5 de November de 2026
Gabriella e Katia
Foto: Arquivo Pessoal

Projeto de mestrado da nutricionista Gabriella Behrmann foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e iniciará a coleta de dados no Hospital Geral Clériston Andrade. Estudo pretende avaliar a validade de critérios internacionais para identificar a desnutrição em pacientes com doenças gastrointestinais.

Identificar a desnutrição antes que ela comprometa ainda mais a saúde de pacientes hospitalizados é um dos desafios da assistência em saúde. Com esse propósito, uma pesquisa científica desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) acaba de conquistar uma etapa fundamental: a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da instituição, autorizando o início da pesquisa com participantes.

Intitulado “Validação dos critérios GLIM para o diagnóstico e prognóstico da desnutrição em pacientes hospitalizados com doenças gastrointestinais”, o projeto é desenvolvido pela nutricionista e mestranda Gabriella Behrmann, sob orientação da professora Dra Kátia Santana Freitas. A pesquisadora também integra o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas e Estudos em Saúde (NIPES), vinculado à Uefs.

O estudo será realizado no Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), unidade pública integrante da rede do Sistema Único de Saúde (SUS), em Feira de Santana, e terá como foco pacientes adultos e idosos hospitalizados com doenças gastrointestinais.

Por que investigar a desnutrição no ambiente hospitalar?

A desnutrição hospitalar é uma condição clínica que merece atenção especial. Além de comprometer o estado nutricional, pode estar associada ao aumento de complicações, maior tempo de internação, pior evolução clínica e maior demanda por recursos dos serviços de saúde.

Entre os pacientes com doenças gastrointestinais, a preocupação é ainda maior. Condições que comprometem o funcionamento do sistema digestório podem interferir diretamente na ingestão, digestão e absorção dos nutrientes. Sintomas, processos inflamatórios, redução do consumo alimentar e alterações metabólicas podem favorecer a perda de peso e de massa muscular, aumentando a vulnerabilidade nutricional durante a hospitalização.

Outro desafio é que a desnutrição nem sempre é facilmente identificada. Um paciente pode apresentar peso aparentemente adequado e, ainda assim, ter sofrido perda de peso involuntária e redução significativa da massa muscular. Por isso, a identificação não deve depender exclusivamente do peso corporal ou do índice de massa corporal.

A avaliação nutricional precisa considerar diferentes aspectos clínicos e corporais, permitindo reconhecer situações que poderiam passar despercebidas em uma avaliação superficial.

O que a pesquisa pretende investigar?

A pesquisa utilizará os critérios GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition), um consenso internacional publicado em 2019 que propõe uma abordagem padronizada para o diagnóstico da desnutrição em adultos.

O método considera dois grupos de critérios: os fenotípicos, relacionados às manifestações corporais da desnutrição, como perda de peso involuntária, baixo índice de massa corporal e redução da massa muscular; e os etiológicos, relacionados às causas, como diminuição da ingestão ou absorção de nutrientes e presença de doença ou inflamação.

Para estabelecer o diagnóstico, é necessária a presença de pelo menos um critério de cada grupo. Além disso, o GLIM permite classificar a gravidade da desnutrição em moderada ou grave.

Embora os critérios já sejam utilizados internacionalmente, ainda são necessárias mais evidências sobre seu desempenho em populações específicas e em diferentes contextos de assistência hospitalar, especialmente no sistema público brasileiro.

É justamente nesse cenário que a pesquisa desenvolvida em Feira de Santana ganha relevância: investigar se esses critérios apresentam validade diagnóstica e prognóstica em pacientes hospitalizados com doenças gastrointestinais.

Como será realizada a pesquisa?

A investigação contemplará pacientes adultos e idosos internados no HGCA, com diagnósticos de doenças gastrointestinais previstos no protocolo e classificados em risco nutricional nos níveis 2 ou 3 pela ferramenta NRS-2002.

Além de identificar a presença e a gravidade da desnutrição, o estudo buscará analisar a relação entre o diagnóstico nutricional e indicadores da evolução hospitalar, como tempo de internação e desfecho da hospitalização.

A previsão é que a coleta de dados aconteça entre novembro de 2026 e agosto de 2027.

Ciência que busca contribuir para uma assistência mais qualificada

A nutricionista Gabriella Behrmann relata que: “Mais do que produzir dados científicos, a proposta é contribuir para o aprimoramento do olhar clínico sobre a desnutrição no ambiente hospitalar. A identificação oportuna dessa condição pode favorecer o reconhecimento de pacientes que necessitam de maior atenção nutricional e subsidiar decisões assistenciais mais adequadas. Nesse processo, a integração entre diferentes profissionais de saúde é fundamental.”

A avaliação nutricional não deve ser compreendida de maneira isolada. A articulação entre Nutrição, Medicina, Enfermagem, Fisioterapia e demais áreas envolvidas no cuidado pode favorecer uma compreensão mais ampla das necessidades dos pacientes e contribuir para uma assistência mais integrada e individualizada, acrescenta a pesquisadora.

A pesquisa também representa uma oportunidade de aproximação entre universidade e serviço de saúde, fortalecendo a produção científica dentro de uma unidade pública e valorizando a pesquisa como instrumento de qualificação do cuidado no SUS.

Com a aprovação ética e o início da coleta de dados, o projeto avança para uma etapa importante de sua execução. Os resultados poderão ampliar as evidências sobre a aplicação dos critérios GLIM em pacientes com doenças gastrointestinais e subsidiar futuras discussões sobre a identificação e o manejo da desnutrição no contexto hospitalar.

A iniciativa reforça o papel da universidade pública na produção de conhecimento científico voltado às necessidades da população e na busca por uma assistência à saúde cada vez mais qualificada, humanizada e fundamentada em evidências.

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