
O potencial da Inteligência Artificial (IA) vai muito além de escrever textos ou criar imagens curiosas na internet. Na verdade, a ciência desenvolvida dentro dos laboratórios da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) é a prova viva disso. Da biotecnologia à análise de documentos históricos, a tecnologia virou uma aliada de peso para os pesquisadores da Universidade.
Essa história, inclusive, não é de hoje. Em 2020, no ápice da pandemia de Covid-19, cientistas da Uesb já cruzavam dados com o auxílio da IA para combater o vírus. O esforço resultou em diversos artigos científicos e na criação de um software inovador, capaz de desenhar sequências de peptídeos (moléculas que ajudam a defender o organismo) contra a Covid-19, alcançando uma eficácia comprovada de mais de 90%.
O professor Bruno Andrade, do Departamento de Ciências Biológicas (DCB), campus de Jequié, fez parte desse time e, hoje, direciona a tecnologia para o que a ciência chama de “desenvolvimento racional”. Na prática, ele usa os computadores para o “desenvolvimento racional de fármacos, pesticidas, conservantes de alimentos, controle de pragas e vetores de doenças, antivirais, antibióticos e biosensores”, elenca.
Mas engana-se quem pensa que a IA serve apenas para as Ciências Exatas ou Biológicas. No Departamento de Estudos Linguísticos e Literários (Dell), campus de Vitória da Conquista, a professora Cristiane Namiuti lidera projetos que mostram como a tecnologia pode ajudar a desvendar o passado. Em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela coordena o desenvolvimento de ferramentas de IA focadas em limpar, tratar e analisar textos antigos digitalizados.
Essa união de esforços deu vida ao Corpus Carolina: um vasto e organizado acervo de textos do português brasileiro contemporâneo (produzidos entre 1970 e 2021). Esse “banco de palavras” é fundamental para o avanço do Processamento de Linguagem Natural (PLN) no país, que é a tecnologia que permite aos computadores entenderem a nossa língua da forma como ela é falada e escrita de verdade.
Ferramenta sim, substituta não
Apesar dos resultados impressionantes, os cientistas deixam claro: a tecnologia não faz mágica. É preciso ter cautela. “A IA é bastante limitada, não substitui o ser humano, requer muito treinamento e correção. O uso não consciente pode levar ao erro de confiar que uma ferramenta possa realizar um trabalho humano sozinha”, alerta Cristiane.
Bruno concorda e resume a dinâmica: “A IA deve ser uma ferramenta, e não um substituto ao método científico tradicional”. Afinal, sem o olhar crítico do cientista para conferir os resultados, os algoritmos podem falhar.
Ética em foco
A questão ética é um debate forte quando o assunto é Inteligência Artificial. Afinal, para que seja possível utilizar essa ferramenta em estudos científicos, é necessário que ela seja treinada a partir de dados prévios, geralmente disponíveis em bases de dados públicas. “Muitas vezes esses dados são utilizados indiscriminadamente e sem referenciar as fontes originais”, explica Bruno.
Quando os estudos envolvem pacientes humanos, a situação se torna ainda mais delicada, pois envolve a privacidade dos pacientes. Assim, os pesquisadores precisam redobrar o cuidado no tratamento dos dados e na obtenção do consentimento para seu uso em uma Inteligência Artificial.
Para Bruno, a solução é “manter a formação crítica e ética dos cientistas e aspirantes a cientistas através de campanhas de conscientização, cursos e formações para o uso correto dessas ferramentas, além de criar mecanismos de detecção do uso incorreto dessas tecnologias”, finaliza.
Confira outros conteúdos científicos no site do “Ciência na Uesb”
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