
“Ganhar e perder é do jogo.” Foi assim que Zé Neto (PT) resumiu, em entrevista ao Acorda Cidade, o momento político após não conseguir renovar o mandato de deputado federal nas Eleições Gerais realizadas no domingo (4). Mesmo com mais de 100 mil votos em toda a Bahia e quase 60 mil em Feira de Santana, sua principal base, o petista ficou como primeiro suplente da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV).
O resultado encerra, pelo menos por enquanto, uma sequência iniciada em 2018, quando Zé Neto chegou à Câmara dos Deputados. Ele foi reeleito em 2022 e, antes disso, construiu uma trajetória de quatro mandatos na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), além de ter sido vereador de Feira. Também disputou seis vezes a Prefeitura, chegando ao segundo turno em 2020 e 2024.
“Eu perdi muito voto no interior porque não tenho grana”
Na avaliação do próprio Zé Neto, a derrota passou, entre outros fatores, pela dificuldade de competir no interior. Ele fez críticas ao volume de recursos que, segundo afirmou, circulou durante a campanha.
“Eu perdi muito voto no interior porque não tenho grana e não quero ter certas granas que eu vi rodando nas campanhas, não quero fazer esquema de emenda. Eu tenho 62 anos, não tenho uma queixa na polícia. Não tenho processo, nem nada. Minha vida é limpa. E eu vi uma loucura nos últimos dias, a campanha se tornou uma coisa de toma lá dá cá que eu nunca vi na minha vida.”
Em 2022, Zé Neto foi reeleito com 128.439 votos. Neste domingo, recebeu 104.550, uma redução de 23.889 votos em relação ao pleito anterior.

Mais candidatos, menos votos
Se a votação individual não foi suficiente para garantir a cadeira, Zé Neto avalia que o campo político ao qual pertence saiu fortalecido em Feira. Apesar disso, reconheceu que sua votação foi afetada pela presença de outros candidatos do mesmo campo político.
“A gente teve a votação de David que foi muito expressiva, cerca de 10 mil votos; a Marighella teve cerca de 6 mil votos; e os outros todos foram votados aqui, Lídice, Solla, Valmir, todo mundo foi votado aqui. Então, o nosso grupo do PT, dos mais progressistas, teve um avanço. E, evidentemente, que isso divide um pouco o que eu tinha. A gente teve muitos votos novos que não faziam parte do elenco.”
Para Zé Neto, a redução da diferença nas urnas faz parte de um processo político que ainda está em movimento, principalmente no interior.
“No interior não foi como a gente esperava. A eleição passada, o corte foi 91 mil votos. Fiquei na primeira suplência. Então, um corte muito alto e que dependeu muito do interior. Eu também tive um problema que fiquei preso na eleição de Feira, isso conta. Mas tudo isso já tá dentro da minha cabeça como acontecimentos que fazem parte do dia a dia da política, ganhar, perder. Importante é estar fazendo sempre o seu melhor e servindo”, disse ao Acorda Cidade.

O petista também celebrou a vitória do governador Jerônimo Rodrigues (PT), que se reelegeu com 55,80% dos votos.
“Estou feliz demais com o Jerônimo. Diminuiu a distância de Jerônimo, que foi de 60 mil votos na eleição passada para 24, e já vinha diminuindo na minha última eleição. Está tudo andando, eu acho que a gente tem que tá a cabeça no lugar. 2028 é logo ali, o nosso campo, o nosso grupo está muito unido. Nós temos um partido muito bem estruturado. É ter paciência, ganhar a eleição com Lula, trabalhar para isso e lá com o Jerônimo continuar o nosso projeto que tem ajudado muito Feira, tem ajudado muito a Bahia”, disse ao Acorda Cidade.
2028? “Não pretendo nem despretendo”
Questionado pelo Acorda Cidade sobre uma possível candidatura em 2028, Zé Neto não confirmou intenção de disputar novamente a Prefeitura de Feira, mas também não descartou a possibilidade.
“Eu não pretendo, nem despretendo. Mas eu estou no jogo político do campo que a gente tem. Eu tive 50 mil votos, quase 60 mil votos (em Feira). O candidato do prefeito (José Ronaldo) teve 35. Então, é pra jogar fora os votos? Não, ao contrário, a gente está agregando.”
Antes de 2028, Lula
Apesar das especulações sobre o futuro, Zé Neto afirma que sua prioridade imediata está longe de ser uma nova candidatura municipal. O primeiro objetivo, segundo ele, é a campanha presidencial de Lula no segundo turno.
Já mudamos a chave, agora a campanha de Lula, vamos todo mundo trabalhar pra que Lula seja presidente. Não é uma eleição só de um candidato ou outro, é uma eleição que a gente vai escolher se a gente quer soberania ou se a gente quer submissão. Votar no candidato da extrema-direita é votar na submissão. As pessoas criaram um antilulismo aí, um antipetismo que não tem sentido. Aqui em Feira, por exemplo, quem mais dialoga com todo mundo somos nós. Meu plano político é primeiro ganhar a eleição com Lula. Daí em diante a gente vai parar com calma pra conversar o que é que tem de perspectiva. Mas é sempre está na política.”
Sem mandato, mas não fora do jogo
Primeiro suplente, Zé Neto ainda pode retornar à Câmara caso algum deputado eleito deixe o cargo para assumir outra função. Ele também afirmou que poderá retomar a advocacia e atuar em outras áreas enquanto define os próximos passos.
“É óbvio que eu tenho duas filhas para criar, tenho que pagar as contas. Eu tenho o meu trabalho, eu posso voltar para minha advocacia. Uma coisa que nunca me faltou foi disposição. Mas também tem a opção de subir, porque eu sou o primeiro suplente, sempre acontece de chamar alguém para secretariado, para ministério.”
Ao Acorda Cidade, o deputado também reforçou a relação com Feira e garantiu que a ausência de mandato não deve afastá-lo da cidade onde construiu sua carreira.
Eu não vou deixar de trabalhar por minha cidade, eu amo minha cidade, eu me dedico à minha cidade. Com mandato ou sem mandato eu vou estar aqui trabalhando por ela.”
Aos 62 anos, depois de sete mandatos (um como vereador, quatro como deputado estadual e dois como deputado federal) e de uma votação que novamente o colocou entre os nomes de maior expressão eleitoral em Feira, Zé Neto deixa Brasília, por enquanto, mas não sinaliza uma retirada do tabuleiro político que já estava para lá de acostumado.

Agora é avaliar onde a gente podia ter feito diferente. Mesmo fazendo o nosso melhor, tinha coisas que talvez, se a gente fizesse diferente, pode nos ensinar em outros momentos. Então, tudo eu entrego a Deus. Sempre me preparo para as dificuldades, sempre me preparo para ganhar ou perder, como minha mãe sempre me ensinou, Dona Zizi, mas estou de cabeça erguida e agradecendo à minha cidade de coração esses quase 60 mil votos, que é uma votação muitíssimo expressiva. Eu tive quase 105 mil votos e isso não é qualquer um, eu estou na primeira suplência.”
Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade.
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