22 de February de 2026
mulher imortal
Foto: Reprodução / Feira Hoje
Há 50 anos, o jornalista Hélder Alencar dedicou uma página inteira do Feira Hoje ao pioneirismo de Edite Mendes da Gama e Abreu.
mulher imortal
Foto: Reprodução / Feira Hoje

O Feira Hoje dedicou, em 17 de outubro de 1976, uma página inteira à trajetória de Edite Mendes da Gama e Abreu, a primeira mulher do Brasil a ocupar cadeira em uma Academia de Letras.

Décadas antes de a Academia Brasileira de Letras admitir mulheres, Edite já havia rompido a barreira. Em 1938, tomou posse na Academia de Letras da Bahia, após alteração estatutária que permitiu sua entrada em uma instituição até então restrita aos homens.

Muito além do pioneirismo

Educadora, escritora e historiadora — com o nome também grafado como Edith em diversos registros — nasceu em Feira de Santana, em 1903. Fundou a Federação Baiana pelo Progresso Feminino, participou de congressos feministas nacionais e internacionais e presidiu o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo.

Autora de livros, ensaios e mais de 200 conferências, consolidou-se como uma das intelectuais mais importantes do século 20 na Bahia. Faleceu em 1982, anos após a publicação do texto de 1976, deixando legado permanente na educação, na literatura e na luta pelos direitos das mulheres.

Memória que permanece 

Na Academia Feirense de Letras, Edite Mendes da Gama e Abreu é patrona da Cadeira 7, atualmente ocupada pela acadêmica Claudia Gomes. Seu nome integra de forma definitiva a história cultural de Feira de Santana e da presença feminina nas instituições literárias brasileiras. É homenageada com o nome em importante estabelecimento escolar do município.

Hélder Alencar, foi um dos idealizadores do Feira Hoje, jornalista e advogado, além de ex-procurador jurídico da Uefs. Falecido em 2022, deixou contribuição marcante para o jornalismo feirense e para a consolidação institucional da Universidade.


Uma Feirense: primeira mulher a ser imortal

Texto: Hélder Alencar

A Academia Brasileira de Letras, em sua última reunião, na quinta‑feira, pela unanimidade dos seus imortais, modificou os estatutos, permitindo o ingresso de mulheres, até então proibido.

Caiu, assim, um dos mais antigos e retrógrados tabus do Brasil, mantido pelos acadêmicos, sem que houvessem razões mais sérias para a existência de tal preconceito, numa época em que as mulheres assumem posições de destaque na vida humana, deixando de ser apenas a dona de casa, para dar uma contribuição maior e mais decisiva à comunidade, quando toda a humanidade necessita do trabalho, do esforço e da integração de todos, para superar seus problemas, solucionar suas crises e encontrar, com mais facilidade, os caminhos árduos e difíceis, da paz, da concórdia e da felicidade.

Não havia, pois, razão maior, senão um preconceito descabível, para proibir que as mulheres tivessem acesso à Academia Brasileira de Letras, onde, às quintas‑feiras, alguns literatos e outros menos dotados, reúnem‑se para um chá, aproveitando a beleza do crepúsculo e a amenidade do pôr do sol.

Muito antes, entretanto, que a Academia Brasileira de Letras derrubasse o tabu, uma mulher fez parte de uma Academia, aliás a primeira mulher, no Brasil, a ingressar em instituição de tal porte, a feirense Edite Mendes da Gama e Abreu, escritora, historiadora, mestra, que chegou à Academia de Letras da Bahia em 1938, há 38 anos portanto.

Edite Mendes, que mais tarde tornou‑se Edite Mendes da Gama e Abreu, por ter se casado com Jayme Cunha da Gama e Abreu, professor emérito da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, nasceu na Feira de Santana, sendo seus pais João Mendes da Costa, antigo prefeito deste município, e Augusta Falcão Mendes da Costa.

Fazendo seu curso primário no Asilo Nossa Senhora de Lourdes, nesta cidade, foi aluna de uma das mais famosas e competentes mestras da Feira antiga, a professora Estefânia Mena.

Concluído o primário, formou‑se, posteriormente, em professora, no Colégio dos Perdões, em Salvador.

Ao lado do seu trabalho como escritora, historiadora e pesquisadora, Edite Mendes da Gama e Abreu exerceu, durante vinte longos anos, o magistério, como professora de Didática Geral, na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia.

A escritora, que, repetimos, ingressou em 1938 na Academia de Letras da Bahia, foi, também, a primeira mulher a ser indicada para compor uma Constituinte Federal, em 1934.

Edite Mendes da Gama e Abreu já publicou, além de 10 opúsculos, sobre assuntos os mais variados, três livros maiores: Problemas do Coragem, um ensaio sobre problemas do amor e do casamento; O Romance, estudo crítico sobre o romance; A Cigana, que é um romance, além de ter feito uma série de conferências.

Além de ser a primeira mulher a ingressar numa Academia de Letras e a ser indicada para uma Constituinte Federal, ela foi, também, a primeira mulher, no Brasil, a presidir um Instituto Histórico, o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, do qual faz parte há muitos anos, ao lado de outro feirense, não menos ilustre, o poeta Godofredo Rabelo de Figueredo Filho.

Edite Mendes da Gama e Abreu, Godofredo Filho, Hélio Simões e Edvaldo Boaventura compõem o que poderíamos chamar a bancada feirense na Academia de Letras da Bahia, cada qual com seu estilo e seu gênero literário.

A escritora feirense, eleita, há alguns anos, vice‑presidente da Academia, tornou‑se, durante largo período, sua presidente, sendo assim, também a primeira mulher a ocupar a presidência de uma Academia de Letras.

Edite Mendes da Gama e Abreu, além de pertencer à Academia de Letras da Bahia, é membro correspondente das Academias Carioca e Matogrossense de Letras.

Há cinco anos, ela foi distinguida com dois títulos de maior valor: Hermana de América, conferido pela Sociedade Pan‑Americana, que lhe valeu ser considerada a mulher das Américas, em 1971, e Cavaleira do Facho Intelectual da França, condecorações que lhe foram concedidas pelo seu inestimável mérito intelectual.

Foi ainda em 1971 que o seu nome passou a figurar no Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis, editado pelo Lelo do Porto.

Recentemente, a feirense Edite Mendes da Gama e Abreu fundou, em Salvador, a Academia de Letra e Arte Mater Salvatore.

Possui, ainda, a escritora, alguns títulos, não só nacionais, mas internacionais, sendo dois deles recebidos na Argentina e no Uruguai.

É Edite Mendes da Gama e Abreu, cidadã carioca, e fez parte do primeiro Conselho de Educação da Bahia, no governo de Góes Calmon.

Foi condecorada com a Medalha Maria Quitéria, pelo Exército Brasileiro, possuindo, também, as condecorações Imperatriz Leopoldina, Pirajá da Silva e Rui Barbosa.

Edite Mendes da Gama e Abreu, historiadora, escritora, imortal, é, sem sombra de dúvida, uma das maiores glórias contemporâneas da nossa terra.

Ela já se inscreveu, com todos os seus méritos e por todos os seus títulos, na nossa História. O seu nome faz parte, hoje, da galeria dos maiores filhos da Feira de Santana em todos os tempos.

Edite Mendes da Gama e Abreu foi, desta forma, uma pioneira. Fez parte, antecipando‑se a todas as resoluções e a toda ascensão fêmina de academias, de institutos e de constituintes.

Aposentada da Universidade Federal da Bahia, Edite dedica-se, agora, mais ainda às suas atividades literárias e culturais, e um exemplo disso é a criação, recente, da Academia de Letra e Arte Mater Salvatore.

E constante, assidua, permanente, a pre-sença de Edite Mendes da Gama e Abreu na cultura balana. Seu nome está sempre na liderança e na primeira linha dos movimentos literários.

Feirense ilustre, ela já foi homenageada nesta terra, tendo o seu nome em um dos nos-sos grupos escolares.

Agora, quando a Academia Brasileira de Letras, unanimemente, decide pelo ingresso da mulher em seus quadros, o nome da escritora feirense desponta como pioneira, como aquela que, há 38 anos, rompeu uma barreira e venceu um tabu, ao ser eleita para a Academia de Letras da Bahia.

E, ao lado disso, Edite projetou-se como historiadora emérita, a ponto de presidir o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, numa época em que os preconceitos contra a mulher ainda estavam na ordem do dia.

Fol quebrando preconceitos, derrubando tabus, rompendo barreiras que ela chegou, em 1938, à Academia de Letras da Bahia, com todos os seus méritos literários, com toda a sua bagagem cultural.

E essa presença é, também, há 38 anos, a presença da Feira de Santana na Academia de Letras da Bahla, hoje reforçada, lógico, com os ingressos do professor, historiador e poeta Godofredo Filho, do poeta e professor Hélio Simões e do professor, escritor e educador Edvaldo Boaventura.

É, assim, uma feirense, ilustre feirense, Edite Mendes da Gama e Abreu, a primeira mulher brasileira a ser eleita para uma Academia de Letras, o que não deixa de ser uma honra para a Feira de Santana. Honra que é muito maior para esta terra do que para a própria escritora, que conserva, com sua inteligência e seu talento, humildade, modéstia e simplicidade.

Agora, passados 38 anos, a mulher pode chegar à Academia Brasileira de Letras. Depois do ingresso da escritora feirense, outras Academias permitiram o ingresso de mulheres.

Mas ficou o exemplo de Edite Mendes da Gama e Abreu, exemplo que, felizmente, deu frutos, contribuiu para que as barreiras fos-sem vencidas.

O ploneirismo de Edite Mendes será sempre lembrado quando se escrever sobre a luta das mulheres para ter um lugar em socieda-des literárias. O seu pioneirismo, em todos os momentos da sua vida, será sempre recordado e aplaudido.

Edite Mendes da Gama e Abreu, feirense ilustre, foi, pois, a primeira mulher a ingres-sar numa Academia de Letras, no Brasil in-gresso que se deveu aos seus méritos, ao seu talento, à sua inteligência, à sua capacidade literária e ao seu trabalho cultural.


Fonte: Feira Hoje

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