10 de October de 2026
Foto: Carlos Augusto

Feira de Santana amanheceu de luto neste sábado (10) com a morte do radialista e cronista esportivo Jair Cesarinho, um dos nomes mais marcantes da história do rádio feirense. Conhecido pela voz inconfundível, pelos bordões que conquistaram os ouvintes e pela paixão pelo esporte, ele construiu uma trajetória que atravessou gerações e deixou sua marca na comunicação da Bahia.

A notícia da morte provocou manifestações de pesar entre colegas, amigos e ouvintes, que lembraram não apenas o profissional, mas também o homem de convivência generosa, responsável por abrir portas para outros comunicadores e participar de momentos históricos do rádio. Ao longo da carreira, Jair passou por emissoras como Rádio Cultura, Rádio Fundação, Rádio Sociedade e Princesa FM, além de atuar em coberturas esportivas, políticas e culturais.

O radialista também esteve à frente de grandes jornadas de transmissão de futebol, acompanhou Copas do Mundo e participou da cobertura de eleições, carnavais e micaretas. Sua atuação ajudou a consolidar seu nome entre as referências da crônica esportiva, especialmente pelo trabalho dedicado ao futebol e ao Fluminense de Feira.

Jair Cesarinho
Jair Cesarinho | Foto: Arquivo Pessoal

Uma voz que permanece na memória

O repórter do Acorda Cidade Ney Silva guarda uma lembrança particular da relação com Jair: foi ele quem sugeriu o nome profissional pelo qual ficou conhecido. Quando começou no rádio, em janeiro de 1985, Ney ainda utilizava o próprio nome, João da Silva Bezerra.

Meses depois, Jair assumiu a direção da Rádio Cultura, a convite do então deputado Oscar Marques, e chamou Ney para trabalhar na emissora. Foi nessa época que sugeriu a mudança de nome, por considerar que Ney Silva funcionaria melhor no rádio.

Décadas depois, o repórter recorda não apenas o gesto, mas a convivência com alguém que mantinha uma boa relação com os colegas e estava sempre disposto a conversar.

Ney silva
Foto: Ney Silva/Arquivo Pessoal

Jair era uma pessoa muito atenciosa. Até o ano passado, quando a doença não ainda o acometia, ele viajava com a gente, participava de coberturas e reportagens com o governador. Todos os colegas que você ouvir, vão dizer a mesma coisa, que a relação com o Jair sempre foi uma relação boa. Nunca vi Jair brigar com ninguém, Jair é assim. Tem o jeitão dele, mas uma pessoa de ótimo diálogo”, relembrou.

Criativo nato, Jair também foi o criador do apelido do governador do estado, Jerônimo Rodrigues, quando passou a chamar o político de “Jero”. O termo fez e faz tanto sucesso, que virou marca de campanha do próprio governador.

Jair Cesarinho
Jair Cesarinho | Foto: Reprodução/Redes Sociais

A contribuição de Jair para a carreira de outros profissionais também marcou a trajetória de Paulo José, radialista que trabalhou com ele na Rádio Cultura e, posteriormente, na Rádio Carioca, atual Rádio Povo. Na época, Paulo atuava como setorista do Fluminense de Feira.

E sou muito grato a Jair dos Santos Cesarinho pela oportunidade que ele me deu, nunca esqueço. Jair Cesarinho foi um grande comunicador do rádio, principalmente na área esportiva, um cara internacionalmente conhecido, fez quatro Copas do Mundo pela Rádio Sociedade de Feira de Santana.”

Paulo, que também é conhecido entre os ouvintes pelo quadro Pauta Livre do Programa Acorda Cidade, destacou o papel de conselheiro que Jair exerceu em sua vida profissional. “Jair era meu conselheiro. Jair, ele via no passado, o que o futuro apresentava no rádio.”

Jair Cesarinho | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O bordão, Pelé e uma viagem que virou história

Quem acompanhou Jair no rádio certamente guarda alguma lembrança de seu jeito irreverente. O radialista Dílson Barbosa, do programa Bom Dia Feira, da Princesa FM, compartilhou com o Acorda Cidade um dos bordões que marcaram a trajetória do colega.

“O Jair dizia: “Se o rádio fosse inventado depois da televisão, as crianças iriam falando ‘mamãe, mamãe, inventaram uma TV sem imagem’”. Realmente o Jair era isso.”

Mas a história de Jair também foi feita de grandes coberturas. Ele trabalhou por mais de duas décadas na Rádio Sociedade, participou de jornadas internacionais e acompanhou acontecimentos que entraram para a memória esportiva de Feira de Santana.

Um deles foi a visita de Pelé à cidade, em 1975, para um amistoso entre Santos e Fluminense de Feira, no estádio Joia da Princesa. Jair esteve entre os jornalistas que acompanharam a passagem do Rei do Futebol e teve a oportunidade de entrevistá-lo.

radialista Dilson Barbosa
Foto: Reprodução

“O Jair foi o único repórter que entrevistou Pelé quando esteve em Feira de Santana em 1985. O Pelé veio, nós éramos dirigentes do Fluminense, contribuímos com a vinda do Rei do Futebol, mas naquele dia foi o Jair Cesarinho que fez a festa transmitindo direto do gramado os detalhes da vinda do Rei”, recordou Dílson.

Em conversa com o Acorda Cidade, Dílson também resgatou uma aventura vivida durante uma viagem à Europa para a transmissão de um jogo da seleção brasileira. Enquanto a equipe se preparava em Londres, Jair deveria chegar à capital inglesa, mas acabou desembarcando por engano em Estugarda, na Alemanha.

Na época, sem telefone celular ou os recursos de comunicação atuais, os colegas passaram dias sem conseguir entender o que havia acontecido. Dílson chegou a organizar uma alternativa para levar Jair ao estádio de Wembley, mas o radialista não apareceu a tempo da partida. A explicação só veio depois: ele havia confundido o destino durante a conexão e ficou retido na Alemanha até conseguir seguir viagem.

Referência do rádio

A repercussão da morte também chegou a profissionais de outras áreas da comunicação. O jornalista Cristiano Alves, que trabalhou com Jair na Rádio Sociedade e no site Encontro Já, destacou a lacuna deixada pelo radialista.

Um dos ícones do rádio baiano. Com certeza, fica essa lacuna aí no rádio, rádio que esse ano perdeu nomes como Jota Vieira, Itajair Pedra Branca; a comunicação de modo geral perdeu outros nomes e que, infelizmente, agora sofre aí com a partida do companheiro Jair Cesarinho. Meus profundos sentimentos para familiares e meus companheiros que estão tristes com a partida do locutor emoção da galera, Jair Cesarinho”, declarou Cristiano.

O frade Jorge Rocha, ex-superintendente da Rádio Sociedade, que conhecia Jair desde o período em que foi aspirante em Feira de Santana, também prestou homenagem ao amigo. Ele recordou a vinheta vibrante do radialista e a presença que permaneceu em sua memória afetiva.

Missa de quarta-feira de cinzas
Frei Jorge Rocha | Foto: Paulo José/Acorda Cidade

Jair Cesarinho é um comunicador que marca a história da nossa rádio e da comunicação na Bahia. Sua voz ultrapassa os microfones: cria vínculos, desperta sentimentos e se torna companhia na vida de quem o escuta. A voz de um comunicador nunca se cala por inteiro. Permanece na memória dos ouvintes, integra a nossa história e continua a ecoar em outros cantos. Porque quem comunica com o coração deixa mais do que palavras: deixa uma presença que o tempo não apaga.”

Em nome da Fundação Santo Antônio dos Frades Capuchinhos e das emissoras da Rede de Rádio Comunicação, o radialista Beto Moreno, coordenador das rádios Princesa e Sociedade News, manifestou solidariedade à família e agradeceu pelos momentos de convivência e aprendizado ao lado de Jair.

O Sindicato dos Radialistas da Bahia também lamentou a morte. Almir Melo, em nome da entidade, da diretoria e do presidente Luciano Tapajós de Araújo, destacou a participação de Jair nas ações da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), instituição que representou durante anos.

“Vimos aqui dar os nossos sentimentos para a família e dizer que Jair nunca vai sair dos nossos corações pelo homem de fibra, garra que ele tinha, participativo, que compartilhava com todos as ações da ABI pela qual ele representou aqui durante muitos anos. Fique com Deus, Jair”, declarou Almir.

Filho de Alfredo Cesarinho, ex-jogador que marcou o primeiro gol profissional do Fluminense de Feira, em 1954, Jair construiu uma trajetória que uniu a paixão pelo futebol à capacidade de comunicar. Recebeu homenagens por sua contribuição à região e ajudou a formar profissionais que hoje também fazem parte da história do rádio e da comunicação da Bahia.

O velório será a partir das 12h deste sábado (10),na Pax Bahia, localizada na Avenida Centenário, nº 291, bairro SIM, em Feira de Santana. O sepultamento ocorrerá neste domingo (11), com saída às 15h, no Cemitério Piedade, situado na Praça da Piedade, no bairro Calumbi.

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