28 de October de 2026
Estudo associa remédio para dor de cabeça a menor risco de demência em idosos
Foto: Pexels

Pesquisadores da Universidade Monash, na Austrália, descobriram que idosos com predisposição genética para níveis elevados de plaquetas podem se beneficiar do uso contínuo de aspirina em baixas doses para proteger o cérebro. Nesse grupo, o risco de demência foi até três vezes e meia menor.

O achado, porém, traz uma ressalva importante: o mesmo grupo de participantes apresentou o dobro de chances de sofrer sangramentos graves com o medicamento. O resultado reforça que a resposta à aspirina depende da genética individual e não é igual para todos os idosos.

Foto: Pexels

Como a genética interfere no efeito da aspirina

Os cientistas usaram uma ferramenta chamada escore de risco poligênico para medir como o organismo de cada participante reagia à aspirina diante do risco genético de demência. Esse índice agrupa variações do DNA ligadas à produção de plaquetas, células sanguíneas responsáveis pela coagulação.

O aspecto revelador da pesquisa foi que genes associados ao Alzheimer e a outras formas de declínio cognitivo não mostraram relação direta com a resposta ao medicamento. A proteção cerebral depende da biologia das plaquetas, não de fatores ligados à degeneração neurológica.

Quem participou e quanto tempo levou

Voluntários com 65 anos ou mais, sem histórico de doença cardiovascular, demência ou limitação física grave, receberam aspirina ou placebo sob supervisão. Os benefícios só se tornaram visíveis após dois ou três anos de uso contínuo, o que indica que o efeito protetor não é imediato.

Das 112 interações genéticas observadas pelos cientistas, 18 tinham ligação direta com características plaquetárias dos participantes. O resultado ajudou a confirmar o mecanismo pelo qual a aspirina funciona para esse grupo.

O contexto mais amplo do uso de aspirina

Foto: Pexels

A descoberta chega num momento em que o uso rotineiro de aspirina em baixas doses vem sendo questionado. As orientações passaram a recomendar que médicos não iniciem esse tratamento diário na maioria dos pacientes com alto risco cardiovascular, porque os efeitos colaterais graves podem superar os benefícios.

A redução relativa de 70% no risco de demência, embora pareça expressiva, corresponde a apenas 2,3 pontos percentuais em números absolutos. Esse contexto reforça que a decisão de prolongar o uso de aspirina depende cada vez mais do perfil genético e das características individuais de cada paciente. Em vez de uma recomendação única para todos os idosos.

Pontos-chave
Pontos-chave sobre o uso da aspirina
✓
Idosos com predisposição genética a níveis elevados de plaquetas podem ter redução de demência com aspirina em baixas doses.
✓
Nesse grupo, o risco de demência foi até três vezes e meia menor, mas o risco de sangramentos graves dobrou.
✓
A proteção cerebral depende da biologia das plaquetas, não de genes associados ao Alzheimer.
✓
Benefícios surgiram só após dois ou três anos de uso contínuo de aspirina.
✓
Redução relativa de 70% equivale a 2,3 pontos percentuais em termos absolutos.

A mudança global nas orientações sobre aspirina preventiva

Esse estudo chega em um momento de mudança nas recomendações médicas sobre o uso preventivo de aspirina. Até pouco tempo, médicos orientavam adultos com alto risco de doenças cardíacas a tomar aspirina diariamente, mesmo sem nunca ter sofrido um problema cardiovascular, e essa estratégia era considerada barata e eficaz.

Mas pesquisas recentes mostram que, para a maioria das pessoas, o risco de sangramentos graves, especialmente no cérebro e no trato digestivo, supera os benefícios dessa prevenção.

A descoberta da Universidade Monash se insere nesse contexto: em vez de receitar aspirina genericamente para todos os idosos, as decisões estão se tornando mais personalizadas e baseadas na genética individual.

A questão deixou de ser apenas se todos devem tomar aspirina e passou a considerar o perfil genético de cada pessoa e como ele altera a relação entre riscos e benefícios.