
Quem caminha por Istambul encontra gatos espalhados por toda parte: esparramados tranquilamente na entrada de comércios, acomodados em cadeiras de restaurantes ou acompanhando o movimento das ruas de cima de janelas e telhados.
Dividida entre Europa e Ásia, a metrópole turca é hoje associada justamente a essa proximidade entre seus moradores e os bichos que vivem soltos pelas ruas. A prefeitura local estima em mais de 160 mil o total de gatos que circulam livremente pela cidade.
Por se tratar de uma população que não tem dono nem controle fixo, não há como cravar esse número com exatidão, ainda assim, ele dá uma ideia do motivo pelo qual os felinos acabaram virando um símbolo da cidade.
Rotina das cidades pensadas para os gatos
Em muitas metrópoles do mundo, um gato vivendo na rua é automaticamente associado ao abandono e à negligência. Em Istambul, porém, esses animais fazem parte de uma estrutura comunitária pensada.
Um morador alimenta, outro oferece água, um terceiro leva ao veterinário e um quarto fornece um abrigo, não há um único responsável porque o cuidado é compartilhado entre vizinhos e comerciantes.
Essa prática vem de tradições do Império Otomano, quando alimentar animais de rua era parte da caridade cotidiana. Por isso, um gato solto na rua em Istambul não é sinônimo de abandono, mas de inclusão na vida do bairro.
Bebedouros, comedouros e pequenos abrigos aparecem espalhados por diferentes pontos da cidade. Comerciantes costumam alimentar os animais que ficam perto de seus negócios, enquanto moradores deixam água e comida direto nas calçadas.
Essa estrutura não surgiu por acaso: vem de um costume antigo, enraizado na cultura local. Pessoas da região adotam informalmente os bichos que aparecem por perto, protegendo-os do tempo ruim e de outros animais, e até estabelecimentos privados entram nessa rede de cuidado.
Atendimento veterinário em larga escala
A prefeitura mantém uma estrutura veterinária voltada a animais sem tutor fixo. Entre os serviços realizados até o fim de setembro de 2026, o município contabilizou mais de 31 mil castrações, somadas a um total de atendimentos e tratamentos que ultrapassa 130 mil.
Os serviços incluem vacinação, castração, identificação, registro e cuidado com animais feridos. Depois de passar por esses procedimentos, quem não é adotado volta para a região onde vivia antes.
Esse modelo diferencia Istambul de boa parte das cidades do mundo, onde um bicho solto na rua costuma ser associado ao abandono. Ali, mesmo com desafios ligados à população sem tutor, muitos parecem pertencer à própria vizinhança.
Pela cidade aparecem exemplares de quase todas as cores e padrões possíveis: pretos, brancos, amarelos, rajados e tricolores. Alguns têm pelo longo e exuberante, outros exibem pelagem curta e lisa, e há ainda olhos azuis ou verdes espalhados pelas ruas.
A Turquia é conhecida por duas raças próprias: o Angorá Turco e o Van Turco. Essa mistura toda é resultado de séculos de circulação constante de animais pela região, o que formou uma população bastante diversa geneticamente.