31 de October de 2026
Derretimento de geleiras nos Alpes italianos revela munições da Primeira Guerra Mundial
Foto: Reprodução / Brigada Alpina Julia

Munições da Primeira Guerra Mundial permanecem escondidas no gelo das Dolomitas italianas há mais de cem anos, mas o aquecimento global as traz à tona a cada verão. Após alertas de excursionistas durante o verão europeu, a brigada alpina Julia, unidade especializada do exército italiano, recuperou e desativou 250 explosivos na região.

O reaparecimento desses artefatos se intensifica à medida que as geleiras recuam. Novos depósitos surgem em áreas de grande altitude do Trentino-Alto Ádige e das Dolomitas, onde ocorreu a chamada Guerra Branca entre 1915 e 1918. O conflito opôs forças italianas e austro-húngaras em regiões de temperaturas extremas.

A descoberta nos Alpes

Foto: Reprodução / Brigada Alpina Julia

Os alertas começaram na área do Canal San Bovo, no Vale Primiero, no leste do Trentino, quando excursionistas notificaram o exército sobre dispositivos emergindo do gelo derretido. Após receber as notificações, soldados realizaram varreduras em diversos pontos de alta altitude e campos glaciais da região, ampliando a operação para várias localidades.

A operação recuperou armamentos específicos: 18 projéteis de artilharia italiana de 75 mm e 37 projéteis de morteiro Thevetot. Modelo de origem francesa também fornecido ao exército real italiano durante a Primeira Guerra. Muitos desses explosivos ainda podiam detonar depois de permanecerem congelados por mais de um século, tornando-se uma ameaça quando reaparecem.

Consequência direta do aquecimento

Stefano Morosini, professor da Universidade de Bergamo e coordenador de projetos no Parque Nacional Stelvio, disse que o aquecimento global acelera o derretimento das geleiras e intensifica o surgimento de artefatos perigosos. Ao fim de cada verão, novos explosivos ressurgem do gelo, em um ciclo que se repete e aumenta a cada ano.

Os dispositivos conservados pelo gelo são perigosos: alguns explodiram naturalmente durante as décadas de congelamento, enquanto outros permaneceram íntegros e ainda capazes de detonar, e ao reaparecerem, ameaçam quem frequenta as montanhas.

Linha do tempo
Linha do tempo dos eventos mencionados na matéria
1915 a 1918
Guerra Branca entre forças italianas e austro-húngaras nas Dolomitas e áreas de grande altitude
novembro de 1918
Fim do conflito; um quartel de madeira no topo do Monte Scorluzzo ficou preservado desde essa data
desde a década de 1990
O derretimento das geleiras revelou objetos intactos da Guerra Branca, incluindo armas, trenós, correspondência, diários e restos mortais com uniformes preservados
2015
Reaparecimento do quartel de madeira instalado em uma caverna no topo do Monte Scorluzzo, a 3.095 metros de altitude, após o descongelamento completo
2017
Descoberta de documentos de um combatente italiano na geleira Presena, permitindo que sua família o sepultasse após quase cem anos de desaparecimento
2022
Rompimento de parte da geleira Marmolada, em que onze pessoas morreram, ilustrando os perigos das geleiras na região
verão europeu (ano não especificado)
Brigada alpina Julia recuperou e desativou 250 explosivos após alertas de excursionistas sobre dispositivos emergindo do gelo
junho de 2027
Previsão de inauguração de um museu dedicado à Guerra Branca na cidade de Bormio

Relíquias e recordações do conflito

Desde a década de 1990, o derretimento revelou objetos intactos da Guerra Branca: armas, trenós, correspondência pessoal, diários e restos mortais de soldados com uniformes originais preservados. A descoberta de documentos de um combatente italiano na geleira Presena, em 2017, permitiu que sua família o sepultasse após quase cem anos de desaparecimento.

Um quartel de madeira, instalado em uma caverna no topo do Monte Scorluzzo, a 3.095 metros de altitude e voltado para o Passo Stelvio, reapareceu em 2015 após o descongelamento completo.

A estrutura permanecia intacta desde novembro de 1918, quando terminou o conflito que matou mais de um milhão de pessoas. A maioria morreu em avalanches, quedas e por hipotermia, não em combate direto.

Segurança nas montanhas

As autoridades orientam caminhantes e alpinistas a nunca tocar em dispositivos explosivos encontrados, independentemente de sua localização. Qualquer achado desse tipo deve ser imediatamente comunicado à polícia, sem qualquer manipulação ou aproximação desnecessária.

Em 2022, um acidente grave ilustrou os perigos das geleiras na região: onze pessoas morreram quando parte da geleira Marmolada rompeu, reforçando o risco presente nas montanhas italianas. Morosini informou que a onda de calor, muito longa em grandes altitudes, torna cada vez mais impossível acessar as geleiras durante o verão.

A combinação de aquecimento global e explosivos enterrados no gelo cria um cenário em que vigilância e educação são essenciais para a segurança de quem explora esses ambientes.

Um museu dedicado à Guerra Branca está previsto para inauguração em junho de 2027 na cidade de Bormio, oportunidade para aprofundar o conhecimento sobre esse conflito histórico e suas consequências contemporâneas.