2 de October de 2026
Três em cada 10 brasileiros são analfabetos funcionais
Foto: Geovana Albuquerque/Agência Brasília

Atualmente o Brasil registra mais de 8 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler e escrever, segundo dados divulgados pelo IBGE. E mais da metade deles estão na região Nordeste, com 4,8 milhões pessoas analfabetas, o que equivale a 57,4% do total no país. No norte, a taxa é de 5,7% e no Sul, de 2,4%. O Sudeste registra 2,3% e no Centro-Oeste o índice é de 3,3%.

Para esses milhões de brasileiros que não sabem ler e escrever, o período eleitoral pode representar uma série de obstáculos que vão muito além do momento de apertar os números na urna eletrônica. Eles têm o direito de votar, mas nem sempre conseguem participar plenamente das eleições.

Como conhecer os candidatos sem conseguir ler materiais de campanha? Como comparar propostas, acompanhar notícias ou verificar se uma informação recebida é verdadeira? Como tomar uma decisão de forma totalmente autônoma quando é necessário depender de outras pessoas para compreender grande parte das informações que circulam durante uma eleição?

Essas são algumas das questões que envolvem a participação política das pessoas analfabetas no Brasil e levantam um debate urgente sobre acessibilidade, inclusão e democracia.

“Quem não sabe ler e escrever enfrenta muitas dificuldades nesse período eleitoral. Nas ruas, por exemplo, quando recebem os famosos santinhos não sabem nem o que fazer com aquilo, pois não entendem o conteúdo que está alí. Outra grande questão é que, em geral, os analfabetos não são conectados, sendo assim, não acessam sites de notícias, não seguem as pesquisas, não têm acesso às redes sociais e o pouco que acompanham é pela televisão, nas propagandas eleitorais, que hoje são muito reduzidas”, explica a pedagoga Laís Lira, docente da Estácio e coordenadora de uma das unidades do Programa de Alfabetização e Letramento do Instituto Yduqs.

Embora o sistema eleitoral brasileiro tenha recursos que facilitam a votação, como a fotografia dos candidatos e a identificação por números, o desafio começa muito antes da chegada à urna. Para exercer o voto de forma consciente, o cidadão precisa ter acesso às informações, compreender o que está sendo discutido e formar sua própria opinião.

Nesse cenário, a dependência de familiares, amigos ou outras pessoas para acessar conteúdos pode limitar a autonomia do eleitor. Afinal, quem não consegue ler uma notícia, uma proposta ou uma mensagem recebida pode precisar da interpretação de outra pessoa e, essa mediação pode, muitas vezes, carregar opiniões, interesses e influências. O problema, portanto, não está apenas em garantir o acesso ao voto, mas em assegurar o acesso à informação.

Especialistas defendem que uma democracia verdadeiramente inclusiva precisa investir em formas mais acessíveis de comunicação política e eleitoral. Conteúdos em áudio, vídeos explicativos, linguagem simples e campanhas educativas são alguns dos recursos que podem ampliar a compreensão e fortalecer a autonomia dos eleitores.

“A verdade é que quando essas pessoas votam, porque muitas não votam, elas seguem o que aqueles de confiança delas indicam, sendo assim, não são elas que fazem as escolhas, o que acaba gerando uma atuação ineficaz, seguida pela ideia de outras pessoas, já que não têm ampla compreensão do mundo letrado. O ideal é desenvolver habilidades de atuação funcional e autônoma na sociedade, como fazemos no Programa de Alfabetização, preparando os alunos para exercerem sua cidadania”, acrescenta Laís.

A discussão ganha ainda mais relevância em um país onde o analfabetismo continua sendo uma realidade para milhões de pessoas. Garantir que esses cidadãos possam votar é fundamental. Mas garantir que possam entender, questionar, comparar e decidir por conta própria é um passo ainda maior na construção de uma democracia mais justa.

“Em nossas salas de aula os alunos relatam exatamente isso, que eles têm muita dificuldade de entender quais são as propostas dos candidatos para que possam fazer suas escolhas. E, diante dos obstáculos e da falta de informação, o que eles fazem? Pedem opinião para familiares e amigos, então eles não estão fazendo escolha alguma pois faltam recursos para um pensamento crítico. E esse é justamente um dos objetivos do letramento, levar os alunos a um ato de reflexão para poderem vivenciar, de verdade, suas demandas sociais”, conclui a pedagoga.

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