21 de September de 2026
Igreja de Senhor do Bonfim em Bonfim de Feira
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Com história, cultura e a tradicional festa do padroeiro do Senhor do Bonfim, Bonfim de Feira é um dos oito distritos de Feira de Santana, que completou 193 anos de emancipação política na sexta-feira (18). Para marcar a data, a reportagem do Acorda Cidade conversou com moradores que conhecem de perto as memórias que fazem parte da identidade do distrito. 

O músico Gilson Reis disse que nasceu em Salvador, mas com um mês de vida foi morar em Bonfim de Feira, onde vive e trabalha desde então. Segundo ele, anteriormente,  o distrito se chamava Itacuruçá, por conta da cruz de pedra localizada em frente a Paróquia Senhor do Bonfim. 

“Bonfim de Feira é um lugar muito calmo, muito tranquilo, um lugar de paz. Antes teve o nome de Itacuruçá, por causa da cruz que tem em frente à igreja, a cruz de pedra. E aí depois de bons anos que virou o nome Bonfim de Feira e passou a ser distrito de Feira de Santana.”

Gilson Reis
Gilson Reis | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Questionado sobre o que mudou ao longo do tempo, Gilson destacou o comércio, como lojas de roupas e calçados, e a agricultura e pecuária, que perderam a força com o passar dos anos. De acordo com o músico, muitos comerciantes deixaram o distrito para morar em Feira de Santana pela falta de escolas com ensino médio e faculdades em Bonfim de Feira. 

O comércio diminuiu por conta dos filhos dessas pessoas que eram comerciantes e precisavam estudar, e Bonfim de Feira não tinha o curso do segundo grau para se formar. Aí veio a questão da faculdade. Os pais tiveram que comprar uma casa em Feira de Santana. O medo também de deixar os seus filhos muito novos em Feira de Santana sozinhos, terminou eles saindo daqui.”

O músico destacou que, atualmente, o trajeto até Feira de Santana melhorou com o tempo. Hoje em dia, muitos moradores de Bonfim de Feira conseguem até trabalhar em Feira de Santana. 

Tínhamos mais dificuldade de transporte, porque só tinha um carro uma vez no dia. E hoje não, muitas pessoas que residem aqui em Bonfim de Feira trabalham em Feira de Santana.”

Caminho de boiadeiros e casarão histórico

Questionado sobre o distrito ter sido caminho dos boiadeiros vindos de estados como Minas Gerais e Goiás, Gilson afirmou que os caminhões chegavam em Bonfim de Feira para buscar os animais e levar para outros locais.

Outro ponto abordado pelo músico foi o casarão histórico de Bonfim de Feira. Há mais de 100 anos, o local preservava vestígios do período da escravidão, como troncos e espaços onde pessoas escravizadas eram amarradas e torturadas. O casarão, no entanto, foi demolido com o passar do tempo, apesar de, segundo ele, ser um espaço que deveria ter sido preservado.

Gilson também contou que a igreja do Senhor do Bonfim foi construída pelas pessoas escravizadas. É nesta paróquia que a população celebra a Festa do Senhor do Bonfim, em maio. Após o tradicional novenário, também há uma festa e um leilão de gado. 

“Chega a ter 40 animais, 60 animais todos os anos. Essa festa é em prol de arrecadar fundos para a própria comunidade, trazendo patrimônios para a igreja. Como centro paroquial, centro de catequese, o cemitério, que é também administrado pela igreja, e muitas coisas que a paróquia faz aqui justamente dessa arrecadação da Festa do Senhor do Bonfim.”

Outro local marcante do distrito é o Mercado Municipal, que está passando pela terceira reforma. Nesse tópico, o músico chamou atenção para outras obras que têm sido realizadas, como a construção de um centro de velório. 

Presença de religiões de matriz africana

Além do catolicismo, as religiões de matriz africana também têm forte presença em Bonfim de Feira. Ao Acorda Cidade, Gilson explicou que anos atrás, seu pai, João Jenipapo, era um médium vidente muito conhecido e que sustentava a cultura africana no distrito. Desde então, outras pessoas seguiram com essas tradições. 

“É muito forte aqui. Ainda permanece. Existem muitas pessoas aqui em Bonfim que até hoje estão sustentando essa matriz africana.”

Por fim, Gilson detalhou os pontos mais especiais de Bonfim de Feira. Além da Festa de Senhor do Bonfim, ele falou sobre o Projeto Verão, idealizado por ele mesmo, que reúne mais de 2 mil pessoas na praça do distrito para prestigiar os shows de artistas de Feira de Santana e outros locais. 

“Nós temos também a Festa do São Pedro, que é uma tradição que tem aqui em Bonfim. Temos essa igreja maravilhosa, que vem muitas pessoas de fora para poder visitar e ver a maravilha que é Bonfim de Feira. E o mais forte de Bonfim ainda é um lugar de paz, um lugar de tranquilidade, nossa terra.”

Professora destaca lembranças do distrito

A professora aposentada Hildaly Oliveira, de 88 anos, passou a infância em Bonfim de Feira e falou ao Acorda Cidade sobre as lembranças mais marcantes no município. Desde correr na rua até andar de bicicleta, Hildaly lembrou de festas de carnaval, de Senhor do Bonfim e o aniversário da Pró Ana, que acontecia na praça. 

Hildaly Oliveira
Hildaly Oliveira | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

“Eu me lembro muito bem da minha infância. Uma infância maravilhosa que eu tive. Corria nessa praça, brincava de todo jeito. Era bicicleta, corre-corre. Era muito bom. E também tenho lembranças das festas lindas que tinha aqui, carnaval, festas de Bonfim, aniversário da Pró Ana, que teve há muitos anos atrás, quando ela fez 60 anos. A Pró Ana fez uma festa lindíssima aqui na praça. Uma lembrança que não apaga.”

Hoje em dia, a professora enfatiza os moradores “dando prosa” na porta de suas casas. De acordo com ela, os vizinhos e amiguinhos costumam ficar na casa dela, conversando.

“Aqui na minha casa mesmo não tem horário para vir ver sol. Aqui a casa é cheia. À noite aqui, eu digo: ‘Ô gente, essa casa aqui virou o quê?’ É brincadeira, é tanta coisa que as meninas fazem, parece que eu tenho a mesma idade delas. Minhas vizinhas, meus amiguinhos.”

Com as lembranças, ela salientou as mudanças no distrito e as coisas que desapareceram com o tempo. De acordo com Hildaly, muitas lojas fecharam as portas, como de tecido, sapatos e açougues. 

“A feira muito boa que tinha aqui na rua, uma feira livre. Antes do mercado, tinha a feira livre aqui. Era muito bom, Bonfim era maravilhoso naquela época, como também é hoje. Mesmo com as coisas menores que temos, mas Bonfim é a nossa cidade.”

Escolas e falta de oportunidades

Hildaly explicou que hoje, alguns moradores do distrito trabalham em Feira de Santana, e outros trabalham em escolas de Bonfim de Feira, como o Centro Educacional do Campo Cônego Cupertino de Lacerda e a Escola Municipal Álvaro Pereira Boaventura, locais onde ela mesma trabalhou e foi diretora. 

“O Colégio Cupertino de Lacerda. O Álvaro também, eu trabalhei muito lá. Mas o Cupertino eu tenho maior amor, porque nós vivemos a época da fundação.”

Segundo ela, a transferência de trabalho para Feira de Santana é uma das principais mudanças na vida dos moradores ao longo dos anos. 

“Aqui não existem meios de vida para os jovens trabalharem. Muitos deles já formados,  mas não tem como trabalhar. Antigamente, eu era menina nessa época, meu pai trabalhava com fumo. Vavá Boaventura era um grande comerciante, Virgílio Borges, e tantos outros. Aqui eram comerciantes de fumo.”

Quanto à maior riqueza do distrito atualmente, ela ressaltou a carne bovina, pela forte presença das fazendas de gado. 

“Tem muitas fazendas por aí. O gado daqui é muito especial, tudo sadio. São produtores que têm boas condições e trazem sempre o melhor para aqui.”

“Procurem estudar”

Ao ser questionada sobre uma história de Bonfim de Feira que ela escolheria recuperar, se fosse possível, a professora pontuou a recuperação das belezas do distrito, como da praça. 

“Eu fazia a recuperação de tudo aqui em Bonfim. Uma praça bonita, que a gente se alegre, como a gente sempre teve também. Juju faz o festival de verão aqui, é bom, é tanta gente que vem para essa praça. Eu gostaria que nunca ficasse quieto, sempre alegre.”

Como mensagem para as novas gerações, Hildaly destacou o estudo como ponto principal, chamando atenção para a escola de tempo integral que ela espera que passe a funcionar em breve. 

“Que todos sejam felizes, que todos procurem estudar, porque a primeira coisa que nós temos na vida é o estudo para os jovens, que precisam estudar para crescer. Porque muita gente cresce mesmo sem o estudo, mas a maioria precisa de estudar. Eu aconselho todos os jovens a estudar. E agora com a escola de tempo integral, vai ser maravilhoso. Eu espero que em breve essa escola possa funcionar também, para ajudar a população daqui.”

Histórico quilombola e indígena

Elias Moreira, conhecido como Babá Elias, de 64 anos, é conselheiro de Oxalá no Terreiro Deus Dará em Umbanda. Ao Acorda Cidade, ele disse que o território de Bonfim de Feira tem raízes quilombolas e indígenas, sendo chamado de Itacuruçá, antes de receber o novo nome, em 1943. 

“Antes de tudo, era quilombola, e aqui tinha muitos indígenas. A região toda era indígena.”

Babá Elias
Babá Elias | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Elias conta que as religiões de matriz africana no distrito se transformaram com o tempo. Antigamente, dona Isabel era a única mestra de Oxalá na região, o que atraía fiéis de vários locais.

“Vinham pessoas de muito longe atrás dela. O meu mestre, João Batista da Conceição, era filho de dona Isabel e assumiu as orientações espirituais da Bahia e da região após a morte dela, por ser um dos mais elevados dos mestres.”

Além disso, ele disse que muitos escravizados se refugiaram no distrito, onde encontraram a “guarita dos indígenas”. Com a Igreja de Senhor do Bonfim já no local, Bonfim de Feira acabou reunindo o cristianismo e as religiões de matriz africana e indígenas. 

“Os negros se refugiaram aqui. Encontraram a guarita dos indígenas, e veio a religião deles. Os indígenas já tinham a deles, e eles trouxeram a religião dos pretos. E já tinha a Igreja Católica com essa veneração ao Glorioso Senhor do Bonfim. Aí faz a fusão da fé misturada.”

Mistura de religiões

Com a mistura de religiões, não só a igreja celebra o dia de Senhor do Bonfim, mas também o terreiro de Elias, que comemora o dia 15 de janeiro, data que marca Lavagem do Bonfim, com uma festa tradicional. 

“Hoje não está se fazendo mais festas como se fez antigamente, pelo custo, pela dificuldade, por muita gente sendo curador, outras pessoas sendo babalorixá. Então acabou dividindo, afastando e tendo mais de uma festa. Quando comecei, eu fazia duas festas. Uma em julho e outra em janeiro. Festas grandes, de encher aqui até lá na rua.”

Ainda sobre a presença de pessoas escravizadas na região, o professor também falou sobre o casarão, que desabou recentemente. De acordo com ele, o local já foi o Pelourinho do Bonfim e preservava uma parte cruel da história do Brasil. 

“Era o Pelourinho do Bonfim. Não guardaram, porque aquilo era para ser preservado, não deixar cair. Tinha as correntes, tinha aquelas bolas de ferro com corrente, tinha o tronco. Tinha escravização aqui. Dizimaram muitas tribos de indígenas. E os negros ficavam ali escondidos.”

Apesar de citar alguns problemas como a falta de água em muitos locais, principalmente em regiões mais altas, e o saneamento básico precário, Babá Elias ressaltou a história de Bonfim de Feira, a força do comércio e da pecuária. 

“Os donos de fazendas faziam umas festas grandes, bonitas, festa de vaqueiro. Bonfim continua com suas dificuldades, precisando de muitas coisas, mas Bonfim continua resistindo.”

“Minha casa é aqui”

Antonivaldo Jesus, de 79 anos, é mais conhecido como Totinha. Nascido em Bonfim de Feira, ele, assim como vários outros, trabalhava em Feira de Santana. Foi pegando a estrada de chão entre o distrito e a sede que Totinha criou cinco filhos. 

“Criei minha família toda aqui. Tenho cinco filhos, oito netos e dois bisnetos. Eu vou em Feira só para passear, comprar alguma coisa, mas quero permanecer em Bonfim. Minha casa é aqui.”

Antonivaldo Jesus
Antonivaldo Jesus | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Além de trabalhar na sede, Totinha contou ao Acorda Cidade que costumava fazer o trajeto, de 32 km, a pé, pois gostava de correr. Agora, as cartilagens acabaram.

“Corri muito de Feira para aqui, são 32 km. Eu gostava de correr, cansei de fazer. Estava lá e fazia de lá para cá.”

Com informações do repórter Ed Santos e do jornalista Kaio Vinícius, ambos do Acorda Cidade.

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