
A resposta mais objetiva para a questão central desta matéria é SIM!. Levando em consideração apenas critérios técnicos, Feira de Santana possui, sim, um hospital municipal. A existência da unidade, porém, não significa um ponto final no debate político em torno do tema.
Para compreendermos melhor o assunto, é necessário fixar desde o início que a dúvida sobre a existência de uma unidade hospitalar gerida pelo município de Feira de Santana ganhou força nas redes sociais após o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), afirmar, em mais de uma ocasião, que a cidade não possui um “hospital municipal”.

Segundo o Dicio.com, um dicionário online, o termo “municipal” indica algo que pertence ao município, ou seja, que é administrado ou tem relação direta com o poder público local. Neste caso, o Hospital Inácia Pinto dos Santos, conhecido como Hospital da Mulher, que é gerido pela Prefeitura de Feira de Santana, se enquadra adequadamente nos termos.
O hospital é amplamente reconhecido como uma unidade especializada em saúde da mulher e assistência materno-infantil. O local oferece atendimento obstétrico de urgência, realiza partos normais e cesarianas e presta assistência a mães e recém-nascidos de Feira de Santana e de outras 82 cidades da região.
Então, estaria o governador enganado? Talvez não. E o que dá segurança para essa afirmação é saber que Jerônimo disse que a cidade não possui um hospital municipal em um momento muito específico, quando começou a receber de José Ronaldo, prefeito de Feira de Santana e aliado do gestor feirense, críticas sobre o sistema de regulação.
Geralmente, quando Jerônimo ou algum membro do seu grupo político é questionado sobre a famosa fila de regulação, que é a plataforma que o governo do estado utiliza para gerenciar o fluxo de pacientes para vagas em hospitais da rede do estado, eles apresentam dados de evolução do modelo e reforçam a importância da atenção primária. Bingo! Essa é a gênese da confusão.
Olha a ingrisilha
Para entender a origem desse cabo de guerra entre Jerônimo e Ronaldo a respeito da existência do hospital municipal em Feira de Santana, é necessário considerar o cenário político atual. Após um período marcado por aproximações e gestos públicos de cordialidade entre os gestores, a relação entre os dois passou a enfrentar turbulências.

Não é segredo para ninguém que José Ronaldo foi disputado pelos dois grupos que estão na dianteira na corrida pelo governo da Bahia. Mas, cá entre nós, qual político em sã consciência não vai querer apoio em pleno ano de eleições do prefeito que comanda pela 5ª vez o segundo maior colégio eleitoral do estado?
Ainda na época da dúvida, de um lado estava ACM Neto, colega de partido de Ronaldo, mas que tinha como sombra um episódio de atrito com o gestor feirense. Em 2022, Neto chegou a divulgar que José Ronaldo seria seu vice na chapa daquele ano, mas preferiu outra pessoa, episódio que o prefeito de Feira admitiu que o fez chorar.

Já do outro lado estava Jerônimo, com a caneta e a máquina pública na mão, mas que tinha um grande empecilho: ser petista, grupo político com o qual José Ronaldo nunca foi muito chegado. Resultado, o prefeito surpreendeu apenas os mais desavisados quando declarou apoio a Neto.
Agora que sabemos que José Ronaldo e Jerônimo Rodrigues estão em lados opostos, pelo menos no que diz respeito às eleições deste ano, é fácil de entender que, diferente de antes, o terreno está fértil para críticas dos dois lados. E foi nesse clima que os gestores começaram a fazer críticas mútuas no campo da saúde.
No final do mês passado, durante uma entrevista ao programa Acorda Cidade, o prefeito de Feira de Santana comentou um episódio quando se referiu à fila de regulação do estado como “fila da morte”.
O comentário gerou uma reação imediata do governo, que respondeu ainda enquanto Ronaldo estava no estúdio, dizendo que ele não deveria criticar o modelo, pois não fazia a parte que cabia a ele, já que não tinha um hospital municipal em Feira de Santana.

/ Redes Sociais
“O problema não é esse. É estranho uma pessoa ser de Feira e dizer que a prefeitura não tem um hospital. Feira de Santana tem o melhor hospital de obstetrícia público do Brasil, é o Hospital da Mulher. Eu disse ao governador e à secretária de Saúde, na primeira conversa que nós tivemos, o problema da regulação é problema de gestão”, respondeu o prefeito.
Raciocínio do governador
Após a declaração de Ronaldo, ao comentar sobre o tema durante uma entrevista na Rádio Sociedade da Bahia, o governador deu mais detalhes da crítica. Ao afirmar que Feira de Santana não possui hospital municipal, Jerônimo não está negando a existência de uma unidade hospitalar gerida pelo município, e sim criticando o fato de o Hospital da Mulher não ser um pronto-socorro geral para qualquer tipo de ocorrência.
“Feira de Santana precisa de hospital municipal. É a maior cidade do interior da Bahia e não tem hospital municipal. O secretário municipal de saúde perdeu um pouco o prumo essa semana e disse que tinha que a maternidade, secretário, não é hospital municipal. Maternidade é maternidade, hospital é hospital”, disse o governador.

O governador continuou reforçando os comentários e disse que, em diversos momentos, conversou com o Executivo de Feira de Santana oferecendo um terreno para a construção de um hospital municipal, o que ajudaria a desafogar a rede estadual e, por consequência, a fila de regulação, segundo ele.
“Como é que esse povo quer debater regulação? Quem é que enche os hospitais estaduais e dificulta a regulação são as pessoas que nesse momento leva uma queda e quebrar uma perna, quebrar um braço, desmentir um dedo e tem que ir para o Clériston Andrade. O Clériston não é lugar de tratar dedo desmentido, lá é lugar para tratamento de câncer, de um problema de coração”, afirmou o governador.
Tem ou não tem?
Em resumo, é possível afirmar com segurança que Feira de Santana possui, sim, uma unidade hospitalar municipal: o Hospital Municipal Inácia Pinto dos Santos (Hospital da Mulher), administrado pela Prefeitura. A controvérsia está menos na existência da unidade e mais no conceito de “hospital municipal” utilizado no debate politico.
Enquanto a gestão municipal considera o Hospital da Mulher como um hospital público municipal, o governo estadual argumenta que a cidade não dispõe de um hospital municipal de caráter geral, com pronto-socorro capaz de atender ocorrências diversas, como fraturas, acidentes e outras emergências.
Portanto, tecnicamente, Feira tem um hospital municipal; o que a cidade não possui, até o momento, é uma unidade municipal hospitalar geral e de porta aberta para todos os tipos de urgência e emergência.
Com informações do jornalista Jefferson Araújo, do Acorda Cidade
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