
Muito além da passarela e da estética, o Concurso Miss Afro Feira de Santana tem se consolidado como um espaço de empoderamento, consciência racial e valorização da identidade da mulher negra. Em sua 9ª edição, o evento reuniu 187 meninas e mulheres negras, com idades entre 16 e 40 anos, reafirmando o papel do concurso como uma das principais ações afirmativas do município.

Realizada no Teatro do Centro de Convenções de Feira de Santana, a grande final lotou o espaço e celebrou histórias de resistência, ancestralidade e representatividade. A vencedora da edição 2026 foi Leandra Jesus, de 40 anos, moradora da comunidade quilombola Matinha dos Pretos, que conquistou o título de Miss Afro Feira de Santana com 351 pontos.

A força da representatividade
Participando pela terceira vez do concurso, Leandra destacou em entrevista ao Acorda Cidade que o principal incentivo para retornar ao Miss Afro foi a representatividade.
O que me inspira é essa questão da representatividade, de ser um exemplo para outras meninas, outras mulheres negras que precisam se ver em lugares que elas acham que não podem alcançar. No concurso a gente estuda para saber realmente do que a gente está falando, da nossa história. Então a gente tem um letramento racial mesmo, muita roda de conversa, muito contato, muitas trocas de experiência que nos preparam para ser Miss”, afirmou.

Leandra também contou as mudanças que percebeu em si durante o processo formativo promovido pelo concurso. Os aprendizados foram muito além de encontrar autoestima com o que se vê no espelho, mas isso também aconteceu. A autoestima foi estimulada de dentro para fora, sempre aprendendo a valorizar a ancestralidade que cada traço do corpo e da história negra também carregam.
“A autoestima é algo que a gente, às vezes, acha que não é tão importante, mas que nos dá uma alegria de viver e aí a gente sente que é capaz de muita coisa. Minha autoestima mudou bastante.”
Ocupando espaços historicamente negados
Entre as vencedoras desta edição também estiveram Geovana Amorim, escolhida como 1ª Beldade Negra; Milena da Cruz, eleita 2ª Beldade Negra; e Karine Santos, coroada Miss Afro Simpatia 2026, título que ela leva pela segunda vez.

Ao Acorda Cidade, Karine, que participa do concurso pela quarta vez, ressaltou a importância da ocupação de espaços historicamente negados às mulheres negras.
Ocupar esse espaço é maravilhoso, porque foi um espaço negado para nós desde o início e aqui a gente pode estar ocupando e tendo voz também. Dá um nervosismo de início, toda vez, porque a experiência é única. E você chega lá toda linda, com muita gente torcendo por você, mostrando realmente a nossa identidade e a valorização da cultura negra.”

Representatividade para meninas negras
Já Milena da Cruz também destacou o papel do Miss Afro no fortalecimento da autoestima e na construção da representatividade, principalmente para meninas negras, que precisam aprender desde a infância a se defender do racismo recreativo cruel que as desumanizam diariamente em todos os ambientes da sociedade.

A mensagem que eu passo é de que essas meninas negras, assim como eu, busquem estar em espaços que possam trazer esse empoderamento para elas, sendo assim o Miss Afro, que é esse movimento que a gente tem na nossa cidade, mas também busquem conhecer a sua história, influências negras em seus espaços de convívio e em outros espaços. A gente passa por esse processo de autoconhecimento formativo, uma ajuda a outra para entender que a gente está aqui representando não só a população negra, mas as meninas que participaram do processo com a gente.”

A 2ª Beldade Negra também revelou ter recebido mensagens de mulheres de diferentes gerações durante esta edição, com gestos de reconhecimento e acolhimento entre irmãs. “Tenho recebido muitas mensagens de mulheres que até têm idade de ser minha mãe, dizendo que eu represento elas e que suas crianças também têm me visto como representatividade”, disse Milena ao Acorda Cidade.
“Nossos passos vêm de longe”
Para Geovana Amorim, 1ª Beldade Negra, representar mulheres e crianças negras é uma responsabilidade carregada de orgulho.
O concurso oferece para a gente um estudo formativo para que a gente conheça nossa ancestralidade, dos nossos antepassados. Representar mulheres negras, crianças negras, para mim está sendo surreal.”

Nas palavras de Geovana, “conhecer nossos antepasssados” significa que a frase “Nossos passos vêm de longe” traduz a importância de a sociedade reconhecer a permanência do racismo ao longo dos séculos, sem deixar de valorizar as lutas e conquistas dos ancestrais que também chegaram até aqui.
Ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas os passos dessas mulheres seguem firmes e conscientes, guiados pelo conhecimento e pela resistência necessária para enfrentar as mazelas impostas pelo sistema.

“Hoje a gente consegue ter o espaço que a gente merece. E a gente vai chegar muito além, tenho certeza, porque merecemos isso.”
Beleza também é consciência e resistência e vai muito além do padrão eurocêntrico
Com quase uma década de existência, o Miss Afro Feira de Santana segue fortalecendo o protagonismo feminino negro, promovendo autoestima, pertencimento e ocupação de espaços, reafirmando que beleza também é consciência, identidade e resistência.
Um dos organizadores do concurso, Val Conceição, explicou que a criação do Miss Afro surgiu da necessidade de fortalecer a valorização da cultura afro-brasileira e ampliar o empoderamento de meninas e mulheres negras da cidade e da região.

Para Val que acompanha de perto o desenvolvimento das participantes, o impacto mais visível do concurso está justamente na transformação pessoal delas.
“O empoderamento. A gente costuma dizer que o Miss Afro é um divisor de águas na vida delas. Elas entram de uma forma e saem de outra totalmente diferente, mais empoderadas, mais conscientes, mais donas de si.”
Val Conceição também destacou que o processo vai além de um concurso de beleza tradicional. Durante cerca de três meses, as candidatas participam de rodas de conversa, estudos e atividades voltadas para identidade racial, ancestralidade, cultura africana e autoestima. O Miss Afro, para quem participa e para quem acompanha, é a oportunidade de desfazer diversos estereótipos criados sobre concursos de beleza.

“Antes de iniciar a edição, reunimos uma equipe de coordenação. Fazemos várias pesquisas, mesclamos ancestralidade, antiguidade com atualidades e criamos o plano de trabalho e os temas para que elas possam estudar com a gente, tudo voltado a questões raciais e de gênero e da historicidade da África.”
Quando se fala de concurso de beleza, a ideia que a gente tem é aquele concurso eurocêntrico, de meninas magras, altas, como eles costumam dizer, narizinho fino e tal. O Miss Afro vem desconstruindo essa ideia estereotipada. A gente inscreve meninas de várias idades, de vários pesos, de vários corpos, de vários tamanhos. E durante o concurso passamos para elas que a estética é individual de cada uma. O que a gente busca, na verdade, é a conscientização e isso a gente tem conseguido”, acrescentou Val ao Acorda Cidade.









Sobra vontade, mais ainda faltam ações afirmativas e políticas públicas
Para Val, Feira de Santana ainda precisa avançar na ampliação de políticas públicas voltadas à valorização de meninas e mulheres negras, especialmente no incentivo a ações afirmativas e espaços de representatividade. O Miss Afro é um exemplo disso, que tem lutado para se consolidar, mas ainda é a única ação afirmativa do município com esse perfil de atuação.

“Para mais valorização da mulher negra é preciso apoio, mais atividades e ações como o concurso Miss Afro e situações como essa chamam a atenção, porque hoje o Miss Afro se consolida como a única ação afirmativa no município que faz esse tipo de trabalho. Para a gente é importante, é interessante, mas ainda não é o suficiente. A gente espera que o Poder Público, que as autoridades possam estar apoiando atividades e ações como as nossas e fomentando a construção de outras ações. Eu acho que é isso que está faltando.”
Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade
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