17 de August de 2026
Cantor Igor Kannário
Foto: Fernando Vivas/GOVBA

O pagodão baiano ultrapassou os limites dos palcos e passou a influenciar também a ‘construção da imagem pessoal e da identidade cultural, especialmente entre os jovens de Salvador. Artistas como Igor Kannário (A Bronkka) e Léo Santana (Parangolé), ajudaram a consolidar uma estética própria do gênero, marcada por roupas, cortes de cabelo, acessórios, coreografias e formas de comunicação e pertencimento que aparecem no cotidiano. 

Segundo a comunicóloga e CEO da Pittaco Consultoria, Cáren Cruz, a presença da imagem no pagode não é uma característica recente. Na visão da consultora de imagem plural, desde a formação do gênero que a maneira de dançar, os gestos, a apresentação dos artistas e a forma de ocupar o palco já ajudavam a construir a identidade de cada grupo – levando essa dimensão visual a ganhar possibilidades de circulação com as redes sociais.

“O pagode baiano nunca influenciou apenas a música. Desde a sua formação, ele envolve som, corpo, dança, gestualidade, linguagem, humor, sensualidade, performance e maneiras de ocupar os espaços. A imagem sempre esteve dentro do pagode. Quando observamos as bandas que alcançaram grande projeção a partir da década de 1990, percebemos que as coreografias, as formas de dançar, a maneira de se movimentar no palco e a apresentação dos artistas ajudaram, inclusive, a diferenciar um grupo do outro. A performance visual não era um acessório colocado sobre a música. Ela fazia parte da própria linguagem do gênero”, analisa.

Cáren Cruz
Cáren Cruz | Foto: Laila Andrade

Com a presença de cada vez mais artistas nas redes sociais, essa relação se tornou frequente e passou a envolver cortes de cabelo, roupas, acessórios, expressões e maneiras de se comunicar. No entanto, Cáren explica que é preciso evitar a ideia de que os artistas “simplesmente criam” um estilo que depois será reproduzido pelos jovens. Muitos desses códigos já são construídos nos próprios bairros e periferias, por pessoas que fazem parte dos territórios e que influenciam a produção cultural.

“Eu teria muito cuidado para não dizer que os artistas simplesmente criam um estilo e os jovens copiam. Muitos desses códigos já são produzidos nos bairros e nas periferias. São construídos pelos próprios jovens, pelos dançarinos, barbeiros, comerciantes, produtores, influenciadores e pessoas que vivem aquela experiência cultural. O artista muitas vezes capta uma linguagem que já está circulando no território, amplia sua visibilidade e a devolve para a sociedade com outra projeção. Existe, portanto, uma troca. O artista influencia o território, mas também é influenciado por ele”, destaca Cáren.

A partir dessa troca, roupas, acessórios e formas de comunicação podem funcionar como códigos de pertencimento e reconhecimento. A experiência da consultora de imagem plural permite observar como esses elementos são interpretados de maneiras diferentes conforme o corpo, o território e o contexto em que aparecem. Para Cáren, expressões construídas nas periferias não devem ser tratadas apenas como tendências ou como elementos exóticos, mas como parte de uma produção cultural que envolve conhecimento, linguagem, comportamento e identidade.

“A valorização das periferias não acontece quando transformamos seus códigos em curiosidade ou em uma tendência passageira. Ela acontece quando reconhecemos esses territórios como produtores de conhecimento, comportamento, linguagem, moda, economia e cultura. Não é o mercado, a imprensa ou a cultura dominante que concedem valor à periferia. A periferia já produz valor. O que muitas vezes falta é o reconhecimento desse valor e o devido crédito às pessoas e aos territórios que o construíram”, destaca a especialista.

Ainda segundo a profissional, a imagem contribui para que os jovens reconheçam suas referências e encontrem formas próprias de expressar sua identidade, sem que isso signifique seguir um padrão. A conexão com a cultura pode estar presente na maneira de se vestir, na linguagem ou em outros códigos, mas não deve se transformar em uma obrigação

“Raiz não é fantasia. Pertencimento não é uniforme. A conexão cultural acontece por meio das experiências, das memórias, das relações, dos territórios e das referências que cada pessoa escolhe reconhecer e preservar. A imagem pode materializar essa conexão, mas não deve aprisionar a pessoa dentro de um personagem. O objetivo não deve ser corrigir uma identidade para que ela seja aceita. Deve-se ampliar a capacidade de escolha sem retirar da pessoa sua história, sua cultura e sua maneira de existir”, conclui.

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