

Durante muito tempo, escrever História no Brasil significou contar feitos políticos, listar nomes de autoridades e exaltar personagens considerados “fundadores” ou “heróis”. Era uma História frequentemente centrada em grandes acontecimentos e grandes homens, como se o passado fosse uma sequência de gestos individuais. No caso de Feira de Santana, essa tradição existia com força, principalmente em narrativas locais que tratavam o município mais como símbolo regional do que como objeto científico de estudo.
Foi nesse contexto que o historiador norte-americano Rollie E. Poppino realizou, ainda nos anos 1950, uma pesquisa que mudaria o modo como Feira de Santana poderia ser compreendida. Sua obra, publicada em português em 1968 pela Editora Itapuã, não se destacou apenas pelo volume de informações reunidas, mas pelo método de investigação adotado, que se aproximava das tendências mais avançadas da historiografia internacional do século 20, especialmente da renovação promovida pela Escola dos Annales, na França, que ampliou o olhar histórico para além da política e dos grandes personagens.
O prefácio escrito pelo antropólogo e historiador Thales de Azevedo é revelador. Ele afirma que o trabalho de Poppino não era um estudo isolado, mas fazia parte de um programa de pesquisa mais amplo, voltado a compreender mudanças culturais e sociais em áreas do interior baiano. O objetivo era observar comunidades rurais e urbanas em transformação e identificar suas estruturas de vida, analisando Feira de Santana como organismo social e econômico em permanente movimento.
O método hoje
É verdade que a historiografia avançou muito depois da obra de Poppino. Hoje, temas como raça, gênero, cultura popular, história oral e micro-história ocupam um lugar muito mais central. Além disso, as discussões pós-coloniais e a crítica às narrativas eurocêntricas também mudaram o modo como se interpreta o Brasil. Isso, porém, não diminui o mérito do trabalho realizado por ele. Pelo contrário. A obra deve ser compreendida como um marco de transição, que ajudou a deslocar a história local do campo da exaltação para o campo da análise.
A principal inovação do historiador norte-americano foi tratar Feira como sociedade e não como folclore. Ele não olhou o município apenas como “cidade sertaneja” ou como curiosidade regional, mas como um caso histórico capaz de explicar o funcionamento de uma sociedade inteira, com seus mecanismos econômicos, suas redes de comércio, seus valores culturais e sua estrutura política. Assim, rompeu com a tradição da “história de heróis” e fez a cidade deixar de ser apenas cenário para virar objeto de investigação.
O índice da obra evidencia essa perspectiva. Poppino organizou o livro em capítulos que tratam de temas como desenvolvimento econômico, instituições sociais, agricultura, transportes, indústria, comércio, população, saúde pública, religião e desenvolvimento cultural. A política aparece, mas como parte de um sistema maior, não como eixo exclusivo da narrativa. Esse tipo de abordagem dialoga diretamente com a tradição inaugurada pelos Annales, que defendia uma História voltada para estruturas sociais, processos de longa duração e múltiplas dimensões da vida coletiva.
O próprio Poppino explica, em seu prefácio, que a obra é resultado de cerca de 20 anos de pesquisas e revisões, com várias versões e acréscimos. Ele afirma ter consultado arquivos municipais, documentos em Salvador, além de materiais da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Também diz que extraiu dados de jornais, entrevistas e documentos oficiais, e que precisou atualizar ortografia e padronizar termos para facilitar a leitura do público brasileiro.
Papel estratégico
Outro ponto decisivo é que Poppino não trata Feira como um município isolado. Logo no início, ao descrever a cidade em 1950, ele enfatiza seu papel estratégico como ponto de passagem entre Salvador e o sertão, destacando que o volume de tráfego e comércio era superior ao de outras cidades do interior baiano. Assim, a cidade aparece inserida numa rede regional de circulação, elemento essencial para compreender seu crescimento e sua identidade histórica.
Por isso, Rollie Poppino foi um divisor de águas. Não apenas porque escreveu sobre Feira de Santana, mas porque mostrou que Feira merecia ser estudada como História em sentido pleno, com método, com fontes e com interpretação. Sua obra permanece como referência fundamental para compreender a formação econômica, social e cultural do município e suas conexões com o sertão e o litoral.
O livro ‘Feira de Santana’ está disponível ao público na Biblioteca Digital Outran Borges, da Academia Feirense de Letras, iniciativa que vem reunindo obras raras e fundamentais para a preservação da memória e da produção intelectual feirense.
Por Everaldo Goes, jornalista e graduado em Licenciatura em História. Matéria Publicada pelo Feira Hoje
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