22 de September de 2026
Do sertão à estratosfera: mandacaru é levado a 33 km de altitude em missão realizada na Bahia
Foto: Divulgação

Acostumado ao sol e às altas temperaturas do sertão baiano, um pequeno pé de mandacaru foi submetido a uma experiência bem diferente: viajar até a camada da estratosfera e enfrentar temperaturas que chegaram a 49,7 °C negativos. A planta foi uma das “passageiras” de um balão lançado em Conceição do Coité, município localizado no Território do Sisal, que alcançou 33,1 quilômetros de altitude e registrou imagens da Terra vista do alto.

A missão foi realizada pelo comunicador e youtuber coiteense Alexsandro Mota, criador do projeto Mistérios do Espaço. Equipado com três câmeras capazes de gravar em 4K, sistema de localização, termômetro e outros equipamentos, o balão permaneceu no ar por duas horas e um minuto antes de retornar ao solo.

Alexsandro conta que o interesse pelo espaço começou ainda na infância, a partir da curiosidade pelo céu e pelas estrelas. Hoje, ele utiliza o Mistérios do Espaço para produzir conteúdo de divulgação científica sobre astronomia.

A ideia de partir de Conceição do Coité para observar a Terra de uma perspectiva pouco habitual também estava relacionada a esse propósito. “Queria mostrar essa perspectiva da Terra a partir de uma missão saindo daqui, de Conceição do Coité. É uma forma de mostrar que o interior do Nordeste pode ser ponto de partida para projetos de divulgação científica”, contou ao Acorda Cidade.

Um representante do sertão a 33 km de altitude

Entre câmeras, baterias e equipamentos de rastreamento, havia um passageiro bem diferente dentro da sonda: um pequeno pé de mandacaru.

Segundo Alexsandro, a escolha da planta foi uma forma de levar para a estratosfera um símbolo ligado ao Nordeste e à região de onde a missão partiu. Mas a viagem também despertava uma curiosidade: saber como o mandacaru reagiria às condições encontradas em uma altitude tão elevada. “Queria levar algo que tivesse uma ligação com a nossa terra e com a identidade de quem estava realizando a missão”, explicou.

Durante o percurso, o termômetro levado pela equipe registrou temperatura mínima de -49,7 °C. De volta ao solo, o mandacaru apresentou alguns danos. “O mandacaru ainda está vivo, mas bem prejudicado devido ao congelamento e radiação UV. Creio que ele viverá”, relatou Alexsandro.

A imagem enviada por Alexsandro ao Acorda Cidade mostra partes da planta ressecadas após a experiência, enquanto uma porção do caule permanece verde.

Do sertão à estratosfera: mandacaru é levado a 33 km de altitude em missão realizada na Bahia
Foto: Arquivo pessoal

Mas como o balão chegou à estratosfera?

O sistema utilizado funciona a partir de um balão de látex preenchido com hélio. Presa a ele estava uma sonda responsável por transportar os equipamentos.

À medida que o conjunto ganha altitude, a pressão atmosférica diminui e o gás no interior do balão se expande. O balão cresce até que o látex não suporta mais a expansão e se rompe. A partir daí, a sonda retorna à superfície presa a um paraquedas, utilizado para diminuir a velocidade da queda.

Para registrar a viagem, foram utilizadas três câmeras em 4K. Uma Insta360 X4 ficou instalada na parte externa e produziu imagens em 360 graus. Outras duas foram colocadas dentro da sonda: uma direcionada para a identificação do projeto Mistérios do Espaço com a paisagem ao fundo e outra utilizada como equipamento reserva.

Do sertão à estratosfera: mandacaru é levado a 33 km de altitude em missão realizada na Bahia
Foto: Divulgação

A estrutura também carregava baterias externas, termômetro e um sistema de rastreamento por GPS, utilizado posteriormente para localizar a sonda.

As imagens registradas durante a subida mostram uma transformação gradual da paisagem. O solo vai ficando distante até que, nas maiores altitudes alcançadas, o céu assume tonalidade escura e o horizonte terrestre aparece destacado no enquadramento.

Mais de 100 pessoas envolvidas

Essa não foi a primeira experiência de Alexsandro com um balão estratosférico. Em 2021, ele realizou um lançamento que alcançou 32,4 quilômetros. Na nova missão, a intenção era superar a marca e melhorar a qualidade das imagens.

O objetivo foi alcançado com os 33,1 quilômetros registrados desta vez. Segundo ele, mais de 100 pessoas deram apoio à realização do projeto, que exigiu meses de planejamento e desenvolvimento.

Antes do lançamento, foram realizadas simulações de trajetória e análises das condições meteorológicas para estimar o deslocamento do balão e a possível região de pouso. A estrutura também contava com paraquedas e sistema de rastreamento por GPS.

Então, depois de duas horas e um minuto de viagem, a sonda retornou à superfície a aproximadamente 12 quilômetros do ponto de onde havia partido, nas imediações de Serrinha. O sistema de GPS permitiu que a equipe chegasse até o equipamento e recuperasse as três câmeras e os registros produzidos durante o voo.

Por enquanto, uma terceira viagem à estratosfera ainda não está nos planos imediatos. “Agora é hora de respirar um pouco. A missão deu muito trabalho, meses e mais meses de planejamento e desenvolvimento”, disse Alexsandro.

Matéria produzida pelo estagiário de jornalismo Davi Cerqueira, com supervisão.

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