23 de September de 2026
Você sabe o que é ludopatia? Entenda quando as apostas deixam de ser diversão e viram transtorno
Foto: Magnific

O vício em apostas, hoje reconhecido como transtorno do jogo, deixou de ser visto apenas como um problema de comportamento para se tornar uma condição de saúde com impactos profundos na vida financeira, familiar e psicológica. A classificação, adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na CID-11, define a ludopatia como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos, no qual a pessoa perde o controle sobre o ato de apostar e continua jogando mesmo diante de consequências negativas.

A psicóloga Carol França explica que a ludopatia é considerada uma condição de saúde porque pode produzir prejuízos significativos no funcionamento financeiro, familiar, profissional, social e psicológico. Ela destaca também que nem toda pessoa que aposta desenvolve um transtorno e que o problema está relacionado ao padrão de comportamento, à perda de controle e aos prejuízos associados.

O alerta ganha ainda mais relevância com a expansão das apostas online, que facilitam o acesso contínuo ao jogo e intensificam o risco de dependência. Segundo a OMS, os danos relacionados às apostas podem incluir problemas de saúde mental e até suicídio.

“O transtorno do jogo pode estar associado a sofrimento psicológico importante, incluindo ansiedade, depressão, estresse, vergonha e conflitos familiares e financeiros. A facilidade de acesso às apostas online também permite que a pessoa aposte de maneira praticamente contínua, o que pode favorecer a manutenção do comportamento problemático. A associação com comportamento suicida merece atenção especial. Percebe-se maior frequência de ideação e tentativas de suicídio entre pessoas com problemas relacionados ao jogo, embora, os estudos disponíveis não permitam afirmar que o jogo, isoladamente, seja a causa do comportamento suicida. Por isso, quando existe desesperança, pensamentos de morte ou fala sobre suicídio, a situação deve ser tratada como uma urgência em saúde mental”, alertou a psicóloga.

Sinais de alerta

Entre os sinais de que uma pessoa pode estar desenvolvendo dependência, a especialista Carol França destacou: apostar valores maiores ou por mais tempo do que o planejado, dificuldade de parar, pensamento constante em apostas, tentar recuperar perdas apostando novamente, esconder o quanto aposta, comprometer recursos essenciais e deixar de lado trabalho, estudos e relacionamentos. A irritabilidade e a ansiedade quando não se pode apostar também são indicativos importantes.

O peso do endividamento

O endividamento provocado pelas “bets” costuma gerar um ciclo de estresse, culpa, vergonha e desesperança, de acordo com a psicóloga. Ela afirmou que muitas pessoas escondem as perdas da família, fazem novos empréstimos para tentar recuperar o dinheiro e agravam ainda mais o problema.

“Para a família, isso pode significar perda de confiança, conflitos conjugais, dificuldades para pagar despesas básicas e mudanças importantes na dinâmica familiar. A OMS reconhece entre os danos associados ao jogo problemas financeiros, conflitos e rupturas familiares, violência familiar e sofrimento psicológico. É importante evitar uma abordagem baseada apenas na culpa. O endividamento precisa ser enfrentado, mas também é necessário compreender e tratar o comportamento de aposta que está contribuindo para a manutenção desse ciclo”.

Jovens em risco

Adolescentes e jovens formam um grupo especialmente vulnerável. Carol França, que coordena o curso de psicologia da Estácio, afirma que nessa fase de desenvolvimento, marcada pela busca por novidades e pela influência dos pares, as apostas apresentadas como entretenimento ou associadas ao esporte tendem a ser normalizadas. Segundo ela, no ambiente online, a facilidade de acesso e a exposição constante à publicidade reforçam esse cenário, o que torna essenciais a prevenção, a educação financeira e a supervisão dos adultos responsáveis.

Como a família deve agir

A orientação da profissional é conversar de forma direta, mas sem julgamento ou humilhação. “A família pode estimular a busca por avaliação profissional; ajudar a pessoa a interromper o acesso às apostas; estabelecer limites claros para o uso de recursos financeiros, quando necessário; não assumir ou encobrir repetidamente as dívidas para que o problema continue invisível; acompanhar o tratamento, quando a pessoa desejar e quando isso fizer parte da proposta terapêutica; cuidar também da própria saúde mental. É importante lembrar que a família não consegue tratar sozinha um transtorno do jogo. Ela pode ser uma importante fonte de apoio, mas o cuidado profissional é fundamental”, salientou.

Existe tratamento

De acordo com a psicóloga Carol França, o acompanhamento pode envolver psicoterapia, avaliação médica e psiquiátrica quando necessária, intervenções voltadas ao controle do comportamento de apostar, manejo de ansiedade e outros sintomas, prevenção de recaídas e tratamento de possíveis transtornos associados. O Ministério da Saúde informa que o cuidado pode ser realizado por equipe multiprofissional e incluir atendimentos individuais e em grupo e, em alguns casos, medicação.

“No Brasil, a pessoa pode procurar inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Os CAPS são serviços públicos de saúde mental com equipes multiprofissionais e podem acolher pessoas em sofrimento psíquico e organizar o cuidado de acordo com a necessidade. Atualmente, o Ministério da Saúde também disponibiliza orientação específica sobre problemas relacionados a jogos e apostas, inclusive teleatendimento em saúde mental pelo Meu SUS Digital.

Além do cuidado em saúde, medidas práticas para reduzir o acesso às apostas podem fazer parte do plano de proteção. O Ministério da Saúde informa, por exemplo, a existência de uma plataforma de autoexclusão, que permite solicitar o bloqueio das contas em plataformas de apostas autorizadas”.

E a especialista fez um alerta: “Se houver pensamentos de morte ou intenção suicida, não se deve esperar pelo tratamento ambulatorial: é necessário procurar atendimento de urgência, como uma UPA ou serviço de emergência, ou acionar o SAMU pelo 192”.

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