16 de October de 2026
Lugar na Terra tem rochas parecidas com as da Lua
Foto: Divulgação/NASA

Em meio à paisagem seca do sul de Madagascar, destaca-se um conjunto de rochas de tom claro cuja composição lembra a das áreas mais iluminadas da superfície lunar. A formação, conhecida como maciço de Saririaky, apareceu em uma fotografia capturada por um astronauta que estava a bordo da Estação Espacial Internacional.

A imagem foi obtida no dia 28 de agosto, no contexto da Expedição 75, e teve divulgação posterior pelo Observatório da Terra, serviço da NASA. Pesquisas geológicas apontam que o processo responsável pelo surgimento dessa formação remonta a, no mínimo, 600 milhões de anos.

Uma rocha que conecta dois mundos

Foto: Divulgação/NASA

A rocha ígnea que domina o maciço é o anortosito, também comum nas terras altas lunares. Quando observada do espaço, a coloração clara da formação se destaca porque difere das rochas vizinhas, o que torna o local fácil de identificar em imagens orbitais.

A área exposta ocupa aproximadamente 100 quilômetros quadrados desse trecho do território malgaxe. Depósitos parecidos existem também no leste do Canadá, na Escandinávia e no sul da Índia, embora Madagascar concentre um dos exemplos mais estudados pela geologia.

Como esse tipo de rocha se forma

A anortosita se forma quando material rochoso derretido esfria lentamente abaixo da superfície, permitindo o desenvolvimento de cristais relativamente grandes. Esse resfriamento lento diferencia a rocha intrusiva de formações vulcânicas que se resfriam mais rapidamente.

Um oceano de magma cobria praticamente toda a superfície lunar há 4 bilhões de anos. Nesse período, certos minerais começaram a se cristalizar e a se acumular nas camadas mais externas do satélite. A acumulação desses minerais formou boa parte da crosta primitiva que hoje compõe as áreas claras visíveis da Terra.

A reconstrução da história geológica do satélite só foi possível graças às amostras trazidas pelas missões Apollo, que permitiram à ciência examinar de perto a composição mineral lunar. Depósitos terrestres de anortosito, como o das montanhas Beartooth, em Montana, nos Estados Unidos, ajudam a ampliar essa pesquisa, já que a quantidade de material lunar disponível é limitada.

Linha do tempo
Linha do tempo das formações rochosas
4 bilhões de anos
Um oceano de magma cobria praticamente toda a superfície lunar
Há 600 milhões de anos (no mínimo)
Processo responsável pelo surgimento da formação do maciço de Saririaky remonta a, no mínimo, 600 milhões de anos
Formação de Gondwana (período associado às antigas colisões
Aproximação e colisão de massas continentais geraram pressões e temperaturas capazes de remodelar extensas porções da crosta terrestre, associadas à formação de Gondwana
Ações tectônicas que podem ter estirado e rompido o bloco ro
Proposta de que outro maciço de anortosito, situado a cerca de 60 quilômetros ao norte de Saririaky, pode ter integrado uma única estrutura rochosa no passado, fragmentada por boudinagem
28 de agosto (durante a Expedição 75)
Fotografia do maciço de Saririaky foi capturada por um astronauta a bordo da Estação Espacial Internacional
Posterior à captura da imagem
A imagem teve divulgação pelo Observatório da Terra, serviço da NASA

Marcas de um antigo supercontinente

Geólogos classificam como zona de cisalhamento dúctil a região onde está o maciço de Saririaky. Nesse ambiente, as rochas se dobram e se esticam sob temperatura e pressão elevadas, em vez de simplesmente se romperem. Esse comportamento plástico da rocha está ligado ao metamorfismo, conjunto de mudanças físicas e químicas que ocorrem sem que o material chegue a derreter.

Estudos geológicos mapearam estruturas orientadas de norte a sul nas rochas da região. Elas registram antigas colisões entre massas continentais, associadas à formação de Gondwana, supercontinente que reuniu territórios da África, Índia, Madagascar, Austrália e Antártida.

A aproximação e colisão de massas continentais geraram pressões e temperaturas capazes de remodelar extensas porções da crosta terrestre. Pesquisadores propõem que outro maciço de anortosito, situado a cerca de 60 quilômetros ao norte de Saririaky, pode ter integrado uma única estrutura rochosa no passado.

A hipótese é de que a ação de forças tectônicas tenha estirado o bloco rochoso original até rompê-lo em diferentes partes, num processo chamado de boudinagem. Esse processo ocorre quando uma camada rochosa de maior resistência acaba fragmentada em pedaços alongados, à medida que o material em volta se deforma.

Se essa interpretação estiver correta, as duas formações preservam vestígios das forças envolvidas na reorganização dos continentes durante a formação de Gondwana.