13 de August de 2026
Família de jovem morto por engano em Feira de Santana pede justiça; julgamento começa nesta quinta (13)
Kauan Gomes | Foto: Arquivo Pessoal

Após quase dois anos, familiares de Kauan Gomes Araújo de Souza, de 20 anos, se reúnem nesta quinta-feira (13), no Fórum Felinto Bastos, em Feira de Santana, para acompanhar o julgamento dos acusados pela morte do jovem, baleado por engano enquanto seguia para a academia.

A família espera que os responsáveis sejam condenados e que o julgamento represente um passo importante na busca por justiça. Para os familiares, a decisão não será capaz de amenizar a perda, mas poderá representar o encerramento de um ciclo de sofrimento provocado pela morte de Kauan.

Ao Acorda Cidade, a mãe do jovem, Samile Silva Gomes, contou que, mesmo após quase dois anos, a família continua abalada com a violência que tirou a vida do filho.

“Nós continuamos abalados e estarrecidos diante de toda a violência que aconteceu contra o meu filho no dia 13 de dezembro de 2024, e o mínimo que nós pedimos é o respeito pela família e que amanhã seja feita justiça, que não devolve a vida do meu filho, não devolve os sonhos que foram tirados, não devolve os abraços, os beijos, os carinhos, não devolve nada disso, mas é o mínimo que a sociedade pode trazer amanhã para a gente, é a justiça.”

Família de jovem morto por engano em Feira de Santana pede justiça; julgamento começa nesta quinta (13)
Foto: Kaio Vinicíus/Acorda Cidade

Relembre o caso

Kauan foi baleado na manhã de 13 de dezembro de 2024, quando seguia para uma academia acompanhado da mãe e de uma amiga. Os três estavam em um Sandero branco, conduzido por Samile, e foram perseguidos por um Corolla preto após a perseguição começar na Avenida Fraga Maia e seguir até a Avenida Eduardo Fróes da Mota, o Anel de Contorno.

Segundo a investigação da Delegacia de Homicídios de Feira de Santana (DH), o autor dos disparos havia discutido com uma mulher com quem mantinha um relacionamento e saiu em busca dela após ela deixar o local em um veículo. Ao avistar o Sandero branco, ele acreditou que a mulher estivesse no carro e decidiu persegui-lo.

O passageiro do Corolla efetuou disparos contra o Sandero. Um dos tiros atravessou o para-brisa traseiro e atingiu Kauan na cabeça. A mãe e a amiga socorreram o jovem para o Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), mas ele morreu quatro dias depois, em 17 de dezembro.

Durante as investigações, a polícia identificou o motorista do Corolla e o homem apontado como autor dos disparos. A DH também localizou a arma utilizada no crime.

Na época, a Polícia Civil representou pela prisão preventiva dos dois investigados.

‘Eu vi Kauan morto’

Samile estava ao volante quando o filho foi baleado. Segundo ela, os três tinham o hábito de seguir juntos para a academia, onde Kauan também fazia estágio.

Família de jovem morto por engano em Feira de Santana pede justiça; julgamento começa nesta quinta (13)
Samile Gomes | Foto: Kaio Vinicíus/Acorda Cidade

“Em determinado momento da Fraga Maia eu ouvi algo que poderia ser um tiro, mas a gente seguiu. Nisso eu sigo e começo a observar os retrovisores, vejo o Corolla preto atrás do meu carro ali na mesma via, na mesma mão, e a gente segue o nosso caminho. Em um dado momento eu acelero mais porque eu fiquei preocupada que esse carro chegou mais próximo ao meu, e nesse momento eu me dou conta de que o motorista coloca o corpo para fora e já aponta a arma e atira, eu ouvi o estralo do vidro, ouvi Milena falar, quando eu olho para o lado eu vi Kauan morto.”

Apesar do desespero, a mãe percebeu que o filho tinha fôlego e o levou imediatamente para o HGCA com a amiga, mas ele não resistiu e morreu na unidade quatro dias depois do crime.

Agora, com o julgamento próximo, a mãe ainda não conseguiu mensurar o tamanho da tragédia para a família que perdeu um filho, um neto, um sobrinho.

“Não dá para dimensionar porque eu vivo com essa dor todos os dias, é um aperto no peito de todos os dias, e eu sei que essa também é a realidade para minha família, para todos que convivem comigo, não só a família, porque eu entendo que todos conseguem entender a dimensão da dor que uma mãe tem por uma perda trágica de alguém que era extremamente pacato, extremamente amoroso, respeitador, um cidadão de bem que estava ali buscando por seus sonhos. O que me sustenta até aqui é a fé, é a fé em Deus que me faz todos os dias levantar, porque o fundo do poço é muito grande.”

Família de jovem morto por engano em Feira de Santana pede justiça; julgamento começa nesta quinta (13)
Kauan Gomes | Foto: Arquivo Pessoal

Órgãos foram doados

Samile também falou sobre a solidariedade da família em meio ao luto, quando doaram os órgãos de Kauan. Ela relembrou que teve o filho aos 18 anos e, na época, a família tomou conhecimento no quinto mês de gravidez, quando ela realizou a primeira consulta e escutou o coração do filho.

“Tem declarações minhas para ele falando sobre isso, que o coração dele, nossa, para mim até hoje eu escuto aquele som. Então, ter feito, ter podido fazer essa doação, não ter perdido Kauan logo na sexta-feira, ter conseguido pelo menos ressignificar um pouco dessa dor, é a certeza de que a gente fez o bem também para outras famílias, mesmo tendo recebido o mal”, disse bastante emocionada.

Samile também revelou que já conversou com os receptores dos órgãos do filho. Inclusive, um deles estará presente durante o julgamento. “Eu tive acesso ao receptor do coração e ao receptor do rim também, são uma mãe de família que já estava sofrendo há muito tempo com hemodiálise, e o receptor do coração, um pai de família exemplar, onde a filha falou comigo e fala maravilhas sobre o pai dela e sobre como foi para eles também importante ter recebido.”

A avó de Kauan, Sidonia Maria Silva Gomes, também conversou com o Acorda Cidade. Ela contou que todos os dias sente a falta dele e conversa com o jovem através de suas orações.

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Sidonia Gomes | Foto: Kaio Vinicíus/Acorda Cidade

“Eu tenho foto dele na cabeceira da minha cama praticamente, e todos os dias eu converso com ele, e todos os dias eu digo Cacau eu te amo para sempre, e o meu alento é te encontrar na eternidade. Não tem nada que eu possa te dizer que esteja me fazendo feliz hoje, muita coisa falta; falta ele, faltou tudo na nossa vida, na nossa família.”

“Nós queremos a justiça, que a justiça seja feita, porque a de Deus com certeza virá”, acrescentou a avó, reforçando que sempre teve uma relação de amizade com o neto.

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Kauan, a mãe e a avó | Foto: Arquivo Pessoal

“Sempre foi muito obediente, muito amoroso com todos nós, a família era apaixonada e é até hoje, porque ele não deixou de existir para nós. Kauan é e será sempre, sempre o meu neto, filho, caçula, amado por todos da família, nunca vou te esquecer, nunca esqueceremos de você, Cacau, você está aqui agora, juntinho de nós”, disse a avó, bastante emocionada.

‘O mínimo é que a justiça seja feita’

Em companhia da mãe e da avó, estavam outros parentes de Kauan, primos e tios, extremamente abalados, para cobrar justiça. Renério Ribeiro, primo do jovem, contou que Kauan cresceu cercado pelos parentes e que os dois mantinham uma relação próxima, apesar da diferença de idade.

Família de jovem morto por engano em Feira de Santana pede justiça; julgamento começa nesta quinta (13)
Renério Ribeiro Foto: Kaio Vinicíus/Acorda Cidade

“Kauan foi aquele primo que a família toda teve muito em volta da criação dele. Kauan muito dificilmente pegava um ônibus, porque desde a época do colégio, se ele precisava vir para o colégio, eu trazia, meu tio buscava, a gente estava sempre se coordenando, meu avô, meu tio, meus primos. Eu tinha uma fotinha dele, isso gerou até uma brincadeira das minhas primas, né? que são todas muito chegadas a mim, porque eu falei, é o único primo que eu tinha uma foto na carteira porque é um primo que eu tinha como sobrinho.”

Renério também falou sobre o impacto da perda e destacou que, depois de se tornar pai, passou a compreender ainda mais a dimensão da dor enfrentada pela família.

“Sendo pai eu sei que todo mundo pode dimensionar porque quem não tem pai tem mãe tem alguém que ama muito, mas sendo pai eu digo que posso dimensionar um pouquinho mais o sofrimento é pela falta dele e por saber o que essa falta significa para minha tia enquanto pai. Então sinto a dor como primo, toda a família sentimos a dor individual da ausência de não tê-lo mais para cuidar dele e para acompanhar o crescimento dele e saber da dor da minha tia como mãe, da falta que ela faz, da minha avó, então é muito difícil, a gente só espera só que a justiça seja feita, o mínimo é que a justiça seja feita.”

Com informações do jornalista Kaio Vinicíus, do Acorda Cidade

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