

Em menos de três meses, casos envolvendo agentes de segurança pública trouxeram à tona não só a gravidade da violência contra a mulher, mas também a urgência do cuidado com a saúde mental nas corporações e do enfrentamento ao feminicídio. Nesse contexto, ganha ainda mais relevância em Feira de Santana o Sevap (Seção de Valorização Profissional), que oferece atendimento psicológico gratuito a policiais militares e seus familiares.
- Somente este ano, episódios como o da policial militar Gisele Alves Santana, em São Paulo, encontrada morta em casa, com o caso passando de suicídio para investigação de feminicídio, e o marido, tenente-coronel da PM, preso após indícios de agressões;
- o da empresária baiana Flávia Barros, de 38 anos, morta em um hotel em Aracaju (SE), tendo como suspeito o companheiro, diretor do Conjunto Penal de Paulo Afonso (BA), que tentou tirar a própria vida;
- e o da comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, de 37 anos, assassinada a tiros pelo namorado, policial rodoviário federal, que morreu em seguida, expõem um padrão preocupante.
O que esses casos tem em comum? A brutalidade da violência contra a mulher envolvendo agentes de segurança como suspeitos e, em alguns deles, desfechos de feminicídio seguidos de suicídio ou tentativa. Situações que acendem um alerta dentro e fora das instituições e que reforçam a responsabilidade dessas corporações em enfrentar, também internamente, o machismo estrutural e outras formas de violência contra as mulheres, sem perder de vista que nada justifica o crime: feminicídio é uma violência extrema e nunca, em hipótese alguma, é uma responsabilidade da vítima.
Masculinidade tóxica contribui para manutenção da violência
No contexto das forças de segurança, a visão de ‘virilidade’ é ainda mais acentuada pela masculinidade tóxica institucional. Pensando que, se um policial é condicionado a ser uma figura de força invulnerável, onde demonstrar sentimentos, cansaço ou buscar apoio psicológico é visto como sinal de ‘fraqueza’ perante a tropa, também será difícil buscar ajuda. Isso se agrava porque muitos homens ainda são criados sob a lógica de que brutalidade e grosseria são provas de virilidade, o que os afasta do diálogo e do suporte emocional.
“Eu acho que o que mais colabora é a falta de procura dos pacientes. O brasileiro parece que, por cultura, é meio negligente com a saúde. O brasileiro busca, na maioria das vezes, o profissional de saúde para cuidar da doença, não é para cuidar da saúde”, afirmou o psicólogo Graciliano Martins dos Santos Filho, que atua no Sevap.
E esse silenciamento cria um ciclo perigoso: o agente acumula o estresse extremo da profissão e, sem canais de vazão emocional, acaba reproduzindo a violência em casa. São esses casos recentes de feminicídio envolvendo agentes de segurança que mostram que, quando a arma de serviço se junta a um sentimento de posse sobre a parceira, o desfecho é fatal. Combater o feminicídio exige, portanto, desconstruir a ideia de que ser ‘homem da lei’ é sinônimo de ser o “macho alfa”, “acima de tudo”, como diz o tenente em conversas ameaçadoras antes de supostamente matar a Gisele, em São Paulo.
Sevap: Seção de Valorização Profissional
Vinculado ao Comando de Policiamento Regional Leste (CPR-L), o Sevap conta com uma equipe de seis psicólogos e funciona durante toda a semana, incluindo fins de semana e feriados, atendendo policiais e também seus familiares (cônjuges e filhos).
Segundo o psicólogo Graciliano Martins é fundamental compreender que esses episódios estão inseridos em uma realidade mais ampla e estrutural da sociedade brasileira.

“Os problemas sociais dificilmente a gente consegue apresentar uma só causa. A sociedade tem experimentado essas situações até com certa frequência e a Polícia Militar é parte dessa sociedade, não está imune a essa situação”, afirmou ao Acorda Cidade.
“Muitos deles já têm acesso à instituição com algum problema de saúde mental. Não são poucas as pessoas que têm problemas de saúde mental. Ao participar das ações policiais, alguns deles acabam apresentando aquilo que eles já possuíam antes de chegar aqui. Em outras palavras, o adoecimento não se dá por conta do trabalho em si”, pontuou.
Apesar da estrutura disponível, a adesão ao acompanhamento psicológico ainda é um desafio no Sevap. O atendimento é voluntário, o que limita a atuação preventiva.
“Nós não fazemos exames de rotina, porque esse é um procedimento que tem que ser voluntário. Ninguém é obrigado a fazer psicoterapia. […] isso dificulta bastante para a gente fazer um trabalho profilático”, disse.
No contexto dos feminicídios, o psicólogo chama atenção para sinais que podem surgir antes de situações extremas, especialmente no campo psicológico, um dos principais por manter o ciclo de violência contra a mulher. “As primeiras ações agressivas, violentas, se dá na esfera psicológica. Busque ajuda, faça a denúncia”, destacou.
Para o psicólogo, muitos transtornos têm origem ainda na infância e podem se manifestar de forma mais intensa ao longo da vida.
“Os problemas mentais, do ponto de vista da abordagem que eu acredito, são todos organizados na infância. Na fase adulta, eles vão aparecer quando houver uma pressão psicológica acima daquilo que a mente é capaz de suportar”, disse.
Além do atendimento clínico, o Sevap também realiza ações preventivas nas unidades policiais, buscando aproximar os profissionais do serviço e estimular o cuidado com a saúde mental.
“Vão impactar aqueles policiais que já vêm com algum problema semelhante. Todas as vezes que nós percebemos alguma situação diferente, nós nos aproximamos com a intenção de ajudá-lo, mas vamos sempre depender da anuência dele para que essa ajuda aconteça.”
Ao reforçar a importância do Sevap, o psicólogo destacou ainda que o espaço está disponível, mas o primeiro passo ainda depende de quem precisa de ajuda. Ele também faz um convite direto à tropa e às famílias.
“Nós estamos aqui abertos e fazemos palestras nas unidades com o intuito de promover essa clínica, de fazer a propaganda. Estamos aqui abertos com a intenção de evitar qualquer situação que produza sofrimento para o nosso policial ou para os seus familiares.”
Como denunciar: Violência não é problema privado, é crime e pode ser denunciada pelo Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher), pelo 190 (em caso de flagrante ou risco imediato), pelo Disque 100 (para violações de direitos humanos) ou nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs). Procure ajuda, proteja-se e proteja as mulheres do seu convívio social.
Com informações do repórter Ed Santos do Acorda Cidade
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