.<\/p>\n<\/p>\n<p><em>Siga o Acorda Cidade no\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/news.google.com\/search?q=acorda%20cidade&amp;hl=pt-BR&amp;gl=BR&amp;ceid=BR%3Apt-419\"><strong><em>Google Not\u00edcias<\/em><\/strong><\/a><em>\u00a0e receba os principais destaques do dia. 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