24 de May de 2026
Miss Afro 2026
Foto: Divulgação

Muito além da passarela e da estética, o Concurso Miss Afro Feira de Santana tem se consolidado como um espaço de empoderamento, consciência racial e valorização da identidade da mulher negra. Em sua 9ª edição, o evento reuniu 187 meninas e mulheres negras, com idades entre 16 e 40 anos, reafirmando o papel do concurso como uma das principais ações afirmativas do município.

Além da beleza, Miss Afro promove consciência, ancestralidade e resistência entre mulheres negras; conheça o concurso
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Realizada no Teatro do Centro de Convenções de Feira de Santana, a grande final lotou o espaço e celebrou histórias de resistência, ancestralidade e representatividade. A vencedora da edição 2026 foi Leandra Jesus, de 40 anos, moradora da comunidade quilombola Matinha dos Pretos, que conquistou o título de Miss Afro Feira de Santana com 351 pontos.

Moradora da Matinha dos Pretos vence Miss Afro Feira de Santana 2026
Foto: Taila Silva

A força da representatividade

Participando pela terceira vez do concurso, Leandra destacou em entrevista ao Acorda Cidade que o principal incentivo para retornar ao Miss Afro foi a representatividade.

O que me inspira é essa questão da representatividade, de ser um exemplo para outras meninas, outras mulheres negras que precisam se ver em lugares que elas acham que não podem alcançar. No concurso a gente estuda para saber realmente do que a gente está falando, da nossa história. Então a gente tem um letramento racial mesmo, muita roda de conversa, muito contato, muitas trocas de experiência que nos preparam para ser Miss”, afirmou.

Miss Afro 2026
Foto: Divulgação

Leandra também contou as mudanças que percebeu em si durante o processo formativo promovido pelo concurso. Os aprendizados foram muito além de encontrar autoestima com o que se vê no espelho, mas isso também aconteceu. A autoestima foi estimulada de dentro para fora, sempre aprendendo a valorizar a ancestralidade que cada traço do corpo e da história negra também carregam.

“A autoestima é algo que a gente, às vezes, acha que não é tão importante, mas que nos dá uma alegria de viver e aí a gente sente que é capaz de muita coisa. Minha autoestima mudou bastante.”

Ocupando espaços historicamente negados

Entre as vencedoras desta edição também estiveram Geovana Amorim, escolhida como 1ª Beldade Negra; Milena da Cruz, eleita 2ª Beldade Negra; e Karine Santos, coroada Miss Afro Simpatia 2026, título que ela leva pela segunda vez.

Miss Afro 2026
Foto: Divulgação

Ao Acorda Cidade, Karine, que participa do concurso pela quarta vez, ressaltou a importância da ocupação de espaços historicamente negados às mulheres negras.

Ocupar esse espaço é maravilhoso, porque foi um espaço negado para nós desde o início e aqui a gente pode estar ocupando e tendo voz também. Dá um nervosismo de início, toda vez, porque a experiência é única. E você chega lá toda linda, com muita gente torcendo por você, mostrando realmente a nossa identidade e a valorização da cultura negra.”

Além da beleza, Miss Afro promove consciência, ancestralidade e resistência entre mulheres negras; conheça o concurso
Karine Santos | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Representatividade para meninas negras

Já Milena da Cruz também destacou o papel do Miss Afro no fortalecimento da autoestima e na construção da representatividade, principalmente para meninas negras, que precisam aprender desde a infância a se defender do racismo recreativo cruel que as desumanizam diariamente em todos os ambientes da sociedade.

Além da beleza, Miss Afro promove consciência, ancestralidade e resistência entre mulheres negras; conheça o concurso
Milena da Cruz | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

A mensagem que eu passo é de que essas meninas negras, assim como eu, busquem estar em espaços que possam trazer esse empoderamento para elas, sendo assim o Miss Afro, que é esse movimento que a gente tem na nossa cidade, mas também busquem conhecer a sua história, influências negras em seus espaços de convívio e em outros espaços. A gente passa por esse processo de autoconhecimento formativo, uma ajuda a outra para entender que a gente está aqui representando não só a população negra, mas as meninas que participaram do processo com a gente.”

mulheres
Candidatas do Miss Afro 2026 | Foto: Divulgação

A 2ª Beldade Negra também revelou ter recebido mensagens de mulheres de diferentes gerações durante esta edição, com gestos de reconhecimento e acolhimento entre irmãs. “Tenho recebido muitas mensagens de mulheres que até têm idade de ser minha mãe, dizendo que eu represento elas e que suas crianças também têm me visto como representatividade”, disse Milena ao Acorda Cidade.

“Nossos passos vêm de longe”

Para Geovana Amorim, 1ª Beldade Negra, representar mulheres e crianças negras é uma responsabilidade carregada de orgulho.

O concurso oferece para a gente um estudo formativo para que a gente conheça nossa ancestralidade, dos nossos antepassados. Representar mulheres negras, crianças negras, para mim está sendo surreal.”

Além da beleza, Miss Afro promove consciência, ancestralidade e resistência entre mulheres negras; conheça o concurso
Geovana Amorim | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Nas palavras de Geovana, “conhecer nossos antepasssados” significa que a frase “Nossos passos vêm de longe” traduz a importância de a sociedade reconhecer a permanência do racismo ao longo dos séculos, sem deixar de valorizar as lutas e conquistas dos ancestrais que também chegaram até aqui.

Ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas os passos dessas mulheres seguem firmes e conscientes, guiados pelo conhecimento e pela resistência necessária para enfrentar as mazelas impostas pelo sistema.

Além da beleza, Miss Afro promove consciência, ancestralidade e resistência entre mulheres negras; conheça o concurso
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

“Hoje a gente consegue ter o espaço que a gente merece. E a gente vai chegar muito além, tenho certeza, porque merecemos isso.”

Beleza também é consciência e resistência e vai muito além do padrão eurocêntrico

Com quase uma década de existência, o Miss Afro Feira de Santana segue fortalecendo o protagonismo feminino negro, promovendo autoestima, pertencimento e ocupação de espaços, reafirmando que beleza também é consciência, identidade e resistência.

Um dos organizadores do concurso, Val Conceição, explicou que a criação do Miss Afro surgiu da necessidade de fortalecer a valorização da cultura afro-brasileira e ampliar o empoderamento de meninas e mulheres negras da cidade e da região.

Para Val que acompanha de perto o desenvolvimento das participantes, o impacto mais visível do concurso está justamente na transformação pessoal delas.

“O empoderamento. A gente costuma dizer que o Miss Afro é um divisor de águas na vida delas. Elas entram de uma forma e saem de outra totalmente diferente, mais empoderadas, mais conscientes, mais donas de si.”

Val Conceição também destacou que o processo vai além de um concurso de beleza tradicional. Durante cerca de três meses, as candidatas participam de rodas de conversa, estudos e atividades voltadas para identidade racial, ancestralidade, cultura africana e autoestima. O Miss Afro, para quem participa e para quem acompanha, é a oportunidade de desfazer diversos estereótipos criados sobre concursos de beleza.

Além da beleza, Miss Afro promove consciência, ancestralidade e resistência entre mulheres negras; conheça o concurso
Val Conceição | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

“Antes de iniciar a edição, reunimos uma equipe de coordenação. Fazemos várias pesquisas, mesclamos ancestralidade, antiguidade com atualidades e criamos o plano de trabalho e os temas para que elas possam estudar com a gente, tudo voltado a questões raciais e de gênero e da historicidade da África.”

Quando se fala de concurso de beleza, a ideia que a gente tem é aquele concurso eurocêntrico, de meninas magras, altas, como eles costumam dizer, narizinho fino e tal. O Miss Afro vem desconstruindo essa ideia estereotipada. A gente inscreve meninas de várias idades, de vários pesos, de vários corpos, de vários tamanhos. E durante o concurso passamos para elas que a estética é individual de cada uma. O que a gente busca, na verdade, é a conscientização e isso a gente tem conseguido”, acrescentou Val ao Acorda Cidade.

Sobra vontade, mais ainda faltam ações afirmativas e políticas públicas

Para Val, Feira de Santana ainda precisa avançar na ampliação de políticas públicas voltadas à valorização de meninas e mulheres negras, especialmente no incentivo a ações afirmativas e espaços de representatividade. O Miss Afro é um exemplo disso, que tem lutado para se consolidar, mas ainda é a única ação afirmativa do município com esse perfil de atuação.

Moradora da Matinha dos Pretos vence Miss Afro Feira de Santana 2026
Foto: Taila Silva

“Para mais valorização da mulher negra é preciso apoio, mais atividades e ações como o concurso Miss Afro e situações como essa chamam a atenção, porque hoje o Miss Afro se consolida como a única ação afirmativa no município que faz esse tipo de trabalho. Para a gente é importante, é interessante, mas ainda não é o suficiente. A gente espera que o Poder Público, que as autoridades possam estar apoiando atividades e ações como as nossas e fomentando a construção de outras ações. Eu acho que é isso que está faltando.”

Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade

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