28 de September de 2026
Entrada de Humildes_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Com uma população estimada em cerca de 35 mil habitantes, Humildes é o distrito mais populoso dos oito distritos de Feira de Santana. A localidade já pertenceu ao município de São Gonçalo dos Campos e só foi incorporado ao território de Feira de Santana em julho de 1859.

Em julho deste ano, o distrito comemorou os seus 167 anos como parte integrante da Princesa do Sertão. No entanto, a sua história começou há quase 400 anos, quando devotos de Nossa Senhora dos Humildes passaram a povoar a área, que fica às margens de um trecho do Rio Subaé, onde também uma imagem da santa foi encontrada.

Humildes_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Por conta da devoção à padroeira, a antiga vila foi batizada de Humildes e partir daí passou a desenvolver-se como grande centro industrial, atraindo multinacionais como a Nestlé e a Pepsico, além de se fortalecer como polo agropecuário e de horticultura.

Entre as atrações turísticas locais podemos destacar a Igreja Nossa Senhora dos Humildes, a Reserva Buriti, no povoado de Escoval, além de bares e restaurantes com pratos deliciosos da culinária regional, como a Bica São Jorge, no povoado do Pau Seco, onde visitantes de toda a região podem aproveitar momentos de lazer na natureza, enquanto saboreiam o peixe frito, o tambaqui, a tilápia e a famosa galinha de quintal.

Ao lado de tanto trabalho e veia empreendedora, caminham também a fé e as tradições familiares. A Igreja de Nossa Senhora dos Humildes é passagem obrigatória para os visitantes. E a festa de São Pedro, realizada no mês de junho, é uma das mais tradicionais da cidade.

A aposentada Vera Maria, de 72 anos, nasceu, cresceu e estudou no distrito de Humildes. Lá também se casou e comemorou o nascimento dos seus dois filhos e dois netos.

Ao Acorda Cidade, ela conta que acompanhou de perto o desenvolvimento do distrito, que atualmente já tem porte de cidade. Por outro lado, o crescimento da comunidade trouxe consigo outros problemas, que merecem maior atenção do poder público. “Precisa de mais escolas, mais segurança, mais saúde.”

Vera Maria - aposentada - 72 anos_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Apesar das dificuldades e o desejo de melhorias pela população, a aposentada lembra com carinho de quando o distrito começou e compara com o tempo atual.

“Humildes era pequenininha, mas agora cresceu muito, muito mesmo. Não é mais aquela Humildes de antigamente não, porque aqui se resumia a três ruas. E agora não. Agora tem muito loteamento aí. Cresceu.”

A aposentada afirma com orgulho que o distrito oferece uma série de oportunidades para quem deseja empreender. Basta caminhas pelas ruas, para notar a grande de estabelecimentos comerciais nos mais diversos segmentos. “Todo mundo consegue botar um negócio e vai para frente. Cada um coloca seu negocinho e funciona.”

Veja abaixo alguma imagens das ruas do distrito de Humildes:

Tradição religiosa

Para Vera Maria, a comunidade religiosa local também ajuda a manter nos moradores o senso de pertencimento.

“Tem muitas festas, inclusive, no São Pedro, graças a Deus, é tudo tranquilo. Também a festa maior que tem aqui é a da igreja, que é a de Nossa Senhora de Humildes, no início do ano, e depois tem o São Pedro. E no São João tem a quermesse. Todo dia eu digo, quem mora em Humildes, mora mais perto de Deus. Porque o pessoal aqui, todo mundo é amigo. Se acontecer alguma coisa aqui em Humildes, você sabe que não é o pessoal daqui, é gente que vem de fora. Nesse lugar tão grande, eu fico sentada aqui, na minha porta, até 22h30, 23h. Ninguém mexe comigo, porque aqui é uma paz, aqui na praça.”

Um lugar para chamar de casa

Esse sentimento de estar em casa, aconchego e raízes profundas, também é compartilhado pela fisioterapeuta Carollyne Bastos. Aos 29 anos, ela se orgulha de fazer parte do distrito e de ser conhecida também pela sua profissão, de serviço ao próximo.

Carollyne Bastos - Fisioterapeuta _ Foto Kaio Vinicius

“Quando eu nasci, todo mundo já me conhecia, e sempre fui conhecida como Carol filha de Ana. E quando eu comecei a entrar na comunidade em si, as pessoas foram me falando da minha história, então desde pequena eu sempre fui muito acolhida aqui.”

Sobre a história do surgimento de Humildes, ela disse que sempre ouviu muito falar sobre as dificuldades para a construção da igreja, e como milagrosamente a padroeira colaborou para que ela ficasse de pé até hoje.

“Nossa Senhora dos Humildes foi achada no Rio, que é o Rio da Rua, e essa igreja era uma capelinha. Dessa capela foram construindo a igreja por vários lados. Começou por um lado, a igreja caía; foi para o outro lado, a igreja também caía, e quando a igreja se firmou de frente ao rio onde foi achada Nossa Senhora, a igreja ficou de pé até hoje.”

Igreja Católica de Humildes_ foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

A jovem faz parte da comunidade católica, como coordenadora da Pastoral da Comunicação (Pascom), e percebe como atualmente muitos jovens estão se firmando mais nos caminhos religiosos.

“A religião aqui na nossa paróquia é muito bem frequentada. Como faço parte de uma comunicação jovem, a gente vê muitos jovens interagindo dentro da igreja, voltando para a igreja em si, ao seu hábito normal, que é voltar ao olhar para a casa do Pai. Também temos outras religiões aqui dentro, as culturas são diferentes, mas a fé continua sendo a mesma, acreditando em Deus que é o que mais basta.”

Carollyne Bastos ressaltou que a festa da Padroeira, com o trezenário, traz um clima diferente ao distrito, que recebe centenas de fiéis todos os anos vindos de comunidades vizinhas, outros distritos e das cidades mais próximas. “Tem cidades que vêm as caravanas, vem as vans, muita gente.”

Na avaliação dela, contudo, Humildes deveria ser um distrito mais valorizado e receber mais investimentos em infraestrutura, opções de lazer para os jovens e os mais idosos, além de mais oportunidades de trabalho para as novas gerações.

“Eu acho sensacional quando as pessoas olham para Humildes e falam assim: ‘faz parte de Feira’. Então, se as pessoas olharem com carinho para a cidade, para o distrito, para aqui dentro, eu acho que seria muito mais valorizado, com mais saneamento básico, policiamento e saúde. Eu sou da área de saúde, eu acho que precisa de um olhar mais sincero, porque é da saúde das pessoas que vêm o trabalho. Se você estiver com a saúde boa, o trabalho está em dia”, disse ao Acorda Cidade.

Mesmo jovem, a fisioterapeuta diz que busca valorizar a cultura local e já foi rainha do São Pedro, em 2011.

“Há 15 anos atrás fui rainha do São Pedro de Humildes, e a festa daqui é magnífica. É a festa que, literalmente, a população de Humildes se sente valorizada em quesito de cultura e também a economia. É quando o comércio começa a girar aqui mesmo.”

Confira fotos de alguns espaços públicos de lazer no distrito de Humildes:

A moradora Ana Carla Silva Moreira, de 59 anos, trabalha como agente de viagem e contou ao Acorda Cidade que nasceu em Humildes e construiu sua família lá. Em alguns momentos da sua vida, morou em outros lugares e conheceu outras realidades, mas decidiu retornar para o seu lar de origem.

 “Eu nasci aqui, estudei aqui, me casei aqui, meus filhos nasceram aqui. Então eu sempre morei em Humildes, a vida toda. Fui algumas épocas para fora, passei alguns anos, mas as férias eram sagradas eu vir para Humildes. Até que voltamos de vez e não saímos mais daqui.”

Ela lembrou que durante um período Humildes pertenceu a São Gonçalo dos Campos, mas quando nasceu a localidade já havia se tornado distrito de Feira de Santana. Dá lá para cá, ela acompanhou as mudanças de cenários, a forma como as casas passaram a ser construídas e tudo foi ganhando um ar de cidade.

Ana Carla - agente de viagens _ Foto Kaio Vinicius

“As casas hoje estão muito mais modernas, as pessoas conseguiram reformar suas casas. A nossa praça mudou totalmente. Nós tínhamos um coreto antigo, muito lindo aqui, onde hoje, mais ou menos, tem uma gruta. Nós tínhamos um mercado municipal, que era aqui na praça. Eram aqueles mercados antigos, que mostrava a cara do distrito. Nós tínhamos, realmente, um cenário de cidade pequena, interiorana. Aqueles povoadozinhos de interior e era muito gostoso e aconchegante. E hoje Humildes está crescendo de maneira meio que desordenada, muito bagunçada. E isso é muito triste de se ver. A gente olha, assim, está muito desorganizado.”

A moradora concorda com o pensamento de que por ser o maior distrito de Feira de Santana e contar com uma economia tão forte a cidade merecia ser tratada com mais carinho.

“Humildes tem muitas indústrias aqui dentro. Humildes está meio à toa, sujo, abandonado e a gente fica triste. Não é isso que a gente queria para o nosso distrito. Eu acho que a administração pública poderia olhar mais para o nosso distrito, para as nossas ruas. O nosso distrito cresceu muito, as pessoas têm filhos, e os filhos vão crescendo e vão ficando aqui. Muitos foram embora, mas muitos não. Então eles trabalham nessas indústrias do entorno. E para a gente é legal, é interessante. Tem muita gente trabalhando nessas indústrias. A população foi beneficiada com isso.”

Ao falar da parte cultural, a agente de viagens destacou como forte as quadrilhas juninas.

“Elas estão evoluindo, estão ficando cada dia mais bonitas. As meninas estão se dedicando cada dia mais e hoje o que marca muito aqui em Humildes mesmo, que eu vejo, é a nossa quadrilha. Fora isso, tem a festa da nossa igreja, a festa da padroeira, que é uma festa religiosa.”

Apesar dos percalços, ela considera que no distrito estão suas verdadeiras raízes, pois está perto das pessoas que mais ama. “Aqui é meu lar, minha casa, onde tem as pessoas que você conhece e que você ama perto. É aconchego. Sabe aquela história de você chegar em um lugar e dizer ‘tô em casa?’.”

Ela acrescentou que guarda ainda em suas memórias, a infância com os amigos no antigo Rio da Rua, e lamentou que hoje o rio, praticamente, tenha desaparecido.

“O povo conhece como Rio da Rua. Antigamente, aqui, aos domingos, os senhores daqui tinham caminhões, que hoje são carretas, mas antigamente eram caminhões. Então eles ficavam ali todos parados em torno do rio lavando os seus carros. Era a diversão do domingo aqui. E ele tinha bastante volume de água. Então, nas festas da padroeira, na quinta-feira, tinha a lavagem da igreja. Nós íamos ao rio, a criançada toda, as pessoas mais velhas, com baldes na cabeça carregando água do rio para lavar a igreja. E hoje, quando a gente vê o rio na situação que está, da forma que está, é muito triste. Está abandonado, poluído e praticamente existe apenas uma fileirinha de água, todo poluído.”

Humildes também abraça quem vem de fora

Natural de Salvador, o jornalista Rafael Marques da Silva se mudou para o distrito aos 10 anos, em março de 2006, a convite das tias, após o falecimento de sua mãe.

“Passei a minha infância inteira em Salvador, que é minha cidade natal. A gente veio para cá, para Humildes, a convite da própria família. E aqui concluí o ensino fundamental, estudei o meu ensino médio aqui, comecei a trabalhar. A maioria das minhas amizades, das pessoas que a gente conhece hoje, muita gente considera como família. Foram daqui de Humildes os vínculos que a gente construiu, tanto de amizade como profissionais.”

Rafael Marques - Jornalista _ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Para ele, o ponto mais forte da sua história em Humildes foi a descoberta da sua afinidade com o Jornalismo e as oportunidades que surgiram a partir disso.

“Minha primeira oportunidade dentro da comunicação foi na Câmara de Vereadores, na Rádio Sul-Bahia, como estagiário através daqui, dos conhecimentos que eu adquiri aqui no distrito de Humildes. Então, Humildes tem um significado muito especial para mim. É como se eu tivesse nascido aqui por causa desses vínculos que citei e pretendo passar mais um bom tempo por aqui. A gente vai tendo novas oportunidades, vai conhecendo novas pessoas, e independente se um dia Deus me tirar daqui para qualquer outro lugar, Humildes jamais vai sair do meu coração.”

Por conta da sua vinda para Humildes, Rafael construiu grandes amizades em Feira de Santana e conseguiu se realizar profissionalmente. Ele entende, porém, que o distrito carece de mais investimentos para continuar avançando.

“Humildes tem muito a crescer, pode avançar muito mais. Quando eu cheguei aqui em 2006, de lá para cá mudou muita coisa, em termos de estrutura, infraestrutura, a população também. Tem muita gente que, assim como eu, veio de fora, e eu sei que o distrito de Humildes vai crescer muito mais, ele merece muito mais. Tem um porte de cidade, o maior distrito de Feira de Santana.”

Humildes_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Com informações do jornalista Kaio Vinicius, do Acorda Cidade.

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