10 de February de 2026
alunos, crianças, estudantes na escola
Foto: Wavebreak Media/Freepik
Três fatores mais comuns: peso acima do recomendado, má distribuição do material dentro da mochila e ajuste inadequado das alças.
alunos, crianças, estudantes na escola
Foto: Wavebreak Media/Freepik

Com o início do ano letivo, crianças e adolescentes voltam a circular com mochilas cheias de livros, cadernos e outros materiais. Quando o peso ultrapassa o recomendado ou o acessório é usado de forma inadequada, podem surgir dores nas costas, nos ombros e no pescoço, além de alterações posturais. Esses impactos costumam aparecer ainda na fase escolar e podem interferir na rotina, no desempenho nas aulas e na prática de atividades físicas.

A dor nas costas, aliás, não é exclusividade da vida adulta. Uma metanálise internacional que reuniu dados de diferentes países aponta que cerca de 12% das crianças e adolescentes relatam dor lombar em um determinado momento. Esse percentual sobe para mais de 30% ao longo de um ano e tende a aumentar progressivamente com a idade. Os estudos reforçam a importância da atenção precoce no ambiente escolar e em casa, antes que desconfortos recorrentes se transformem em problemas persistentes.

Para a fisioterapeuta Dra. Mariana Milazzotto, mestre em Ciências Médicas, a volta às aulas é um momento estratégico para pais e escolas observarem sinais iniciais e ajustarem hábitos. “Dor nas costas não precisa fazer parte da infância. Quando o corpo recebe uma carga maior do que consegue sustentar, o aluno passa a compensar com a postura, a marcha e a tensão muscular. Corrigir no início costuma evitar a progressão do problema”, afirma.

Segundo a especialista, três fatores costumam estar por trás das queixas mais comuns: peso acima do recomendado, má distribuição do material dentro da mochila e ajuste inadequado das alças. “É frequente ver alunos usando a mochila muito baixa, solta ou apoiada em apenas um ombro. Esse padrão desequilibra a carga e sobrecarrega a coluna e a região dos ombros”, explica.

Quanto a mochila deve pesar

A referência mais adotada em campanhas e recomendações pediátricas no Brasil estabelece que o peso da mochila não ultrapasse 10% do peso corporal da criança ou do adolescente. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) adota esse parâmetro e reforça que o tamanho da mochila, o ajuste das alças e a presença de cintas de estabilização também influenciam no impacto sobre a coluna.

Na prática, a recomendação funciona assim:

  • criança com 30 kg: mochila de até 3 kg
  • criança com 40 kg: mochila de até 4 kg
  • adolescente com 50 kg: mochila de até 5 kg

O que pais e responsáveis devem observar

O alerta deve ser ligado quando surgem queixas repetidas após o período escolar, como dor nos ombros, pescoço ou região lombar, marcas profundas das alças na pele, formigamento nos braços, fadiga ao caminhar com a mochila ou necessidade de inclinar o tronco para compensar o peso. A SBP relaciona o excesso de carga e o ajuste inadequado ao aumento de dor e risco de lesões musculoesqueléticas.

Milazzotto também orienta observar mudanças sutis no comportamento. “Recusa em carregar a mochila, irritação ao chegar da escola, redução da atividade física e postura mais curvada ao sentar ou andar são sinais que merecem atenção”, diz.

Medidas simples para reduzir a sobrecarga

Pequenas mudanças no dia a dia costumam reduzir o impacto sobre a coluna sem gerar custos extras para a família:

Revisar o conteúdo da mochila: levar apenas o material necessário para aquele dia. Sempre que possível, deixe livros e cadernos na escola.

Ajustar corretamente no corpo: usar as duas alças, bem ajustadas, mantendo a mochila próxima às costas e em posição mais alta. Quando disponível, utilizar a cinta abdominal para maior estabilidade.

Distribuir o peso adequadamente: objetos mais pesados devem ficar encostados nas costas. Materiais leves podem ir nos bolsos externos.

Escolher o modelo certo: mochilas grandes demais favorecem o excesso de carga e dificultam o ajuste ao corpo.

Evitar carga extra desnecessária: planejar a semana para não acumular, no mesmo dia, materiais esportivos, instrumentos ou eletrônicos sem necessidade.

Estimular movimento e fortalecimento: sedentarismo e baixa força de tronco também se associam à dor nas costas. A própria metanálise mostra que a prevalência aumenta com a idade, o que reforça a importância da prevenção desde cedo.

Mochilas de rodinhas ajudam ou atrapalham?

As mochilas de rodinhas podem ser uma alternativa para reduzir a sobrecarga nas costas, especialmente em dias com grande volume de material. Ao evitar o peso direto nos ombros e na coluna, elas ajudam a diminuir o risco de dor e desconforto durante o crescimento e, por isso, costumam ser indicadas quando a carga ultrapassa o recomendado para mochilas tradicionais.

O benefício, no entanto, depende do uso correto. Puxar a mochila sempre com o mesmo braço, caminhar em terrenos irregulares ou subir escadas carregando o acessório pode provocar torções da coluna, sobrecarga nos ombros e dores no pescoço. Além disso, o próprio peso da mochila de rodinhas, geralmente maior e mais rígida, pode se tornar um problema quando precisa ser levantado. A orientação é ajustar a alça para manter a mochila próxima ao corpo, alternar o braço durante o trajeto e, ao subir escadas, usar modelos com alças acolchoadas apoiados nas costas, distribuindo o peso de forma equilibrada.

Quando é hora de intervir

A recomendação é procurar avaliação profissional quando a dor:

  • persiste por semanas, mesmo após reduzir o peso e ajustar a mochila;
  • limita atividades simples, como sentar, caminhar ou praticar esportes;
  • vem acompanhada de formigamento, perda de força ou dor que irradia para as pernas;
  • surge após quedas ou impactos;
  • piora à noite ou aparece associada a outros sinais gerais.

“O objetivo não é alarmar pais e escolas, mas tratar a dor como um sinal do corpo, e não como parte da rotina escolar”, conclui Mariana Milazzotto.

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