
Entre os dias 2 e 3 de setembro, a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) sedia, no Canteiro Central, o 1º Encontro Baiano de Feiras Universitárias e Populares – “A Bahia vai à Feira”, reunindo feirantes, produtores, universitário e a comunidade em rodas de diálogo, oficinas, atividades culturais e, principalmente, na feira livre.
A professora do curso de Direito da Uefs e uma das organizadoras do encontro, Flávia Pita, explicou que o objetivo do evento é juntar essas feiras que tem acontecido em várias universidades, em projetos de extensão.
“O objetivo é juntar essas feiras que estão acontecendo, de modo que a gente divida os nossos problemas, nossas conquistas, e crie uma rede que articule as feiras e possa lutar junto por políticas públicas, por crescimento dessas feiras. Essas feiras nas universidades são espaços de pesquisa, de extensão, de contato dos estudantes com a realidade popular, com as lutas populares. Todo o evento vai acontecer aqui no meio da feira, o grande público do evento são os feirantes.”
Nesta quarta-feira (2), o encontro começou às 10h, com a mesa institucional de abertura. A última mesa acontece das 18h30 às 20h. Na quinta-feira (3), as oficinas estão marcadas para começar às 9h e a última mesa será às 16h. Por fim, haverá um show de forró, para finalizar a primeira edição deste encontro.

Segundo Flávia, mais de 100 feirantes foram inscritos no evento. Além de Feira de Santana, a feira tem participantes de Salvador, Jequié, Vitória da Conquista, Cruz das Almas, Itaberaba e outras cidades. Entre as oficinas oferecidas na quinta, a professora destacou as oficinas de turbante e caderneta agroecológica.
São 12 oficinas que vão acontecer simultaneamente. E à tarde a gente vai ter um momento importante: a gente vai juntar contribuições que vão ser colhidas durante a feira para tentar fazer uma discussão grande, política, pensar e criar uma rede de feiras universitárias, de agroecologia e populares.”
“A feira sempre foi um lugar de sobrevivência”
Ao Acorda Cidade, Flávia explicou que as feiras são espaços de luta popular pelo trabalho, sendo um local de sobrevivência, mas também, de afeto e solidariedade.
“São espaços de luta popular pelo trabalho, num mundo tão desigual em que as pessoas não têm acesso ao trabalho regular, de carteira assinada. A feira sempre foi, em toda a história do Brasil, um lugar de sobrevivência. E é um modo de trabalhar, produzir e comercializar que ele aponta para um futuro. As pessoas na feira estabelecem relações de afeto. Elas não têm o lucro como o único objetivo do seu trabalho. É ganhar dinheiro também, mas é solidariedade, compartilhamento e organização coletiva.”


Ela ressaltou que as feiras, como a da Uefs que conta com um coletivo, geralmente correspondem a uma associação, reunindo os feirantes, arrecadando dinheiro para um fundo e servindo também como um lugar de aprendizado político e organização popular.
“Quem mais aprende com isso é a universidade, porque sempre foi um espaço muito elitista, onde a gente só se preocupa com questões dos ricos. E a feira traz a vida para dentro da universidade. Por exemplo, tem estudante de Direito entendendo os aspectos jurídicos da feira, que tradicionalmente não se estudava. Você está preparando universitários, profissionais do futuro para também atender as expectativas, dilemas e dificuldades das classes populares.”
Portanto, ela destaca as feiras como um espaço para analisar a economia popular e solidária, ressaltando o trabalho coletivo, sem subordinação, focado no compartilhamento de objetivos e no respeito ao meio ambiente.
Pensando em colocar a vida na frente do lucro. O trabalho dá dinheiro também, mas é um espaço de compartilhamento e construção de um mundo diferente.”


Dificuldades enfrentadas pelos feirantes
Questionada sobre as dificuldades dos feirantes no acesso a políticas públicas e editais, Flávia ressaltou a falta de atenção às demandas desses trabalhadores. Ela destacou ainda a barreira da burocracia, já que muitos grupos trabalham na informalidade e não têm CNPJ, o que dificulta o cumprimento das exigências documentais.
“Primeiro, o Estado, infelizmente, não olha muito para a realidade popular, para essas demandas. Além disso, quando existe a política pública, o acesso a ela não é pensado para as classes populares, então há uma burocracia que não se preocupa com a explicação das etapas para acesso. Há interferência de forças políticas partidárias, muitas vezes de maneira inadequada.”
Ela reforça que o Estado funciona na base do “formal” e da “documentação”. No entanto, ela afirmou que é necessário se adaptar à vida popular, para alcançar também as pessoas que tenham outra “dinâmica de vida”.
As pessoas às vezes não têm condição de se formalizar no sentido burocrático. E mesmo assim eles têm direito de trabalhar, ter acesso às políticas públicas. As pessoas que estão na zona rural têm muito mais dificuldade de acessar até os próprios espaços do Estado. Então, enfim, tem uma coleção de problemas que a gente pode lutar contra eles, sim.”
Segundo ela, é preciso simplificar a linguagem dos editais para que todos compreendam o conteúdo. Outro ponto abordado pela professora é a exigência de participação exclusivamente pela internet, um formato que nem sempre é acessível à realidade de toda a população.
“Acho que a simplificação da linguagem do Estado, que por exemplo, faz um edital com linguagem complicadíssima que só uma pessoa formada em Direito consegue entender. Você não garante espaços de troca de informações para orientação dos grupos participarem do edital. O próprio acesso das pessoas que muitas vezes é só pela internet. Quem está na zona rural tem muita dificuldade de acessar, as pessoas mais velhas também. Então a gente tem uma certa insensibilidade do Estado para as classes populares no que diz respeito a essas questões.”
Feirantes presentes
A comerciante Ozélia Santos, de Wenceslau Guimarães, está participando do encontro vendendo os temperos Sabor da Alma. Ao Acorda Cidade, ela disse que os produtos são vendidos a partir de R$ 6.
“Já faço tempero há 8 anos. E eu sou grata por ter esse projeto, esse empreendimento, que a gente faz com qualidade e com amor para levar direto pro lar das pessoas.”


Além de vender a unidade, Ozélia explicou que trabalha com quantidade, para as pessoas que desejam comercializar o tempero dela em mercados e outros locais. Por fim, ela convidou o público para visitar o evento e conhecer seus produtos.
“Venha conhecer a barraca Sabor da Alma e prestigiar essa feira maravilhosa.”
Sônia Cleide, de Vitória da Conquista, vende balas gourmet de vários sabores, produzidas de forma artesanal. Pela primeira vez em Feira de Santana, a comerciante afirmou que está com expectativas muito altas para as vendas no encontro.

“Desde 2019 que eu trabalho com esses produtos e viajo essas cidades todas aqui próximo de Salvador, Vitória da Conquista. Estou sempre presente.”
Venda de plantas
Daniela Aragão também é de Vitória da Conquista, e trabalha no Horto Viveiro Florestal, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). De acordo com ela, os valores arrecadados no evento são destinados aos animais que vivem no campus da universidade.

“Esses animais, através desses recursos, recebem os cuidados éticos: castração, vacinação, alimentação diária de qualidade, cuidados veterinários. Então, estar representando esse trabalho aqui hoje é de suma importância para nós.”
A comerciante também falou sobre as vendas, que contam com um corredor medicinal voltado para as plantas medicinais.


“Nós temos um corredor medicinal. Hoje está na responsabilidade do nosso acadêmico Vítor Martins, de Biologia, que é coordenador e cultivador agroecológico. Ele desenvolveu esse corredor medicinal com todas as suas nomenclaturas científicas e a gente divulga bastante esse trabalho e incentiva o uso dessas ervas medicinais, claro, com todos os requisitos profissionais.”
Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.
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