
A responsabilidade do “fazer comunicação”. Foi assim que a mesa “O lugar da mulher na construção da narrativa jornalística” trouxe mulheres com carreiras brilhantes e potentes para discutir a necessidade das mulheres em lugares de tomada de decisão. No terceiro dia do Flifs 2026, a comunicação foi colocada no centro do debate pela Ascom da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), umas das principais realizadoras e incentivadoras do Festival Literário e Cultural da Princesa do Sertão para instigar estudantes, profissionais e o público em geral para discutir representatividade feminina, violência contra as mulheres, responsabilidade jornalística e comunicação antirracista.
O encontro reuniu as jornalistas Jéssica Senra e Midiã Noelle, com mediação da jornalista feirense Júlia do Monte, da Ascom Uefs, para discutir representatividade feminina, violência contra as mulheres, responsabilidade jornalística e comunicação antirracista.
A conversa chamou atenção para o poder das narrativas na forma como mulheres e pessoas negras são apresentadas ao público. Júlia do Monte destacou que quem conta uma história também interfere na maneira como ela será compreendida.
“Então, falar do papel da mulher na construção dessas narrativas jornalísticas é falar de representatividade, de um olhar diferente, desse impacto, dessas mulheres nas redações, nas assessorias, com os microfones na mão.Porque a gente sabe que quem narra a notícia também influencia, sobretudo as histórias que chegam até o público.”

Para Júlia, jornalista experiente com mais de 10 anos de carreira, levar todo esse debate ao Flifs também significa reconhecer os profissionais e estudantes de comunicação que acompanham o festival. O debate entre os que já chegaram e os que ainda estou começando suas jornadas é imprescindível para fortalecer discussões sobre o fazer jornalístico.
Para a jornalista Jéssica Senra, que possui mais de 20 anos de carreira, é necessário romper com modelos historicamente construídos sobre o que seria o papel feminino e permitir que as próprias mulheres ocupem o lugar de protagonistas de suas histórias. E essa ação também deve ser construída por mulheres jornalistas.
“Eu acho que é falar um pouco da importância dessa consciência mesmo, da da mulher como protagonista, como sujeito das narrativas e não apenas como um objeto sendo retratado e muitas vezes com olhares estranhos aos nossos. As mulheres sempre foram retratadas por homens, e queremos também retratar nós mesmas, as nossas experiências, fazer perguntas diferentes, tensionar o sistema de uma outra forma. Por exemplo, historicamente as mulheres no jornalismo eram objetos decorativos, mas começam a se impor e a trazer as suas capacidades intelectuais e comunicativas e opinativas também. A mulher despertar para esse olhar próprio para a sociedade, né, e para tudo o que impacta na vida de todo mundo.”
A jornalista baiana também defendeu a importância de um jornalismo que questione versões já pré-estabelecidas do que é aceito na sociedade, como a branquidade e a heteronormatividade e reforçou que mulher não devem ter medo de fazer perguntas difíceis. A fala surgiu ao comentar a atuação da jornalista Renata Vasconcelos, atualmente, a pessoa mais experiente fixa na bancada do Jornal Nacional.
“Os candidatos são treinados para escapar das respostas. Então, a gente poder contar com um jornalismo profissional que investiga, reúne dados, confronta, argumenta, isso é extremamente importante. Renata é uma jornalista extremamente preparada, elegante no fazer perguntas. Nas entrevistas que vi, nem sempre foi respeitada, e nós como mulheres sabemos quando que homens gostam de aumentar a voz para tentar nos intimidar ou nos calar, mas ela se mantém firme dentro da competência que ela sabe que tem.”

Jéssica também reforçou a importância das jornalistas “confrontar informações”. À exemplo ela disse que em sua trajetória precisou contrapor muitas fontes com outras mais especializadas em determinado assunto. Nessa levada, o jornalista também precisa estar preparado. Um dos ensinamentos do CEO do Portal Acorda Cidade, o radialista Dilton Coutinho, é justamente, nunca entrar em uma entrevista sem estar preparado. Durante a mesa, Jéssica trouxe uma fala que completou isso perfeitamente: o jornalista não sabe de tudo, mas precisa está em contato com quem sabe. É preciso informar mostrando todos os lados, mas é fundamental trazer falas qualificadas para o público, público esse que compareceu em peso.
“Ela [Renta Vasconcelos] sabe que tem o direito de perguntar não apenas como jornalista, mas como representante principalmente dessa população que às vezes não tem a condição, o acesso a confrontar um candidato, e ela vai lá, se posiciona e faz. Então, às vezes o mais importante da entrevista é a pergunta e não necessariamente a resposta, porque a maioria das respostas é o que nós queremos ouvir, e, muitos candidatos estão ali querendo escapar delas”, comentou Jéssica ao Acorda Cidade.
Comunicação é para formar e não desumanizar
A jornalista Midiã Noelle, autora do livro Comunicação Antirracista, ampliou o debate ao abordar a forma como pessoas negras são retratadas pela imprensa, especialmente em situações de violência.
Para Midiã, que possui mais de 15 anos de carreira, foi a responsável por elaborar o Plano de Comunicação pela Igualdade Racial, lançado pelo Governo Federal. Para a soteropolitana, a comunicação precisa romper com a naturalização de imagens e narrativas que transformam pessoas negras em objetos ou reduzem suas histórias à violência.
“Eu trago esse olhar de que a comunicação ela precisa enfrentar essa lógica que coloca pessoas negras num lugar de subserviência e servidão. O maior crime da humanidade segundo a ONU foi o processo de escravidão no tráfico transatlântico. Então a comunicação ela é fundamental para restituir a nossa humanidade enquanto população negra. Então se a gente tem que pensar a comunicação antirracista enquanto comunicadores, é uma comunicação que humanize a gente, que não coloque a gente como um animal ou como um objeto”, disse Midiã ao criticar jornalistas e veículos que mantém uma postura de explorar tragédias relacionadas a famílias negras para comover no horário do almoço.

Ela também chamou atenção para a responsabilidade dos profissionais ao noticiar casos de violência. Segundo Midiã, por trás de cada pessoa retratada existe uma história e uma família que será impactada pela forma como aquela notícia é apresentada.
“Eu acredito que todas as pessoas têm nome, têm história, têm trajetória, têm família. Tem que pensar em como você vai retratar, porque isso vai impactar uma família, isso vai impactar outras pessoas. A gente não pode naturalizar, por exemplo, uma chacina como no Rio de Janeiro que se mata mais de 100 pessoas e falar que aquilo ali é limpeza social. A gente não pode naturalizar tantas dores de mães sendo colocadas na TV no horário de meio-dia para fortalecer uma lógica de que o espetáculo, com a comédia, mas é uma comédia que ridiculariza, que animaliza, que coloca no lugar de barbárie”, declarou ao Acorda Cidade.
A jornalista defendeu ainda que a comunicação antirracista precisa estar atenta a diferentes formas de desigualdade e combater a naturalização da violência.
“A comunicação antirracista tem que ser antipunitivista, antiproibicionista e anticapacitisa. Então a gente tem que aprender também a falar com as pessoas com deficiência em contextos de maior vulnerabilidade. E tem que desnaturalizar aquilo que não é natural nem normal, o diverso é o normal, e a gente tem que respeitar as pessoas a partir dos seus territórios.”

O Festival Literário e Cultural de Feira de Santana (Flifs) segue até o próximo domingo com uma vasta programação.
Leia também:
Flifs 2026 começa nesta terça (25) com muita literatura, cultura e show de Maryzelia com Roberta Sá
Confira a programação completa do Flifs 2026
Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e YouTube e do grupo no Telegram.