14 de October de 2026
Confúcio e a importância de agir antes de falar
Foto: Wikimedia Commons

Entre os anos 551 a.C, e 479 a.C., viveu na China um homem chamado Ch’iu, que mais tarde o mundo passou a conhecer como Confúcio. Seus ensinamentos moldaram a sociedade chinesa e seguem influenciando religiões orientais até os dias de hoje.

Professor, conselheiro político e administrador, ele defendeu a harmonia social, a justiça. E a benevolência como pilares de uma vida bem vivida, conforme explica à BBC News Brasil o professor Belmiro do Nascimento João, e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Para muitos estudiosos, trata-se menos de uma religião tradicional e mais de uma filosofia prática, construída sobre educação e conduta ética.

Cinco princípios guiam a doutrina

Foto: Alix Lee/Pexels

A base do pensamento confucionista, segundo Nascimento João, está apoiada em cinco conceitos centrais: ren, li, xiao, zhong e shu. Eles podem ser traduzidos, respectivamente, como benevolência, rito, piedade filial, lealdade e reciprocidade, e juntos formam uma espécie de código de conduta para a vida em sociedade.

O ren funciona como o núcleo de tudo: bondade, humanidade e virtude aplicadas às relações entre as pessoas. Já o li trata das normas sociais e comportamentais necessárias à harmonia coletiva, abrangendo desde rituais religiosos até regras simples de etiqueta no cotidiano.

Pontos-chave sobre Confúcio e o confucionismo
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Confúcio (Ch’iu) viveu entre 551 a.C. e 479 a.C. e influenciou a sociedade chinesa e religiões orientais.
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O confucionismo é visto por muitos como filosofia prática baseada em educação e conduta ética, não estritamente religião.
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Cinco conceitos centrais orientam a doutrina: ren, li, xiao, zhong e shu, traduzidos como benevolência, rito, piedade filial, lealdade e reciprocidade.
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O ren é considerado o núcleo do pensamento confucionista, relacionado à bondade e às relações humanas; há debate sobre sua tradução.
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Li abrange normas sociais e comportamentais que promovem harmonia, desde rituais até etiqueta cotidiana.
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Piedade filial e respeito aos mais velhos e à hierarquia familiar são traços centrais que explicam a continuidade dos ensinamentos na China contemporânea.

Respeito aos mais velhos e lealdade

A piedade filial representa o respeito e a obediência devidos aos pais e aos ancestrais, já que a autoridade familiar ocupa lugar central na tradição confucionista. O zhong, por sua vez, diz respeito à fidelidade ao governante e aos princípios morais que sustentam a ordem social.

Fechando o conjunto, o shu propõe tratar o próximo da mesma forma como se gostaria de ser tratado, uma regra de reciprocidade que atravessa séculos. Juntos, esses cinco pilares sustentam valores como justiça, sabedoria, confiança, coragem, honestidade e respeito, segundo o professor da PUC-SP.

Uma tradução que gera debate

Membro da International Confucian Association (ICA). Da China, e professor na Associação Sunbin de Wushu e Cultura Chinesa, em São Paulo, o sinólogo Rogerio Fernandes de Macedo também já atuou no Instituto Confúcio da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para ele, o cerne do confucionismo está apoiado justamente no ren.

Macedo questiona a tradução mais comum do termo como “benevolência”, que considera marcada por uma leitura influenciada pelo cristianismo. Ele cita o filósofo Antonio Florentino Neto, da Unicamp, que prefere chamar o conceito de “interrelacional”, uma forma de captar melhor a ideia original de Confúcio sobre as relações humanas.

Cooperação como chave de leitura

Como alternativa, o sinólogo sugere o termo cooperação, hoje bastante usado para descrever as relações econômicas entre a China e outros países. Na visão dele, o significado de ren para a cultura chinesa remete a um tratamento recíproco e mútuo, sem espaço para vantagem de um lado sobre o outro.

Todos os demais conceitos confucionistas derivam dessa ideia central de reciprocidade. Valores como cooperação, justiça, etiqueta, sabedoria, confiança e honestidade formam um sistema coerente que, segundo Macedo, se aproxima da própria noção moderna de diplomacia e conduta cívica.

Respeito como traço marcante

Macedo chama atenção para o termo que costuma ser traduzido como “piedade filial” ou “respeito aos mais velhos”,  e reforça que essa tradução também carrega marcas da influência cristã nas interpretações ocidentais do confucionismo. Ainda assim, o respeito pela hierarquia familiar e pela experiência dos mais velhos permanece como um traço central da tradição chinesa.

Essa valorização da experiência acumulada ao longo da vida ajuda a explicar por que os ensinamentos de Confúcio seguem sendo lidos e discutidos na China contemporânea. Os princípios continuam servindo de referência para pensar relações sociais, políticas e econômicas no país desde sua formulação.