
Cerca de 500 mil pessoas vivem em áreas de risco geológico sobre uma caldeira vulcânica a oeste de Nápoles, na Itália. Campi Flegrei nunca registrou um ritmo de deformação e tremores como o observado nos últimos anos, segundo um novo levantamento sobre a região.
Pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul projetam um possível ponto de ruptura do sistema vulcânico para 2034. Os próprios autores reconhecem que os dados reunidos até agora não permitem determinar o que ocorreria depois desse limite.
Com 15 quilômetros de diâmetro, a estrutura ainda não teve o estudo avaliado por outros cientistas em revista especializada. O material circula apenas na plataforma arXiv, de pré-publicações. Mesmo sem revisão independente, os dados registram mudanças rápidas sob a caldeira.
Uma história de 40 mil anos sob o solo

Uma explosão vulcânica de grandes proporções formou a caldeira há cerca de 40 mil anos. Outras erupções, menores, remodelaram a região ao longo dos milênios seguintes e deixaram marcas ainda visíveis.
Em 1528, um desses episódios criou o Monte Nuovo, cone vulcânico que atualmente mede 132 metros de altura. Tremores constantes e elevação do solo marcaram o período entre 1950 e 1980, deixando a crosta da região mais vulnerável a novas pressões internas.
O terreno que não para de subir
Desde 2005, o fundo da caldeira já subiu 1,4 metro, um movimento ligado à circulação de gases abaixo da superfície vulcânica. Em 2024, o solo passou a subir 1,5 centímetro por mês, segundo dados coletados na área.
No mesmo período, a região enfrentou mais de mil terremotos em apenas um mês, com dois registros atingindo magnitude 4,0 e 4,2. Para os autores da pesquisa, o que preocupa não é só o aumento da atividade sísmica, mas a velocidade crescente desse próprio aumento.
Dois cenários possíveis para o vulcão
Um modelo físico construído pela equipe distingue dois comportamentos típicos de sistemas vulcânicos sob pressão. Em um deles, a atividade cresce de forma previsível; no outro, chamado singularidade de tempo finito, a própria velocidade de crescimento se intensifica sem limite aparente.
Davide Zaccagnino, primeiro autor do trabalho e pesquisador de pós-doutorado em riscos geológicos na Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul, em Guangdong, China, afirmou ao Live Science que o modelo aplicado a Campi Flegrei se encaixa no segundo cenário, mais imprevisível.
Na entrevista, ele destacou que é possível estimar o momento do ponto de ruptura, mas não o que vem depois dele com os dados disponíveis.
Por que a resistência da crosta importa
A capacidade da crosta terrestre de suportar a pressão acumulada dentro da caldeira pesa mais, segundo o pesquisador, do que o simples crescimento da atividade vulcânica isolada. Romper esse limite estrutural tende a provocar alguma mudança perceptível no sistema.
Christopher Kilburn, vulcanólogo do University College London que não participou do estudo, disse ao Live Science que cada episódio de instabilidade anterior ajuda a entender a condição atual do vulcão.
Segundo ele, a crosta se estica um pouco mais a cada nova emergência, e isso faz com que as crises seguintes se somem às anteriores, deixando o sistema mais frágil a cada ciclo.
Kilburn ponderou ainda, na mesma entrevista, que o comportamento do vulcão vem se transformando, o que reduz o valor do histórico passado como referência confiável para o que pode acontecer agora.
O que pode acontecer após o ponto de ruptura
A transição estimada entre 2030 e 2034 pode terminar em erupção, mas também pode resultar em outro tipo de rearranjo geológico que apenas altere o padrão de atividade do vulcão. Nenhum dos cenários permite calcular, por ora, a intensidade de um eventual evento eruptivo.
Quando a aceleração não leva a uma erupção
A intensidade dos sinais observados em Campi Flegrei não permite afirmar que haverá uma erupção entre 2030 e 2034. O “ponto de ruptura” estimado pelos pesquisadores indica que o sistema deve passar por uma mudança significativa, mas não define seu resultado: o magma pode não chegar à superfície.
Christopher Kilburn, vulcanólogo que analisou o trabalho, alertou que o comportamento do vulcão está mudando, o que torna o histórico passado menos confiável para prever o futuro.