10 de August de 2026
agronegócio
Foto: CNA/ Wenderson Araujo/Trilux

A falta de mão de obra disponível para trabalhar no campo é um dos principais desafios enfrentados pelo setor agropecuário na Bahia e, junto com outros fatores, tem preocupado o fortalecimento do segmento produtivo no estado.

A informação foi divulgada por Humberto Miranda, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), durante uma entrevista ao programa Acorda Cidade, na manhã desta segunda-feira (10).

O presidente explicou que o problema está relacionado a fatores como a migração da população rural para os grandes centros, a percepção negativa sobre a vida no campo, a sensação de insegurança na zona rural e a falta de infraestrutura.

Humberto estava acompanhado de Beto Falcão, presidente da Cooperfeira. A dupla também falou sobre um evento promovido pela Faeb em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), em Feira de Santana, para apresentar ações das instituições e discutir o cenário do agro baiano. O encontro aconteceu também nesta segunda (10).

Escassez

Para Humberto, a discussão sobre a escassez de trabalhadores precisa partir da compreensão das causas do problema. O presidente começou questionando por que um estado com cerca de 15 milhões de habitantes (Censo IBGE 2022) enfrenta dificuldade para encontrar jovens dispostos a trabalhar no campo.

“Esta é a pergunta: Por que está faltando mão de obra se a gente é um país de mais de 200 milhões de habitantes? Por que está faltando mão de obra se o jovem está precisando de oportunidade, o jovem está querendo crescer, ganhar dinheiro, melhorar de vida, e mesmo assim não estamos encontrando?”, questionou Humberto.

Para concluir o início do raciocínio, o presidente afirmou que uma das razões é justamente a migração de moradores de pequenas cidades para os grandes centros urbanos e relacionou o fenômeno à forma como o campo foi apresentado historicamente na educação e na sociedade.

“Os inchaços das grandes cidades é uma questão estrutural no Brasil por uma série de questões, inclusive por causa da educação brasileira que ensina as pessoas para irem embora do campo, mostrando que o campo não é lugar de se viver, que o campo é o lugar do Jeca, é o lugar do Tabaréu, é o local do cara que fala errado, que tá com chapéu de palha rasgado, com a calça furada sem condição de comprar uma nova, e não é assim”.

Miranda também criticou o estereótipo de que o campo seria um lugar sem oportunidades ou qualidade de vida. Para ele, essa percepção contribuiu para afastar ainda mais os jovens das atividades rurais, privando o grupo de grandes oportunidades.

“Se a gente olhar para os números, quem sustenta a economia brasileira é o campo brasileiro. Então temos que ter muito orgulho de dizer que somos da roça, que nascemos na roça, que ajudamos esse Brasil, que ajudamos a Bahia a gerar emprego, a gerar renda”, disse.

“Um pouco da falta de mão de obra vem em decorrência disso, dessa baixa autoestima do jovem de morar no campo, de querer não ser o vaqueiro da fazenda, ser o gerente da fazenda”, completou Humberto.

Novos ventos

O presidente da Faeb destacou que as condições de trabalho no campo mudaram e que as atividades rurais passaram a exigir profissionais qualificados para operar máquinas e lidar com tecnologia. Em contrapartida, a exigência por uma melhor qualificação garantiu aos trabalhadores a oportunidade de evoluir economicamente e obter melhores remunerações.

“Hoje o cara mora no campo e às vezes você dá a ele a casa, você dá energia, você dá água. Então o salário no campo hoje é um salário digno, às vezes paga até melhor do que fora da zona rural. Por exemplo, nós temos um tratorista no oeste da Bahia que ganha R$ 10.000. Se ele for de uma máquina colheitadeira, ele pode chegar a R$ 15 mil, R$ 20 mil”.

A modernização do setor, segundo Miranda, também ampliou a variedade de profissões relacionadas ao campo. Ele citou advogados, administradores, programadores e profissionais ligados ao mercado internacional entre as áreas que podem encontrar oportunidades no agronegócio.

“Hoje o campo é um lugar que tem segurança trabalhista, o cara trabalha hoje com equipamento de proteção individual, com carteira assinada, com todos os direitos, que não é mais do que a obrigação do produtor brasileiro fazer isso, mas é bom que se diga isso, porque às vezes nem em todos os lugares tem isso, mas com todas as segurança trabalhista e acima de tudo com qualidade de vida”, afirmou.

Um amplo projeto

Para enfrentar a falta de trabalhadores e reduzir a concentração populacional nos grandes centros, Miranda defendeu a interiorização do desenvolvimento econômico. Segundo o presidente, é necessário criar um projeto para desenvolver as pequenas cidades e fortalecer a permanência de profissionais qualificados no campo.

“Precisamos ter um projeto urgente de interiorização do desenvolvimento da Bahia para que a gente possa ter as pequenas cidades, para que a gente possa ter o campo de volta com pessoas com capacidade, com formação, com competência para a gente descentralizar a economia”, afirmou.

Para Humberto, a concentração populacional nas grandes cidades também contribui para problemas sociais, como falta de moradia, deficiência de saneamento e violência.

Ele citou ainda a informalidade como outro ponto que precisa ser considerado na análise do mercado de trabalho. Segundo o presidente da Faeb, quase 40% da população brasileira trabalha informalmente, sem carteira assinada e sem os direitos trabalhistas associados ao emprego formal.

Falta de segurança afasta trabalhadores

Além da migração e da percepção sobre o trabalho rural, Miranda apontou a segurança como um dos obstáculos para a permanência de trabalhadores nas propriedades. Segundo ele, a dificuldade é especialmente percebida na contratação de trabalhadores que precisam morar nas fazendas.

“A gente tem um problema gravíssimo. A Bahia, como você sabe, tem esse problema da segurança. Ele é transversal da cidade até o campo. Hoje, para você arrumar um vaqueiro para morar na fazenda é difícil. O cara diz: ‘Não, eu até vou lá trabalhar, mas de noite eu tenho que voltar para dormir’ no povoado ou na cidade”, explicou.

“Para o homem morar no campo, ele não precisa só de dinheiro, ele precisa de lazer, ele precisa de saúde. Ele precisa de segurança, ele precisa de todas as coisas que o cara da cidade precisa, ele também precisa. Então, se os governos municipais, estadual e federal não dão essa condição do homem ficar no campo, ele não fica”, complementou Beto Falcão.

Infraestrutura e conectividade

Outro desafio apontado pelo presidente da Faeb é a infraestrutura. Ele criticou as condições das rodovias que cortam a Bahia e citou a BR-242 e a BR-324 como exemplos de problemas que afetam o setor agropecuário no estado.

“Passei na BR-242 há poucos dias indo pro oeste da Bahia e, infelizmente, a estrada tá numa condição absurda de transporte. E é de lá que vêm os nossos grãos. A Bahia é um grande produtor de grãos que ajuda a exportação, mas como a gente não tem transporte ferroviário que foi extinto, acabou na Bahia e no Brasil, dificulta”.

BA-649, entre Ilhéus e Itabuna
BA-649, entre Ilhéus e Itabuna | Foto: Zé Drone

Durante a entrevista, Humberto também apontou a conectividade como outro fator importante para a permanência de jovens no campo. Segundo ele, o acesso à internet passou a ser essencial para educação, saúde e capacitação profissional.

“No Senar nós temos mais de 300 cursos, onde, através de uma plataforma, um jovem pode estar morando na roça, como a gente diz, em qualquer lugar da Bahia, e ele entrar, tomar um curso e se qualificar como mão de obra para exercer qualquer atividade no campo”, afirmou.

Capacitação

Durante a entrevista, também foi explicado que a unidade do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) em Feira de Santana, que faz parte do sistema Faeb, atua na formação e capacitação de trabalhadores e produtores rurais. Ao todo, são 11 centros regionais na Bahia.

Senar leva curso de capacitação para trabalhadores rurais de Antônio Cardoso
Foto: Divulgação/Senar

O sistema também oferece assistência técnica aos pequenos produtores e cursos de curta duração. Segundo Miranda, em 2025 foram atendidos quase 200 mil baianos entre jovens, mulheres, trabalhadores e produtores rurais.

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