26 de October de 2026
Psicóloga Carla Pitanga
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

A campanha Outubro Rosa tem como foco a prevenção e a conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama. Por outro lado, um tema ainda pouco abordado é a saúde emocional e a forma como o médico comunica o diagnóstico para o paciente.

De modo geral, a notícia de um câncer gera medo, insegurança e a sensação de que se está prestes a enfrentar a morte. E quando ela é dada sem empatia, acolhimento e cuidado pelo profissional de saúde, pode gerar consequências ainda maiores para quem precisará reunir forças e coragem para lutar contra a doença.

Psicóloga Carla Pitanga
Foto: Arquivo Pessoal

A psicóloga Carla Pitanga vivenciou uma experiência negativa ao receber a notícia de que possuía células cancerígenas já em estágio avançado. Em entrevista ao Acorda Cidade, ela relatou sobre a dor que sentiu ao saber de uma forma tão fria que tinha câncer de mama, e como mais tarde, transformou essa dor em propósito, ao ingressar na área de saúde e apresentar seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) voltado ao manejo médico da comunicação de más notícias para pacientes oncológicos.

“É muito assustador. O momento é muito triste, como todos devem saber. Eu estava tomando um banho e notei um nódulo. Imediatamente, como todo ano, fiz a mamografia e a ultrassom. Procurei uma profissional, a mastologista. E ela foi levar os resultados. Só que a gente pensa que nesse momento vai ser acolhida. Eu já sabia que tinha dado células cancerígenas, porque no próprio diagnóstico já tinha aparecido. Foi quando ela, de uma maneira não muito carinhosa, não muito simpática, virou para mim e falou: ‘Carla, você está com câncer, um câncer extremamente agressivo, e vamos tratar para ontem.’”

Psicóloga Carla Pitanga
Foto: Arquivo Pessoal

Neste momento, foi como se o mundo tivesse desabado aos pés de Carla. Os exames caíram no chão, sobre seus pés, e ela só se recorda de ter acordado horas depois em uma clínica.

“Para mim foi bastante assustador, e eu creio que muita gente passa por isso. A gente pensa já que vai morrer. Eu tenho um filho só. Meu filho na época fazia faculdade em Cruz das Almas. Principalmente quando ela disse ‘é um câncer extremamente agressivo’, que não foi só um nódulo, tinha vários nódulos, alguns que estavam cristalizados. Com certeza, o impacto emocional foi de imediato.”

De acordo com Carla Pitanga, o tratamento correu bem e não deixou sequelas físicas. No entanto, ela precisou passar pelo processo de terapia e foi aí que seus olhos se abriram também para o universo da Psicologia.

“O meu oncologista, que eu faço questão de falar o nome, Dr. Samuel Afonseca, que eu amo de paixão, me acolheu de uma maneira totalmente diferente. E como eu cheguei, a primeira coisa que ele fez foi aconselhar a terapia. Eu comecei a fazer duas vezes por semana, antes mesmo de começar a fazer o tratamento.”

Psicóloga Carla Pitanga
Foto: Arquivo Pessoal

Durante o tratamento, ela ingressou no curso e lembra como a experiência negativa com o diagnóstico foi o ponto de partida para essa decisão.

“Eu fiz a mastectomia, tirei a mama, esvaziou a axila, e eu ficava em casa. A radioterapia é feita todos os dias, mas a químio era uma vez por semana. Mas você fica em casa, mesmo que você esteja assistindo um filme, lendo ou ouvindo música, é entediante. Me deu vontade de voltar a estudar. Fiz o curso de Psicologia e me formei. Hoje o meu registro no CRP (Conselho Regional de Psicologia) é ativo, e eu atendo online.”

Experiência ruim virou tema de TCC

A forma de comunicar uma notícia ruim se tornou o tema do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) de Carla. O trabalho feito em trio abordou, com base em pesquisas e artigos, a forma como é dado o diagnóstico para pacientes com câncer.

A pesquisa foi além dos bancos acadêmicos e seu artigo sobre “O manejo médico da comunicação de más notícias na oncologia” em revistas especializadas da área de saúde.

Psicóloga Carla Pitanga
Foto: Arquivo Pessoal

“O curso de psicologia me ajudou bastante, bastante mesmo, para o tratamento de câncer. Tive uma turma que me acolheu em um dos momentos mais difíceis da minha vida. Nós escolhemos esse tema pelo fato de eu ter passado por essa situação, e porque um colega já tinha começado a fazer essa pesquisa. A questão do diagnóstico, que a gente escolheu para passar para a população, pela maneira como alguns médicos, não são todos, passam as notícias. A forma de falar realmente muda tudo. Se ela, quando fosse dar a notícia de que eu teria o CA, se a forma de falar tivesse sido diferente, eu acho que eu não teria passado por algumas complicações como eu passei.”

Segundo Carla, a maneira como ela recebeu o diagnóstico a fez passar por um período de depressão e estado de choque.

“Eu acho que falta muita comunicação, falta muita pesquisa. Existem médicos que são humanos. Eu acho que isso vai da questão ética. Nós psicólogos, nós temos uma questão ética, quando nós detectamos algum problema de saúde. Então, eu acho que de médico para paciente, tem que existir do mesmo jeito. O paciente está com câncer. Saiba como conversar. O meu oncologista mesmo, quando eu tenho qualquer tipo de diagnóstico diferente, que a cada dois meses, a cada um mês e meio, eu tenho que retornar, ele sabe como sentar, como conversar.”

Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.

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