17 de September de 2026
Conheça as histórias e tradições dos oito distritos de Feira de Santana
Distrito de Bonfim de Feira | Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

Feira de Santana não é apenas a cidade que nasceu de uma fazenda e se tornou a “Princesa do Sertão”. Além da sede, o município é formado por oito distritos, cada um com história, cultura, tradições, belezas naturais e potencialidades próprias. Essas comunidades ajudam a preservar parte da memória e da identidade do município, que no dia 18 de setembro completa 193 anos de emancipação política. 

📰A partir desta quinta-feira (17), o portal Acorda Cidade publica uma série de reportagens especiais sobre os oito distritos de Feira de Santana.

Em entrevista ao Acorda Cidade, a historiadora Márcia Suely Nascimento destacou as características de cada um dos oito distritos. Segundo ela, essas comunidades conservam as tradições iniciais da cidade até os dias de hoje, como é o caso de Tiquaruçu com a Festa de Reis e o samba da Matinha, principalmente com a Quixabeira. 

Maria Quitéria, Tiquaruçu e a Matinha trazem as tradições. Maria Quitéria é marcada pela heroína, pela presença de Maria Quitéria. A Matinha, pela Quixabeira e, agora, pela Associação do Coleirinho, que vai fazer essa preservação dessa memória ancestral através das comunidades quilombolas e do samba. E o Tiquaruçu, com a questão do reisado.” 

Márcia Suely Nascimento
Márcia Suely Nascimento | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

Potencialidades econômicas e turísticas

Sobre as potencialidades econômicas e turísticas, a professora pontuou a questão imobiliária no caso de Jaíba, por conta do avanço da Avenida Artêmia Pires, que cada vez mais aproxima o distrito da sede. 

“Ipuaçu, Jaguara vêm com as questões do turismo ecológico, e Bonfim da Feira, que pode ser explorada nesse sentido, como também das tradições de agricultura de subsistência e pecuária. No caso de Humildes, a produção industrial tem um forte potencial futuro. É uma das que têm uma maior dinâmica nesse sentido de indústria. No caso de Ipuaçu, ela favorece a distribuição viária por causa das suas vias.”

Márcia também chamou atenção para a retomada da tradição da Festa de Reis em Tiquaruçu e da preservação das comunidades quilombolas na Matinha, bem como do samba, que tem sido cada vez mais resgatado e retomado.

Quanto a Maria Quitéria, ela salienta a aproximação com a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), o que traz um avanço imobiliário na região, e as tradições de Jaguara, como de cavalgada.

“Em Tiquaruçu, a própria tradição dos reisados, que se perdeu em tantos lugares, e o mestre Asa Filho contribui bastante para isso, que se mantenha essa tradição bem forte. Tanto que é o que ainda tem aquela característica de cidadezinha pequena, aquela coisa gostosa, de comunidade ainda bem tradicional. Jaguara é pela questão das tradições de cavalgada e da pecuária extensiva.”

De acordo com Márcia, é importante preservar a história e as tradições dos distritos porque, à medida que o centro de Feira de Santana vai se modernizando, também vai perdendo essa memória. 

Os distritos, guardando essa memória, preservam essas tradições e preservam a própria cultura inicial da cidade.”

Particularidades dos oito distritos

Questionada sobre as particularidades de cada distrito, a historiadora começou falando sobre Humildes, considerado o maior distrito, com mais de 30 mil habitantes. O distrito abriga multinacionais, como Nestlé e Pepsico, mas também concilia a vocação industrial e agropecuária. 

Governador participa de missa do Trezenário de Nossa Senhora dos Humildes em Feira de Santana
Foto: Reprodução/Redes Sociais

Concilia através dos próprios recursos. Hoje em dia, a gente tem o agronegócio. Então, Humildes é um exemplo disso, de como mantém essas atividades de pecuária e agricultura utilizando parte, sim, da mecanização e do potencial industrial.” 

Jaguara é o maior distrito em extensão territorial e o mais distante da sede, Márcia ressaltou a tradição da cultura sertaneja na comunidade, principalmente pela Festa do Vaqueiro, todos os anos. 

38ª Missa dos Vaqueiros é celebrada em Jaguara neste fim de semana
Foto: Valdenir Lima

“A questão do ofício de vaqueiro é um dos patrimônios imateriais e culturais, que deve ser preservado. Ele aparece no interior da Bahia e na região de Feira de Santana, e isso foi um marco muito grande. Na cidade, a gente tem a imagem do vaqueiro, do tropeiro, próximo do Centro de Abastecimento, mas a gente já não vê na cidade por conta do crescimento. Então, Jaguara, preservando essas festas, tem essa valorização.”

Já sobre Maria Quitéria, berço da heroína da independência e que abriga o quilombo da Lagoa Grande, o primeiro reconhecido no município, a professora falou como a militar é a parte principal da identidade do local. 

Desfile do 2 de Julho no Distrito de Maria Quitéria em Feira de Santana
Desfile do 2 de Julho no Distrito de Maria Quitéria | Foto: Paulo José / Acorda Cidade

“A gente valoriza essa comunidade pela presença da figura feminina, tendo esse avanço de reconhecê-la enquanto heroína, mas também trabalhar a presença das comunidades quilombolas na região. Maria Quitéria é um marco que deve ser revisitado, primeiro por ser uma mulher participando de uma guerra, e, segundo, pelo que ela significou para o município. Esse processo de você revisitar a memória dessa mulher, além de valorizar a própria terra, cria novas oportunidades para os habitantes do lugar, que reconhecem algum potencial também de prosseguir.”

Matinha é o distrito mais recente, tem forte presença quilombola e grupos de samba de roda, como o Quixabeira da Matinha. Segundo a historiadora, essas manifestações preservam a memória afro-brasileira através do próprio samba e do matriarcado. 

Quixabeira da Matinha lançará álbum novo neste sábado
Quixabeira da Matinha | Foto: Ana Reis

“A Matinha é um exemplo de uma economia que cria iniciativas próprias, um município que valoriza essa comunidade quilombola e o quanto isso traz retorno para o próprio local. Então, é interessante que eles, cada vez mais, tenham esse fortalecimento, com a própria Associação do Coleirinho, para resgatar cada vez mais esses elementos e para posicionar, porque Feira de Santana tem muitas comunidades quilombolas, agora poucas reconhecidas.”

Bonfim de Feira preserva um casario centenário, que guarda memórias dos séculos XVIII e XIX, e tem forte presença de religiões de matriz africana. De acordo com Márcia, esse patrimônio representa a diversidade que existe na própria Feira de Santana, que foi apagada no centro da cidade e que existe dentro dos distritos

Bonfim de Feira
Distrito de Bonfim de Feira (Ilustrativa) | Foto: Ed Santos / Acorda Cidade

“Quando a gente percebe essa forte presença africana nos distritos de Feira de Santana, significa que os processos de avanço da própria cidade de urbanização foram levando eles para outros lugares, mas que aqui existiram.”

Tiquaruçu guarda a pia batismal onde Maria Quitéria teria sido batizada, e a Pedra do Judeu, que carrega lendas e relatos de assombrações. A professora explicou que essas histórias e lendas se preservam principalmente pela oralidade, sendo contadas e repassadas entre famílias e amigos.

Reisado de Tiquaruçu | Foto: Washington Nery
Reisado de Tiquaruçu | Foto: Washington Nery

“A igreja valoriza até hoje, está identificado direitinho como Maria Quitéria foi batizada por ali. Então, essa memória que Tiquaruçu guarda, através da oralidade, porque a gente percebe que a população conhece e fala, e também através das próprias festividades. Não dá para falar, por exemplo, do dia de Maria Quitéria ou falar da heroína Maria Quitéria se não tocar em Tiquaruçu e no distrito de Maria Quitéria. E também quando preserva o Reisado, que traz essa concepção de tradições que permaneceram ao longo do tempo.” 

Jaíba é palco do tradicional Forró Jegue e Ipuaçu, que em 1983 passou a se chamar Governador João Durval Carneiro, celebra a Festa do Vaqueiro há cerca de 20 anos. Márcia Suely destacou que essas festas movimentam a econonomia dos distritos e preservam a cultura local, pois incentivam a presença de visitantes, e não apenas dos habitantes da própria comunidade. 

“As pessoas estão por ali e precisam de serviços. Quando temos duas festas muito simples, como as corridas, as cavalgadas, as vaquejadas, percebemos que existe uma preservação desse vaqueiro, desses ofícios que vieram bem antes da cidade se tornar comercial, bem antes de seus distritos permanecerem nesse processo de estar cada vez mais próximo do centro. Então, a preservação dessas festas é a preservação também dessa cultura.”

Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.

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