
A primeira-dama de Jequié, no sudoeste da Bahia, Mariana de Freitas Oliva, compartilhou nas redes sociais, na noite de domingo (25), um texto que associa eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a “pessoas que não querem trabalhar”, “maconheiros” e “cheiradores”. A publicação ocorreu após a vitória de Lula no segundo turno das eleições presidenciais.
Mariana também é secretária municipal de Saúde e esposa do prefeito Flavinho Santana (União Brasil), que assumiu a prefeitura em abril deste ano, após a renúncia de Zé Cocá (PP), que deixou o cargo para disputar a vice-governadoria da Bahia na chapa de ACM Neto (União Brasil). Flavinho declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL).
O texto foi publicado originalmente por João Menna, que trabalha com posicionamento e imagem. Além de atacar eleitores de Lula, a mensagem classificou o domingo como um dia triste para o país e afirmou que todos os brasileiros “pagarão a conta”.
Em Jequié, Lula recebeu 64,87% dos votos no segundo turno, contra 35,13% de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, os candidatos haviam obtido 58,86% e 34,70%, respectivamente.
Após a repercussão, Mariana divulgou uma nota nesta segunda-feira (26), na qual pediu desculpas, reconheceu o erro e afirmou que não teve intenção de magoar ou desrespeitar ninguém. A Prefeitura de Jequié informou que não se manifestará institucionalmente, pois a publicação não foi feita em canais oficiais do município.
Sindicato repudia publicação
O Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Jequié (Sinserv-Jequié) divulgou uma nota de repúdio às declarações, consideradas pela entidade generalizações ofensivas contra artistas, estudantes, trabalhadores e pessoas com posicionamentos políticos diferentes.
O sindicato ressaltou a contribuição dos artistas para a cultura e a economia e destacou a importância dos estudantes para a produção de conhecimento e as transformações sociais. Também afirmou que a liberdade de expressão não deve ser usada para disseminar preconceitos ou desqualificar pessoas por suas escolhas políticas.
“Discordar é legítimo. Desrespeitar não pode ser naturalizado”, declarou a entidade, que manifestou solidariedade aos grupos atingidos e defendeu o respeito à pluralidade de ideias.
No domingo, o prefeito Flavinho Santana também comentou o resultado eleitoral nas redes sociais. Ele disse estar triste com a escolha da maioria, mas afirmou reconhecer a decisão democrática.
“Pra mim uma noite triste. O Brasil e a Bahia terão o presidente e o governador que a maioria escolheu. Eu escolhi diferente da maioria nos dois casos. Mas a democracia é saber que um lado iria vencer e seja ele qual fosse todos teríamos de aceitar”, escreveu.
Confira abaixo a nota da primeira-dama e a manifestação do Sinserv-Jequié na íntegra.
Confira nota da primeira-dama na íntegra:
“Venho, com humildade e o coração sincero, pedir desculpas por ter compartilhado uma mensagem sem antes ler atentamente todo o seu conteúdo. Reconheço que foi uma atitude equivocada e assumo a responsabilidade pelo ocorrido.
Jamais tive a intenção de magoar, constranger ou desrespeitar quem quer que seja. Entendo, porém, que nossas atitudes podem tocar as pessoas de maneiras que nem sempre imaginamos e que reconhecer um erro, ouvir e pedir desculpas também são gestos de respeito e humanidade.
Reafirmo meu carinho e respeito por todos e lamento sinceramente pelo ocorrido. Que possamos transformar esse momento em aprendizado, seguindo em frente com mais atenção, empatia e respeito ao próximo”.
Confira a nota de repúdio do Sinserv:
“Contra declarações preconceituosas e ofensivas à classe artística, aos estudantes, aos trabalhadores e ao povo brasileiro, feitas pela Primeira dama do município de Jequié, Mariana Freitas Oliva
O Sinserv vem a público manifestar total repúdio às declarações divulgadas nas redes sociais pelo perfil da Primeira dama do Município de Jequié Mariana Freitas Oliva, nas quais são feitas generalizações ofensivas e desrespeitosas contra artistas, estudantes e cidadãos brasileiros que possuem posicionamentos políticos e ideológicos diferentes dos seus.
Ao afirmar que determinadas pessoas “não produzem, não trabalham e não querem trabalhar”, associando artistas , estudantes e ao povo em geral a comportamentos depreciativos, a publicação ultrapassa os limites do debate político respeitoso e reproduz estereótipos preconceituosos que desqualificam segmentos fundamentais para o desenvolvimento social, cultural, científico e econômico do país.
Os artistas brasileiros são trabalhadores que produzem conhecimento, cultura, entretenimento, identidade e riqueza. São profissionais que movimentam uma extensa cadeia produtiva, geram empregos, contribuem para a economia e preservam a memória e a diversidade cultural do nosso povo.
Da mesma forma, os estudantes não podem ser reduzidos a caricaturas ideológicas ou tratados como indivíduos improdutivos. São cidadãos em processo de formação, responsáveis por construir conhecimentos, questionar realidades e contribuir para as transformações necessárias à sociedade.
É especialmente preocupante que manifestações dessa natureza procurem transformar divergências políticas em instrumentos de desqualificação moral e social. O exercício da democracia pressupõe o respeito à pluralidade de ideias, à liberdade de expressão e à dignidade humana, princípios assegurados pela Constituição Federal de 1988.
A liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não deve ser confundida com uma autorização para disseminar preconceitos, estigmatizar categorias profissionais ou desrespeitar pessoas em razão de suas escolhas políticas, culturais e intelectuais.
Discordar é legítimo. Desrespeitar não pode ser naturalizado.
Reafirmamos, portanto, nossa solidariedade à classe artística, à comunidade estudantil e a todos aqueles que foram atingidos pelas declarações. Defendemos um debate público pautado pelo respeito, pela responsabilidade e pelo reconhecimento da importância de cada segmento social.
A democracia se fortalece com o diálogo, a educação, a cultura e o respeito — jamais com a desqualificação de quem pensa diferente.
Respeito não é favor. É princípio democrático!”
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