
Nos últimos dias, moradores da região Lagoa Salgada, nas proximidades da Avenida Nóide Cerqueira, em Feira de Santana, vivenciaram momentos de preocupação devido a um incêndio de grandes proporções que se alastrou pela área. A queima da vegetação seca, situada acima de um lençol de água misturado com lama, gerou uma grande quantidade de fumaça, gerando incômodo e riscos de doenças respiratórias.
Devido à dificuldade de acesso ao terreno, prepostos do Corpo de Bombeiros não conseguiram alcançar todos os focos do incêndio.
Em entrevista ao portal Acorda Cidade, o subtenente do 2º Grupo de Bombeiros Militares (GBM), Josafá Santos, que também é chefe do setor de treinamento e instrução do órgão, informou que o chamado para controlar o incêndio na Lagoa Salgada chegou por volta das 20h, e as equipes permaneceram monitorando as chamas até retrocederem.

“Por volta de 1 hora da manhã, nossa equipe foi acionada novamente, retornamos ao local, realizamos o monitoramento, porém o que acontece ali na Lagoa Salgada é algo recorrente durante todos os anos. Ali a principal dificuldade é o acesso, é um local de charco, onde as equipes não têm como adentrar, a depender de onde esse fogo esteja localizado, que foi o que aconteceu na última semana. Mas o tempo todo estávamos presentes no local, aquilo que foi possível fazer, fizemos, e graças a Deus hoje encontra-se tudo controlado naquela região.”
O bombeiro militar explicou por que locais como o da Lagoa Salgada, que também são chamados de taboa podem pegar fogo. Ele disse que geralmente nessas áreas costuma se formar uma vegetação antiga e seca na superfície do terreno, mas por baixo existe um lençol de água.
“Ali com o passar do tempo e as altas temperaturas, acontece o fenômeno que a gente chama de alta ignição, que é o que a gente percebe que tem ocorrido ali naquela lagoa, de algumas situações, que não é o fogo proposital, colocado, mas é algo para se investigar, pois tem sido algo recorrente aqui em nossa cidade, esse incêndio na Lagoa Salgada.”
Segundo ele, a fumaça densa que se espalhou pela área foi ocasionada justamente pela queima lenta da vegetação.
“É um acúmulo muito grande de vegetação, que está compactada e com uma queima lenta. A folhagem, ela está seca, porém acumulada, e tem a situação de uma queima lenta, o que justamente propicia essa grande quantidade de fumaça. Traz um incômodo muito grande, e infelizmente agora é monitorar. Não tem jeito, a fumaça vai permanecer por algum período, tanto é que permaneceu por um período, e logo depois ela foi dissipada.”
Aumento das queimadas
O aumento das queimadas em áreas de vegetação é algo preocupa não só moradores e comerciantes dos locais afetados, como também as autoridades. A fumaça proveniente das chamas oferece riscos à saúde respiratória, prejudica o habitat natural de diversos tipos de animais, e há ainda a possibilidade de alastramento para os espaços residenciais.
O subtenente Josafá Santos alertou que, somente em Feira de Santana, de janeiro a julho, foram registrados 226 incêndios, com uma média de 32 ocorrências desse tipo por mês.
“Só nos meses de agosto e setembro, nós tivemos 90 incêndios, o que significa uma média de 35% de aumento com relação à média de janeiro a julho, totalizando até o fim de setembro 316 ocorrências, sendo que desse total, cerca de 70% dos incêndios são em vegetação.
Segundo o subtenente, com o aumento das temperaturas, o calor intenso e a baixa umidade do ar favorecem a propagação do fogo.
“Nos meses de agosto e setembro é o pós-inverno, apesar de nós não termos tido um inverno com rigor na nossa região, mas geralmente são épocas de chuva até julho, agosto no máximo. A partir de agosto, setembro, próximo do verão, que será em dezembro, a vegetação que antes estava verde, ela começa a ficar seca, em virtude também da grande quantidade de terrenos baldios que nós temos na região, na cidade.”
Ele destacou que a chegada do El Niño também tem contribuído para a alta incidência de focos de incêndio em áreas de vegetação.
“Nós não estamos ainda no verão e as temperaturas já estão da forma que estão. Há uma possibilidade de aumentar ainda mais, e como a gente ainda tem muita área por ser queimada na nossa região, com relação à vegetação seca, a probabilidade é que tenhamos aumento.”
Principais causas das queimadas
O subtenente do 2º GBM verifica que muitas queimadas são provocadas por ação do ser humano, a exemplo da queima de lixo e outros materiais em terrenos baldios, uma prática que para muitos parece ser inofensiva, porém traz diversos males ao meio ambiente.
“Muitas pessoas limpam um terreno baldio, ao invés de realizar a capinagem do terreno, e acabam colocando fogo nesse local. Também a situação de lixo, temos muita gente ainda que coloca folhagens, faz a limpeza do terreno, acumula folhas, coloca fogo, muitas vezes até em lixo, e aí a gente percebe que isso foge do controle, e é onde aumenta a incidência de incêndio e vegetação em nossa cidade.”
Crime ambiental
Muitas pessoas ainda desconhecem que queimar lixo ou vegetação em área urbana configura crime ambiental, com leis que preveem punições severas para quem pratica, até mesmo reclusão. Veja quais são:
– Lei Federal 9.605 de Crimes Ambientais, artigo 41: diz que é crime provocar incêndio em mata ou floresta, com reclusão de 2 a 4 anos;
– Artigo 54 da Lei 9.605 de Crimes Ambientais: proíbe causar poluição de qualquer natureza, seja queimar lixo, folhas, vegetação, também com reclusão de 1 a 4 anos;
– Decreto Estadual 15.180 de 2014: proíbe o uso de fogo e queima em qualquer tipo de vegetação sem autorização dos órgãos ambientais;
– Lei Municipal Complementar 120 de 2018, do Código de Meio Ambiente: proíbe o emprego de fogo nas diversas formas de vegetação.
Desafios no combate aos incêndios
De acordo com o subtenente do Corpo de Bombeiros o órgão muitas vezes encontra dificuldades para debelar focos de incêndios em terrenos particulares murados, que são deixados de lado por seus proprietários. Outro desafio relatado por Josafá Santos são as grandes áreas.
“Principalmente quando à noite é um risco maior para os integrantes do Corpo de Bombeiros, porque em nossa região nós temos, em algumas situações de pastos, o uso de cisternas antigas abandonadas, situações também de valas, buracos, que impossibilitam e nos traz uma insegurança na atuação contra esses incêndios em combate à vegetação.”
Somente na segunda-feira (19), o Corpo de Bombeiros precisou se deslocar para debelar seis incêndios em vegetação. O tema exige conscientização por parte da sociedade, sobretudo em lugares com forte presença de condomínios localizados ao lado de grandes áreas sem construções, que são comumente utilizadas para o descarte irregular de lixo e materiais inservíveis.
“A gente orienta a não colocar fogo de forma alguma em qualquer tipo de vegetação, lixo, folhagens. Uma outra situação, pessoal de condomínio, onde geralmente têm um muro e ao lado tem um terreno também vasto, ainda por ser construído, com muita vegetação. Solicitamos ao pessoal de condomínios, aos síndicos, para verificar com os proprietários desses terrenos a limpeza próxima ao muro, com o intuito de termos menos possibilidade desses incêndios. Uma vez que aconteçam, podem chegar até próximo das residências, trazendo a possibilidade também de queima de patrimônio urbano, no caso de residências e fábricas.”
Atualmente o Corpo de Bombeiros atua com apenas três equipes, atendendo não só a situações de incêndio florestal, mas também todos os outros tipos de ocorrências.
Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade.
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