
Entre o Rio Jacuípe e o Rio do Peixe está Jaguara, maior distrito em extensão territorial de Feira de Santana e o mais distante da sede, a 35 km de distância. Antes de se chamar Jaguara, nome de origem tupi em “iauára” que significa “onça” e “jaguar”, o distrito teve o nome de Bom Despacho até 1943. Desde a década de 1980, Jaguara é palco da anual e famosa Festa do Vaqueiro, reunindo moradores e turistas para prestigiar a Missa do Vaqueiro e as apresentações musicais tão tradicionais do evento.
José Ribeiro, de 88 anos, contou ao Acorda Cidade que a ideia de fazer uma Missa do Vaqueiro em Jaguara surgiu após ele e outras pessoas terem ido para a Missa do Vaqueiro de Tanquinho.
Entramos num bar. Aí os caras disseram: ‘mas vem cá, por que em todo lugar tem uma Missa do Vaqueiro, tem uma festa, tem tudo e Bom Despacho não tem? Parece que Bom Despacho não tem homem’. Aí eu me arrepiei todo.”

Ao ouvir isso, José foi até o prefeito de Tanquinho na época, Cristóvão Pereira, e pediu ajuda para fazer uma Missa do Vaqueiro na atual Jaguara. Na primeira edição, a missa aconteceu na própria casa de José.
Hoje em dia, ele afirma que mesmo “velhinho” ainda monta no cavalo. “Até velhinho como eu estou, pode balançar. Eu monto no meu cavalo, eu não dou ousadia assim não.”
Tem muita gente hoje. Na primeira festa, a gente fazia aqui. Eu botava uma barraca ali, trazia uma mulher da feira para dar comida para o pessoal. Acertava os almoços, ela vinha fazer a comida para o pessoal, dava lá em casa, dava a comida aí. E com a ajuda dos amigos eu fazia a festa. Agora ficou grande, vem muita gente.”



Nascido e criado em Jaguara, José disse que passou a adolescência trabalhando na roça e, depois de um tempo, passou a trabalhar com gado. Segundo José, a principal diferença entre quando ele era criança e hoje em dia é o problema de segurança pública, como roubos.
Eu acho que para melhorar tem que acabar de refazer as coisas que tem. Tem muita coisa que precisa fazer. Tem um colégio que vão endireitar agora.”
“Esse rio é uma mãe”
Marcos Neris, de 46 anos, é administrador de Jaguara. Ele, que nasceu e cresceu no distrito, disse, ao Acorda Cidade, que a infância foi marcada por certas dificuldades. Com seis irmãos, Marcos foi “criado na pesca”. Ele afirmou que fez até o quinto ano do ensino fundamental em Jaguara, e depois, teve que seguir os estudos em Feira de Santana.

“Meu pai era um pescador e criou sete filhos praticamente do rio. Esse rio é uma mãe. Esse Jacuípe aqui já criou muita gente e vem criando até hoje. Daqui fui para Feira, fiz o segundo ano em Feira. Foi sofrido. Passei fome porque a gente não tinha dinheiro para merendar. O ônibus pegava a gente às 11h30. Chegava em Feira às 13h30. Aí voltava e chegava em casa às 20h, 21h. Mas valeu a pena. Foi dificultoso, mas valeu a pena.”
Atualmente, segundo Marcos, os jovens ainda costumam pegar longas estradas, mas o transporte melhorou bastante, com ônibus nos mais de 12 povoados do distrito. “Tem ônibus em todos os povoados. Tem o Colégio Colbert Martins, que é de primeira linha. Hoje já tem o estadual. Então melhorou bastante.”


Festas e evolução do distrito
Sobre as principais festas de Jaguara, ele destacou a Missa do Vaqueiro, que atrai diversas pessoas para o distrito. “A Missa do Vaqueiro, o ano passado mesmo, teve, no domingo, 20 mil pessoas. Hoje é uma tradição fortíssima de Jaguara.”
Marcos também reforçou a evolução de Jaguara, que, segundo ele, teve um grande crescimento positivo, como no transporte, nas escolas construídas e na área da saúde, como no posto que será ampliado.



“Para mim, significa muita coisa. A tendência é crescer. Isso aqui é um ponto muito bom. Tem esse rio, as escolas vêm visitar, os professores fazem movimentos com os alunos. A barragem aqui é o cartão postal de Jaguara. O que eu acho que pode melhorar aqui em Jaguara é as pessoas se juntarem mais e tentar buscar algo melhor para Jaguara. Como uma fábrica para dar emprego para as pessoas e não precisarem sair daqui.”
Dificuldades no transporte afetam comércio e trabalho em Jaguara
Vicente Paulo, de 69 anos, também nasceu e cresceu em Jaguara. Correr nas pedras e no rio foi a principal parte da “infância feliz” do funcionário público.
Nós éramos ilhados. Porque nós somos banhados por dois rios. Rio Jacuípe e o Rio do Peixe. E havia necessidade de ter uma passagem para passar. Porque por dentro do rio ficava difícil. Então, os fazendeiros reuniram com o prefeito e fez a passagem molhada que existe até hoje.”

Apesar da barragem permitir a passagem de pessoas e veículos, quando chove forte e transborda, muitas vezes é necessário trafegar pela estrada que dá no bairro Pedra Ferrada. No entanto, a situação da estrada não tem pavimentação asfáltica, o que dificulta a passagem.
Por cá, a gente gasta 20 ou 30 minutos. Por lá, gasta uma hora, uma hora e meia, porque a estrada é de chão. Geralmente, tem muito buraco.”



Vicente também explicou que houve uma diminuição no comércio de Jaguara, possivelmente pela dificuldade no tráfego de caminhões. Além disso, o distrito contava com um mercado municipal, que atualmente não funciona mais.
O nosso comércio diminuiu bastante, a gente ainda tinha um comércio de feira livre, e hoje não temos. Isso aqui atrás é um mercado municipal que funcionava na época, hoje não funciona. Exatamente por nós morarmos numa geografia acidentada, que não foi investido em estrutura para que a gente continuasse o tráfego de carga. Aí prejudicou o nosso comércio.”
Dessa forma, o funcionário público disse que muitas pessoas não conseguiram oportunidades de trabalho em Jaguara e tiveram que atuar em Feira de Santana e outras localidades. Porém, ele acredita que atualmente, o inverso tem acontecido, já que muitas pessoas saem das cidades grandes para morar na zona rural e se distanciar de questões como a violência.
“Está existindo até um retorno desse povo que foi da cidade grande para a zona rural. E precisamos nos estruturar para receber esse povo de volta, porque, de fato, aqui o trabalho é escasso, tem que ir para lá trabalhar. Mas eu acho que se os governos, as políticas públicas, enxergarem que essas pessoas que foram para a cidade grande e eles colocaram uma estrutura para que essas pessoas voltem, é bem-vindo.”



Agropecuária, educação e história movimentam os planos para o futuro
De acordo com Vicente, a agropecuária em Jaguara é muito forte, mas também chamou atenção para a estiagem que tem afetado os fazendeiros da região.
A agropecuária é muito forte. Nós temos sofrido com a estiagem, que aqui é uma região semiárida, mas o fazendeiro que já tem uma estrutura e que busca ração em outros locais, já sobrevive às dificuldades da seca. Hoje mudou tudo, porque quando vinha a seca, todo mundo sofria. Mas hoje não, já tem essas estruturas para armazenar ração.”
No entanto, o funcionário público acredita que, atualmente, é necessário investir na implementação de cursos como de zootecnia ou agronomia, pois são áreas que estão ligadas a agropecuária que é tão forte na região.



Nós precisamos investir em zootecnia ou uma faculdade de agronomia para ajudar nessa lida com os animais, com a floresta, com os rios. Nós temos uma bacia maravilhosa do Rio Jacuípe que nos banha de leste a oeste. Se nós investíssemos até nesse ponto, era bastante bacana.”
Quanto à educação básica, Vicente disse que tem acontecido uma transformação em Jaguara, que agora conta com ensino médio. Porém, ele reforçou o sonho de ver uma faculdade no distrito.
Eu acredito que o sonho que nós temos aqui é ter uma faculdade, dentro dessa perspectiva, que venha para melhorar a vida do homem no campo, na pecuária e na agricultura familiar, com curso superior para que essas pessoas encontrem emprego mais fácil pela vida.”



Questionado sobre o que mais gosta em Jaguara, Vicente destacou o “sossego”. Segundo ele, quem viaja para o distrito, se apaixona pelo local. Com isso, ele também contou que Jaguara deveria receber investimentos para se tornar um destino de lazer e terapia, principalmente pela natureza e pelos animais, que têm sido bastante utilizados como formas de tratamento em hospitais.
Na parte histórica, Vicente contou que Jaguara já existia antes de passar a fazer parte de Feira de Santana. Segundo ele, o distrito tem uma história que remonta ao período colonial e guarda marcas desse passado, como antigas senzalas.
Ele também destacou que Jaguara seria mais antiga que o próprio município de Feira de Santana e lembrou que a igreja de Nossa Senhora do Carmo do Bom Despacho tem quase 150 anos de existência.





“Eu acho incrível Feira de Santana, às vezes a gente não liga para esse lado histórico, para esse lado de identificar. Feira de Santana tem poucos prédios históricos, derrubaram tudo, o comércio derrubou tudo. E Jaguara, por exemplo, Jaguara é mais velho do que Feira de Santana. Em Jaguara tivemos algumas senzalas. Eu gostaria que alguém que faz cultura, ou quem se envolve com identidade, não deixe morrer a identidade de Jaguara. Essa igreja mesmo, de paróquia tem quase 150 anos.”
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Com informações do jornalista Kaio Vinícius, do Acorda Cidade.
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