19 de April de 2026
novelinha das futas
Foto: Reprodução/ Redes sociais
Esse formato de vídeo vem se destacando por seu alto poder de engajamento, gerando debates não só no mundo virtual, mas também na vida real.
novelinha das futas
Foto: Reprodução/ Redes sociais

Com enredos envolventes e músicas que prendem o público às narrativas, as “novelinhas das frutas” e as “novelinhas das princesas mandrakas” se tornaram fenômenos virais nas redes sociais. Elas conquistam não apenas o público jovem e infantil, mas também adultos. Esse formato de vídeo curto vem se destacando por seu alto poder de engajamento, gerando debates e discussões não só no mundo virtual, mas também na vida real.

As novelinhas de frutas são caracterizadas por narrativas que envolvem personagens como a “Moranguete”, o “Abacatudo” e o “Sr. Melão” em um contexto de vivências humanas. As produções das “princesas mandrakas” seguem pela mesma lógica: princesas dos filmes infantis vivendo em contextos totalmente inusitados e com estilos que se distanciam muito do que o público é acostumado.

De acordo com Ciane Lopes, estrategista em marketing digital e professora de pós-graduação em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais, as novelinhas de Inteligência Artificial (IA) são “feitas sob medida” para o algoritmo das redes sociais devido à sua narrativa curta e gancho emocional forte, que costumam envolver conflitos, traições, vingança e reviravoltas (um dos ganchos para a ‘parte dois’ de uma sequência de vídeos), prendendo a atenção do espectador nos primeiros segundos.

Ciane Lopes
Ciane Lopes | Foto: Arquivo pessoal

O formato é altamente escalável, permitindo que produtores publiquem muitos vídeos diariamente, o que impulsiona o alcance.

“Quem produz consegue postar 5, 10, 20 vídeos por dia, e volume ainda é um dos maiores impulsionadores de alcance. Geram também curiosidade ou estranheza, é um efeito do tipo  ‘eu não acredito que isso foi feito por IA’. E isso aumenta a retenção e até o compartilhamento”, explicou a estrategista em entrevista ao Acorda Cidade.

O ritmo acelerado proporciona uma rápida liberação de dopamina no cérebro do espectador. Segundo Ciane, as novelinhas das frutas são consideradas uma evolução dos conteúdos virais antigos, mas com produção praticamente infinita, custo quase zero e modelo replicável. 

Novo cenário de criação

Com o avanço das tecnologias e do sistema de produção, conteúdos de entretenimento utilizando a inteligência artificial se configuram como uma nova forma de criação midiática, marcada pela ampliação das possibilidades criativas, ao mesmo tempo em que levantam debates sobre autoria, ética e limites.

“A gente só está experimentando o começo do que pode ser o entretenimento nas redes com o uso da IA. Mas existem algumas tendências que a gente já consegue sinalizar. O conteúdo é hiper personalizado, então cada pessoa pode consumir histórias adaptadas ao seu prórpio gosto, tema, ritmo e tipo de personagem. A produção é descentralizada, então, não são só as grandes produtoras que podem criar e desenvolver projetos criativos. Os pequenos também, com o uso de uma tecnologia muito mais acessível”, explicou.

As narrativas se tornam infinitas, evoluindo com base no engajamento e atrelado à rolagem infinita do feed, seja em plataformas como o Instagram, TikTok ou Shorts do YouTube.

Senso crítico se torna crucial

A mistura entre o real e o artificial dificulta a distinção entre o que é humano e o que é gerado por IA, transferindo o valor da produção para a curadoria de qualidade, além de tornar crucial o valor do senso crítico do espectador.

“É realmente a capacidade de olhar para algo, questionar e evitar vieses, além de fugir de bolhas, para que nós e nossa forma de pensar não sejam afetadas por esses conteúdos”, informou a professora ao Acorda Cidade.

Impacto em crianças e adolescentes 

A preocupação com o impacto em crianças e adolescentes aumenta, pois conteúdos nocivos, envolvendo violência, sexualização e manipulação, por exemplo, não possuem classificação indicativa formal, podendo levar à normalização de comportamentos prejudiciais, dessensibilização emocional e consumo compulsivo. 

Não há solução única para proteger as crianças desses conteúdos. É necessário um conjunto de ações no ambiente familiar, como conversas abertas, limitação de tempo de tela e um acompanhamento ativo nas plataformas.

O ECA digital (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente), em vigor desde março de 2026, responsabiliza as plataformas, obrigando elas a removerem conteúdos nocivos rapidamente, criando verificação de idade real e oferecendo controle parental mais efetivo.

Conteúdos de violência, sexualização e drogas devem ser restringidos para menores, o que inclui muitas novelinhas (como a das frutas e das princesas) que atualmente escapam dos filtros.

Segundo Ciane, a nova lei é um avanço importante ao regular mecanismos que incentivam o vício, como rolagem infinita e autoplay, protegendo as crianças da adultização digital.

Algoritmo

Ciane destaca que não há uma atualização específica de plataformas que favoreça a inteligência artificial. O sucesso vem das análises humanas sobre o funcionamento do algoritmo.

Para evitar um ambiente “insalubre” de conteúdo, as pessoas podem consumir conteúdos de criadores humanos que utilizam a IA com responsabilidade.

“A gente tem um ambiente novo. Precisamos buscar leis e opções que não nos prejudique e, principalmente, estudar muito para ser capaz de ter muito senso crítico e ignorar esse tipo de conteúdo, questionar esse tipo de conteúdo, quando, na verdade, podem ser realmente nocivos até para o nosso entendimento de mundo”, afirmou a estrategista. 

Com informações da jornalista Daniela Cardoso, do Acorda Cidade

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