14 de October de 2026
Imagem: Divulgação/Universidade de Salento

Arqueólogos localizaram sob quatro metros de terra os alicerces da porta principal de Apulum, um acampamento militar romano do século II em Alba Iulia, na Romênia. A descoberta ocorreu no bastião Capistrano, dentro da cidadela de Alba Carolina, e identifica a entrada que dava acesso ao acampamento da legião XIII Gemina.

A plataforma de pedra encontrada pertencia a uma das torres que flanqueavam a entrada. Com base nela, os pesquisadores determinaram as dimensões e a localização da porta principal, chamada porta praetoria, denominação que os romanos davam às entradas centrais de seus acampamentos militares.

Uma fortaleza estratégica de pedra descoberta por arqueólogos

A reconstrução indica uma estrutura com duas torres retangulares, dois arcos separados por um muro e grandes blocos de calcário. Os arqueólogos usaram como referência a porta sul, descoberta em 1986 e parcialmente restaurada, e aplicaram a técnica opus quadratum, que usava pedras talhadas encaixadas com pouca ou nenhuma argamassa.

Após conquistar a Dácia em 106, a legião XIII Gemina construiu o acampamento com defesas de terra e paliçada. Por volta de 138, cerca de 30 anos depois, o recinto foi reconstruído em pedra e permaneceu em uso até a retirada romana da província, entre 271 e 275.

A fortaleza media 480 por 432 metros, cobria 20,7 hectares e tinha uma muralha de sete metros de altura e mais de dois metros de espessura. O fosso tinha de cinco a seis metros de profundidade.

A escavação revelou que os alicerces romanos ficaram incorporados à porta medieval de São Jorge, construída no mesmo local mais de mil anos depois. A arqueóloga Anca Timofan, coordenadora do projeto, ressaltou que esse achado confirma relatos de viajantes estrangeiros do século XVII que já mencionavam a origem romana daquela entrada.

O cronista Wolfgang Bethlen, em seus escritos, descreveu dois acessos gêmeos na cidadela e identificou o oriental como porta de São Jorge, mencionando uma imagem de Rômulo e Remo amamentados por uma loba acima daquela abertura, que considerou possivelmente uma relíquia romana.

Até então, essa ligação era conhecida apenas por fontes escritas, agora há evidência material que confirma a continuidade entre a entrada romana e a construção medieval que a sucedeu.

O que esse achado muda na compreensão de Alba Iulia?

Pela primeira vez, há evidência material para o que cronistas estrangeiros do século XVII já suspeitavam: a porta medieval de São Jorge foi construída sobre ruínas romanas. Antes, essa ligação era apenas uma teoria baseada em relatos escritos.

Os alicerces mostram que a mesma localização foi usada como entrada para a cidade durante mais de mil anos, primeiro como acampamento militar romano, depois como fortaleza medieval.

Essa continuidade mostra que a geografia estratégica do lugar, a posição que o torna um bom ponto de acesso, e defesa, foi reconhecida e reutilizada por povos diferentes ao longo dos séculos. A descoberta confirma que as camadas históricas de Alba Iulia estão ligadas: primeiro, pelo acampamento militar romano; depois, pela fortaleza medieval.