10 de August de 2026
Misoginia, discursos de ódio e violência contra mulheres: onde termina a opinião e começa o crime?
Foto: Kaio Vinicíus/Acorda Cidade

O que leva um homem a acreditar que pode usar o corpo de uma mulher para satisfazer os próprios desejos? A resposta para essa pergunta passa por um tema que tem ganhado cada vez mais espaço diante de casos recentes de importunação sexual, discursos de ódio nas redes sociais e da discussão sobre a criminalização da misoginia. Mas o que, de fato, caracteriza a misoginia? Em que ela se diferencia do machismo? E em que momento uma fala deixa de ser liberdade de expressão para se transformar em discurso de ódio?

Essas e outras reflexões são o ponto de partida do 171º episódio do Podcast do Acorda Cidade, apresentado pela jornalista Jaqueline Ferreira, que recebe a advogada Esmeralda Halana, presidente da Comissão em Defesa dos Direitos das Mulheres e das Advogadas da OAB Subseção Feira de Santana. Ao longo da conversa, a especialista explica como a misoginia se manifesta no cotidiano, analisa a repercussão de casos recentes de importunação sexual e mostra como comportamentos muitas vezes naturalizados podem contribuir para perpetuar a violência contra as mulheres.

Ao longo da entrevista, Esmeralda explica que a misoginia vai além de ataques explícitos e pode estar presente em atitudes e discursos naturalizados pela sociedade.

“A misoginia, ela é o ódio, a aversão às mulheres. Isso significa o quê? Você tratar a mulher de uma forma inferior, de uma forma submissa, de objetificar essa mulher, de não trazer o valor que aquela mulher tenha. Tenha como mulher, como ser humano, como pessoa incluída numa sociedade. E isso vai desaguar em muitos direitos que serão violados que serão vilipendiados, tanto que a gente verifica os dados. Elas sofrem diariamente diversas violências, violências essas que são encontradas no âmbito do trabalho, no âmbito doméstico e familiar, nas ruas. (…) Hoje em dia, a gente precisa combater essa misoginia desde cedo para que não chegue lá na frente e não se transforme em outras violências.”

Misoginia, discursos de ódio e violência contra mulheres: onde termina a opinião e começa o crime?
Foto: Kaio Vinicíus/Acorda Cidade

Um dos pontos da conversa é a relação entre discursos de ódio, objetificação da mulher e casos recentes de importunação sexual que repercutiram na Bahia. Entre eles, o de um jovem de 21 anos preso após ser flagrado se masturbando enquanto observava uma vizinha na academia de um condomínio, em Feira de Santana, e o de uma mulher que denunciou ter sido atingida por sêmen enquanto tomava sol na piscina de um condomínio em Salvador. Para a advogada, os episódios servem de ponto de partida para discutir como a misoginia pode influenciar diferentes formas de violência contra as mulheres.

E o que parece óbvio ainda precisa ser dito: a tentativa de transferir a responsabilidade para a vítima continua sendo uma das formas mais comuns de perpetuar essas violências.

“A culpa não é da vítima, é desse agressor. E esses casos vindo à tona são extremamente importantes para a gente discutir de que não há uma impunidade, porque a importunação sexual hoje é criminalizada. É uma legislação recente, de 2018, e hoje a gente consegue falar sobre isso, porque sequer antes a gente tinha um crime tipificado. Então, a importunação sexual é exatamente o ato de fazer algo com outra pessoa para satisfazer um desejo seu ou de outra pessoa. E não precisa haver toque, não precisa haver uma aproximação e não precisa haver conhecimento com essa vítima.”

Entre os assuntos discutidos está a influência de movimentos como o red pill, que têm ganhado espaço nas redes sociais e incentivado a disseminação de discursos misóginos.

Misoginia, discursos de ódio e violência contra mulheres: onde termina a opinião e começa o crime?Misoginia, discursos de ódio e violência contra mulheres: onde termina a opinião e começa o crime?
Foto: Kaio Vinicíus/Acorda Cidade

“Esses discursos, esses movimentos nas redes sociais fazem com que se acredite que não haverá impunidade e que existe, sim, uma superioridade, uma objetificação e um uso desse corpo, dessa mulher, para satisfazer prazeres.”

Ao longo da entrevista, a advogada também analisa os limites entre liberdade de expressão e discurso de ódio, comenta a ausência de uma lei específica para criminalizar a misoginia no Brasil e defende a educação como uma das principais ferramentas para prevenir a violência contra as mulheres.

🎧 Assista ao episódio completo, que já está disponível nas principais plataformas de áudio. Ouça agora abaixo:

Leia também:

Irmão gêmeo de jovem preso por se masturbar em academia de condomínio ficou sem ir ao trabalho

Investigado por importunação sexual em academia de condomínio é preso em Simões Filho

Após caso de importunação sexual, condomínio realiza assembleia para decidir exclusão de morador

Homem é investigado por importunação sexual em academia de Feira de Santana

Delegada pede que outras possíveis vítimas de investigado por importunação sexual procurem a polícia

Caso em academia reacende debate sobre importunação sexual; advogada explica diferença entre assédio e estupro

Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e YouTube e do grupo no Telegram.