28 de September de 2026
Compostos nocivos em produtos do dia a dia
Compostos nocivos em produtos do dia a dia

Resíduos descartados em centros de desmanche e aterros no interior paulista contêm substâncias químicas ligadas a riscos de câncer, aponta um estudo do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista, feito em parceria com pesquisadores da Universidade de Birmingham, no Reino Unido.

Ao longo de décadas, a indústria recorreu a um grupo de compostos chamados ésteres organofosforados clorados para dar propriedades plastificantes e retardantes de chama a estofados, peças plásticas de automóveis e produtos infantis. 

A presença dessas substâncias em resíduos ainda destinados à reciclagem preocupa porque esses resíduos podem voltar ao mercado sem controle químico prévio.

Como foi feito o estudo

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores analisaram 207 amostras retiradas de quatro tipos de descarte diferentes: entulho de construção e demolição, carcaças de veículos fora de uso, estofados e produtos infantis. 

Praticamente todo o material testado — 95% das amostras — tinha traços de pelo menos um desses compostos, e em treze casos a concentração superou o limite considerado mais preocupante pelos pesquisadores.

Todo ano, cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos são geradas no país, volume que coloca o Brasil na segunda posição entre os maiores geradores das Américas, e parte desse material volta ao mercado como matéria-prima para novos produtos.

De onde vêm os resíduos analisados

A coleta aconteceu na região metropolitana de Sorocaba, em São Paulo, cobrindo pontos que concentram grande volume de descarte industrial e doméstico. 

Fizeram parte da amostragem um pátio de desmanche automotivo, um aterro voltado a entulho de obras, cooperativas de reciclagem e indústrias que fabricam ou restauram estofados.

A escolha desses locais se deve à concentração de tipos de resíduo com maior chance de conter ésteres organofosforados clorados no país. Espuma de colchão, revestimento de banco de carro e carcaça de eletrônico estão entre os itens que historicamente usaram esse tipo de aditivo químico.

Como o composto age no organismo

Três substâncias apareceram com maior frequência nas amostras: o tris (1-cloro-2-propil) fosfato, conhecido como TCIPP, além do TDCIPP e do TCEP. Fabricantes recorriam a esses compostos porque resistem bem ao calor e custam pouco, características que os tornaram populares em espuma de poliuretano, isolamento de construção e peças plásticas.

O contato direto com o objeto, a ingestão acidental e a inalação de poeira liberada pela degradação do material são as principais formas de exposição a essas substâncias. Uma vez absorvidos pelo corpo, os compostos podem interferir nos sistemas endócrino e reprodutivo, além de favorecer o surgimento de câncer.

O ponto cego da reciclagem

Reaproveitar um material contaminado sem verificar sua composição química transforma um processo pensado para reduzir o impacto ambiental em uma nova fonte de exposição. 

O alerta central da pesquisa é que, sem triagem adequada, resíduos com ésteres organofosforados clorados podem seguir para novos produtos e continuar circulando no ambiente.