
Setembro é o mês dedicado à promoção da saúde mental, à valorização da vida e a prevenção do suicídio. Durante a campanha, diversas ações são promovidas, como palestras, atividades socioemocionais, rodas de conversa, entre outras programações. Mas, existe um hábito simples e acessível a todos que pode trazer transformações profundas para quem pratica: escrever.
O ato de escrever, também conhecido pelo termo em inglês ‘journaling’, pode ser um aliado poderoso na busca pela saúde mental.
O psicólogo e escritor Carlos Henrique Kruschewsky conversou com o Acorda Cidade sobre o papel da escrita como atividade terapêutica. Segundo ele, esta é uma técnica bastante sugerida aos pacientes que estão em processo de terapia. No entanto, qualquer pessoa pode ser apropriar dela.
“A escrita não é terapia, mas ela pode ser terapêutica. O sujeito é convidado a escrever o que lhe vem à cabeça, de uma maneira a poder ter o registro disso e revisitar aqueles sentimentos e pensamentos em um outro momento com mais racionalidade.”
Conforme o profissional, além de uma atividade terapêutica, a escrita pode ser também criativa.
“Quando o sujeito começa a compor uma história, ela depois pode ser vista e interpretada quase que da mesma maneira que Freud fazia com a interpretação dos sonhos. No meio disso tudo, a gente tem a chance de reler esse texto e perceber nesse movimento tudo que esse sujeito está trazendo, de elaboração de pensamento, de sentimento, do quanto esse psiquismo está adoecido ou não.”
A escrita proporciona ainda a vivência de desejos que foram reprimidos ao longo da vida.
“O papel aceita tudo e, às vezes, a gente leva para o papel uma bomba para ser explodida em um ambiente seguro, para que aquilo não destrua uma condição de vida ou pessoas no meio desse caminho.”
A prática de escrever em diários é algo antigo, porém foi se perdendo ao longo dos últimos anos, sobretudo após o avanço da digitalização dos processos.
“Quando você escrevia um diário, todo dia você escrevia um texto sobre os sentimentos que você tinha, você tinha um registro do avanço das suas elaborações de pensamentos, da complexidade das coisas que você ia pensando. A escrita é fundamental para a gente conseguir elaborar coisas, revisitar e, sobretudo, evoluir a maneira que a gente pensa o mundo.”
Digitar ou escrever?
Ele defende que as pessoas voltem a escrever, para que coloquem no papel aquilo que estão sentindo, ao invés de recorrem a aparelhos tecnológicos.
“No computador ou no celular, enquanto você vai digitando, as palavras meio que vão surgindo na sua tela e você vai escolhendo, como se você estivesse montando uma concha de retalhos. E isso é muito ruim, porque, enquanto você escreve à mão, você não tem com muita facilidade a condição de apagar uma palavra, apagar um sentimento. A cabeça pensa e a mão escreve quase que em tempo real e isso é fundamental. A gente precisa voltar à prática de escrever à mão, ter cadernos de escrita pessoal, cadernos terapêuticos, inclusive, cadernos para terapia.”
O hábito da leitura é outro grande aliado nesse processo de cura interior. “Quanto maior o vocabulário, maior é a forma de elaboração dos sentimentos a partir dessas palavras. Existem palavras que traduzem com mais precisão coisas que a gente vai sentindo. E o vocabulário, a língua, ela é viva e ela vai se modificando ao longo do tempo. Então é importante que esse vocabulário seja extenso para que a gente consiga comunicar mais adequadamente as coisas que a gente pensa.”
Quando começar a escrever
O psicólogo orienta escrever todos os dias, ainda que sem muita qualidade nas ideias.
“Nem sempre é uma ideia vinda da condição única e exclusiva disso que a gente chama de inspiração. Escrever o que vem à cabeça, uma nota de pensamento, qualquer coisa que lhe venha à cabeça. No futuro, se você, por exemplo, tem a intenção de escrever e publicar, se tornar um escritor, você vai perceber que cada notinha de pensamento vai caber na cabeça de um personagem. Você vai poder reciclar esses escritos e botar isso na boca de outras pessoas no futuro, enquanto você vai afinando essa coisa da escrita.”
Com informações da produtora Daniela Cardoso, do Acorda Cidade.
Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e YouTube e do grupo no Telegram.