
Feira de Santana sedia, nesta sexta-feira (25), a primeira edição do Congresso Baiano de Direito Previdenciário e Saúde Mental. Realizado das 8h às 18h, o evento reúne profissionais e estudantes em uma proposta de aproximar Direito, saúde mental, neurociência, comunicação e relações de trabalho para discutir os desafios humanos e profissionais e a importância de reconhecer o adoecimento antes que ele se transforme em ruptura.

Em entrevista ao Acorda Cidade, o organizador do evento, o advogado José Henrique Martins, contou que foi em Feira de Santana que ele iniciou a carreira profissional. Segundo o advogado, a experiência de atuação no município também permitiu identificar problemas relacionados ao Direito Previdenciário e à saúde mental.
“É a minha cidade do coração, nosso escritório, nossa carreira profissional iniciou em Feira de Santana há 15 anos. Então é onde nós executamos o nosso trabalho, e onde nós conseguimos de perto enxergar as deficiências relacionadas ao Direito Previdenciário e Saúde Mental”, afirmou.

A realização do evento também foi motivada pelo aumento de casos relacionados ao adoecimento mental. Para José Henrique, o Setembro Amarelo contribuiu para ampliar a atenção ao tema.

“Nos últimos cinco anos, os números são assustadores. A crescente do número de pessoas afastadas do seu ambiente de trabalho por problemas relacionados à saúde mental foi o grande motivador”, explicou.
Participantes
A organização esperava cerca de 100 participantes, mas registrou um público maior. Durante a programação, foram discutidos temas como incapacidade, perícia, fibromialgia, saúde mental e os efeitos da pressão sobre o cérebro.

Cérebro sob pressão
Entre os palestrantes esteve o neurocientista Fernando Lauria, de São Paulo, que falou sobre o funcionamento do cérebro sob pressão.
“Trazer esse assunto é uma perspectiva de poder olhar para a individualidade de cada um de nós e aí perceber não só as demandas que são trazidas, mas a maneira como nós nos recuperamos, sobretudo, desse estresse que pode ter chegado até a gente”, disse.

Estresse saudável e estresse nocivo
Fernando explicou que o estresse faz parte do cotidiano e pode ser considerado saudável quando a pessoa consegue se recuperar rapidamente após uma situação de pressão. O problema ocorre quando a intensidade é maior e a recuperação se torna difícil.
“Quando nós temos uma intensidade grande e, sobretudo, uma dificuldade na recuperação, ou seja, numa instabilidade, numa volta à estabilidade desse momento de estresse, isso já começa a chamar a atenção. E aí nós vamos ter diversos efeitos que interferem na forma como nós interagimos com outras pessoas, nas formas como nós realizamos as atividades que têm que ser realizadas e diversos outros pontos ao longo da vida. Quando nós nos recuperamos e chegamos a um alívio rápido diante desta pressão que foi trazida e que gerou esse pequeno estresse, isso é trazido como um estresse saudável, que faz parte do dia a dia”, afirmou.

Segundo o neurocientista, a pressão excessiva também pode prejudicar a atenção, o foco e a organização para realizar tarefas.
“A pressão excessiva traz uma química cerebral que inibe algumas regiões cerebrais que são fundamentais para que nós tenhamos essa reação de uma forma mais expressiva. E isso é que traz o “branco”, isso é que traz a paralisação”, explicou.
Segundo Fernando, a educação socioemocional deve ser trabalhada desde a infância, para ajudar crianças e adolescentes a compreender e lidar melhor com as próprias emoções.

Sinais de sobrecarga
O especialista destacou alguns sinais que podem indicar que a pressão está ultrapassando os limites.
“Quando a gente já não consegue fixar o que era necessário ser fixado, quando a gente lê um texto e não consegue interpretar esse texto como eu interpretava, a possibilidade também de eu não realizar as tarefas até o fim, todos esses são sinais que precisam ser observados”, afirmou.
Estratégias para lidar com a pressão
Entre as estratégias que podem ajudar a lidar com a pressão, Fernando citou práticas como ioga, mindfulness (direcionar o foco para o momento presente, observando pensamentos) e meditação. “O primeiro ponto que existe é o conhecimento sobre você mesmo. O autoconhecimento é um ponto essencial para que nós possamos lidar com essas pressões”, disse.
O neurocientista também ressaltou a importância das pausas e do descanso para o funcionamento do cérebro. “Nosso cérebro precisa de momentos de descanso, de pausa, assim como o nosso corpo precisa durante o sono”, explicou.
Uso de telas
Fernando também defendeu o controle do uso de telas, especialmente para crianças. “Não só pode como deve ser controlado porque ele tem trazido prejuízos muito grandes para o desenvolvimento cerebral”, afirmou.
“Quando você fala na questão da saúde mental que afeta a capacidade de trabalhar, isso vai diretamente interferir nos seus direitos e ele precisa ter esse suporte para ter o acesso da Previdência e de quem for necessário”, disse.
Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.
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