2 de November de 2026
Imagem: Pixabay

Crianças pequenas podem ser expostas a toxinas invisíveis ao consumir leite em pó ou fórmula comprada em farmácia. É o que mostra um levantamento da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, que apontou a presença de contaminantes fúngicos em mais da metade dos produtos avaliados.

No total, os pesquisadores analisaram 190 amostras de produtos infantis à base de leite e constataram que quase metade, 98 ao todo (51,6%), apresentava pelo menos um tipo de micotoxina. 

Um grupo de 32 amostras, cerca de 16,8% do total, reunia de duas a quatro micotoxinas diferentes em conjunto, cenário que preocupa pelo possível efeito cumulativo sobre o organismo ainda em desenvolvimento das crianças.

Os achados integram a tese de doutorado de Sana Ullah, defendida na FZEA, e ganharam publicação na revista científica Dairy. O trabalho buscou mapear a presença de micotoxinas em alimentos voltados ao público infantil e calcular o risco que a exposição a elas pode representar para crianças pequenas.

O que são micotoxinas e como chegam aos alimentos, como fórmulas infantis?

Fungos dos gêneros Aspergillus, Fusarium e Penicillium são os responsáveis pela produção das micotoxinas, substâncias tóxicas que podem contaminar alimentos em diferentes fases da cadeia produtiva, do plantio ao processamento industrial. Os fungos encontram condições favoráveis ao desenvolvimento principalmente em ambientes com sombra e umidade.

Essas moléculas não deixam rastro visível, não têm cheiro nem sabor perceptível, o que torna impossível identificá-las sem equipamento de laboratório. Para rastreá-las, a equipe da USP recorreu à cromatografia líquida associada à espectrometria de massas, método capaz de detectar e quantificar vários compostos tóxicos numa única amostra analisada.

Mais de 300 micotoxinas diferentes já foram catalogadas por cientistas ao redor do mundo. O levantamento da FZEA concentrou-se em seis grupos considerados prioritários: aflatoxinas, fumonisinas, ocratoxina A, zearalenona, deoxinivalenol e a toxina T-2.

Segundo Carlos Oliveira, professor da FZEA e orientador da pesquisa, a aflatoxina é a substância cancerígena natural mais potente já identificada e está associada especificamente ao câncer de fígado. 

A ocratoxina A também é carcinogênica e imunossupressora, reduzindo a atividade do sistema imunológico. A zearalenona tem atividade estrogênica, ou seja, mimetiza a ação do hormônio sexual feminino.

Já os efeitos ligados às fumonisinas são de natureza tóxica, e o deoxinivalenol pode comprometer as células e prejudicar o funcionamento do sistema imunológico.

Como foi realizado o estudo, quais toxinas foram encontradas e em que quantidade?

O material analisado veio de supermercados e farmácias de Pirassununga e Ribeirão Preto, cidades do interior paulista, em coletas realizadas entre maio de 2023 e maio de 2025. Todos os produtos tinham fabricação nacional e foram divididos em sete categorias conforme a faixa etária e o tipo de alimento.

A classificação incluiu fórmulas para bebês de até 6 meses. De até 12 meses e de até 3 anos, além de fórmulas voltadas a crianças maiores, leites em pó com e sem sabor e outros derivados lácteos. Essa separação permitiu comparar o grau de contaminação entre produtos destinados a diferentes fases do crescimento.

A zearalenona liderou o ranking de ocorrências: apareceu em 60 das 190 amostras, o equivalente a 32% do total analisado. As fumonisinas FB1 e FB2 foram encontradas em 42 amostras (22%). A ocratoxina A em 11 (5,8%), o deoxinivalenol em oito (4,2%) e a toxina T-2 e as aflatoxinas em duas amostras cada (1,1%).

A maior parte das concentrações encontradas estava dentro dos limites de tolerância fixados pela Anvisa para esse tipo de contaminante. Ainda assim, três amostras ultrapassaram os limites máximos estabelecidos pela Anvisa, enquanto 11 excederam os parâmetros da União Europeia.

A toxina T-2 foi encontrada em poucas amostras, mas não tem limite regulamentado no Brasil, embora possua um parâmetro estabelecido na Europa. Essa lacuna pode levar a futuras revisões da legislação nacional. Os resultados reforçam a necessidade de monitoramento contínuo da cadeia produtiva de alimentos infantis no país.